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domingo, 9 de abril de 2017

"Abril para o Teatro" novamente na coragem e intrepidez

Rafael Amâncio, jornalista, ator e idealizador do Abril para o Teatro
O primeiro "Abril" foi em 2013, depois teve outra edição em 2016, agora teremos a terceira edição deste festival que acontece, como muita cena cultural no município, sempre com muita dificuldade de conseguir apoio, porém com o máximo de qualidade possível. Só que este ano você enfrentou uma dificuldade a mais que foi este acidente que atingiu parte de sua visão. Como está agora?
Rafael - Está tudo bem. Estou tratando e me recuperando. retirei o tapa-olho. Foi apenas 24h mas senti na pele as dificuldades da perca de 50% da visão. Isso foi uma prova de quanto é difícil andar por Caruaru na rua. O ambiente urbano está defasado e essas pessoas sofrem todos os dias isso. Mexeu muito comigo, sou muito ativo e prático olhar, e me bateu um receio de ficar prejudicado com isso, necessito estar no palco, necessito trabalhar! A luz é fundamental em minha vida. A imagem é a luz. Ainda estou um pouco emotivo com tudo isso.
Por conta do incidente o ator precisou
usar tampão no olho
Além disso tem o que poderíamos chamar de cegueira da sociedade. Ela pode ser provocada pelo distanciamento existente entre os indivíduos, por exemplo. Os que só olham seus próprios interesses. Isso tudo influenciou na decisão de homenagear os deficientes visuais?
Rafael - É, e eu me deparei com algumas questões particulares nessa mesma situação, o respeito ao próximo está muito distante no convívio social. Ninguém quer ver o outro bem, isso limita as pessoas, isso demonstra e ao mesmo tempo denuncia um mau da sociedade contemporânea, a comunicação está acelerada, as pessoas pouco trocam olhares ou se tocam! Isso ta cada vez mais distante, em segundos um estopim, e ai vem o conflito, eu compreendo que deve e é necessário existir conflitos, porém as pessoas devem "respeitar" umas às outras, entender um ao outro, ninguém caminha sozinho ou é Rei sozinho. Somos irmãos, acredito que isso é enxergar, isso é estar vendo e percebendo a vida!
Me fala sobre essa mesma questão relacionada ao universo teatral.
Rafael - O teatro é uma manifestação necessária do ser humano. Isso deve e tem que ser valorizado, todo indivíduo é capaz a partir da sua espontaneidade de fazer teatro. Trabalho com todos os grupos de teatro de Caruaru, realizo projetos no SESC, na ASSARTIC com Jô, trabalho na produção do FETEAG com o TEA, faço parte do Grupo Feira de Teatro o qual é presidido por Sebá, todos são parceiros colaboradores da arte, não consigo ter divergência com ninguém. E ao mesmo tempo me pergunto, até onde vai as diferenças? Respondo vai até onde existe tolerância, e saber que a cima de todos nós existe a história que essa eu defendo, Agemiro, Vital Santos entre outros deixaram uma história que deve ser preservada, agora sem vaidade e sem raiva, com verdade e trabalho qualquer pessoa chega lá.
Você leu o romance "Ensaio sobre a cegueira" (1995), de José Saramago? 
Rafael - Não conheço. Fiquei curioso agora! Para essas pessoas eu confirmo que todas as batalhas são grandes e cheias de percalços, porém o que é proveniente de merecimento, as conspirações da vida são naturais e vitais em nossas vidas, ninguém leva um choque se não for providência, assim como de repente você recebe a notícia de que vai ser pai!
Você começou muito jovem no teatro e citou alguns nomes que são referência no meio artístico. Que outros nomes lhe inspiram?
Rafael - É uma trajetória pequena no mundo da arte, apenas 16 anos. Tive a oportunidade de conviver com pessoas de renome, como Marcos Palmeira, Domingos, Luiz Fernando Carvalho entre outros, incluo também Sebastião Alves, Severino Florêncio, Nildo Garbo, Arary Marrocos entre outros. E percebi e senti ao mesmo tempo o quanto essas pessoas são compromissadas com o que faz. Tenho profunda admiração pelos gestos dessas pessoas, isso é aprender com o outro o melhor que ele tem o que me fez mudar e reafirmar o meu compromisso.
Espetáculo "O Aboio"
O abril para o Teatro vai abrir a visão de muita gente. Acontecerá entre os dias 26 a 30 de abril. O que teremos este ano?
Rafael - O abril tem como propósito retomar o teatro na rua para as pessoas. Motivar esse olhar, essa energia que é o ambiente urbano e que nunca para. Vamos provocar com discursos a cerca da educação com Paulo Freire no primeiro espetáculo. Vamos mostrar a decadência da rua com os palhaços mulungus. Vamos reverenciar a musicalidade e o rito do boi, símbolo de resistência e troféu do sertanejo com o espetáculo "Aboio".
Vamos trazer a rasgação criativa de Glauber Rocha com o cinema novo com o espetáculo "Eu história". Muita coisa pertinente entende? É o grito contra a não violência, contra a intolerância, a rua será nossa casa esse é o lema do festival.
Parabéns por sua garra. Mais uma vez ainda que sem apoio mas com muita determinação. Quem dera o resultado de tudo isso desemboque em vidas com um olhar mais atento para a vida...
Rafael - Obrigado pela entrevista. Tudo provém do merecimento, a gente só tem aquilo que merecemos, acreditar na vida e nas maravilhas que ela propõe é entender que estamos aqui para cumprir um papel, viva e não tenha medo de ser feliz.

Saiba mais detalhes sobre o Festival acessando aqui.

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