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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Da janela do olhar: o teatro em corpo e ritmo. Por Cika Favel*


Acreditando na potência da arte teatral como pesquisa e, no seu lado pedagógico, as oficinas de teatro do TEA** se apresentam numa forma de trabalho artístico-inventiva, que desloca subjetividades e as faz circular e transitar por novas maneiras de re-existir. Entretanto, para chegar nestes quesitos é preciso passar por um processo interno e, antes de tudo, conhecer a si mesma(o).

Nessa ideia e, através de um trabalho lúdico e experimental que acontece todos os sábados à tarde, no TEA, até o mês de julho,  a oficina corpo e ritmo. Tendo como ementa a compreensão de alguns fundamentos da capoeira angola, noções de ritmo, equilíbrio, além do treinamento de atriz/ator e suas relações com a arte do corpo. Sem dúvida, desenvolve-se com esta oficina as potencialidades expressivas do corpo em movimento que, se comunica, "simboliza, significa e esboça. Ao se comunicar com o público, o corpo do(/a) ator/bailarino (atriz/bailarina) estabelece um diálogo entre o palco e a platéia, portanto a ação teatral é uma concreta e palpável comunicação entre as pessoas." (ALVES, 2008)***

Um trabalho corporal alienado, exercido sem autonomia, em que a valorização da singularidade das(os) indivíduas(os) e da possibilidade de invenção de novos territórios existenciais não é levada em conta, forma linhas duras que, capturam os corpos no fazer mecanicista e árido da vida cotidiana. Assim, desconstruindo a realidade engessada, nossos encontros, dentro da oficina, ganham um caráter libertador e cria espaços para que fluxos inventivos, circulem promovendo novas formas de se vivenciar o corpo na sua espontaneidade. Retirando-se do corpo as amarras e os bloqueios, ganha-se autonomia, singularidades e muito mais autoconhecimento. Eis, então, o desafio: deslocar e tirar a reprodução do corpo alienado durante a oficina através de relaxamentos, aquecimentos e alongamentos energéticos, brincadeiras, danças, jogos, exercícios vocais e corporais.

Dessa maneira, a oficina corpo e ritmo salienta a importância do corpo no ofício da atriz/ator, e a relação entre ritmo, movimento e imaginação no fazer do corpo em estado de arte. E, assim, as oficinas podem ser também um dispositivo de criação. Essa justaposição de processos e funcionamentos se dá pela imanência que conjuga imagens, formas e forças coexistindo no tempo/espaço do corpo.

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*Arte-educadora, atriz, brincante, diretora teatral, pesquisadora e preparadora vocal. Em 2014 formou-se no curso de Licenciatura e Bacharelado em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC.  Integrante do grupo E.T.C. e do Coletivo Peabiru Teatro. Atualmente, realiza uma pesquisa no estado de Pernambuco acerca das brincadeiras tradicionais existentes na cultura popular.

**Teatro Experimental de Arte: grupo fundado em julho de 1962 por Arary Marrocos, Argemiro Pascoal e outras(os) fundadoras(es), na cidade de Caruaru (PE) e situado no Teatro Lício Neves (bairro Indianópolis). Desde sua fundação o TEA promove peças, cursos, oficinas e seminários voltados para jovens, estudantes e população local.


***ALVES, Paulo Vinícius. O corpo em movimento: um lugar fértil de investigação. Curitiba, PR: FAAP, 2008. 

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