.

.

.

.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Especial Caruaru 160 anos - Asas do frevo e crônicas de Caruaru: a versatilidade na obra de Carlos Fernando

Responsável por modernizar o frevo com pitadas de forró, jazz e MPB nas composições, Carlos Fernando foi um dos principais nomes da música pernambucana. Nascido em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, ele compôs músicas de sucesso, como “Banho de Cheiro” e “Canta Coração”, na voz de Elba Ramalho. Na década de 1980, produziu o "Asas da América", projeto que contou com grandes artistas da música brasileira, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Jackson do Pandeiro, e divulgou o frevo no país.
O caruaruense também participou da produção do CD "100 anos de Frevo – É de perder o sapato", lançado em 9 de fevereiro de 2007, quando o ritmo recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Em 2009, foi um dos homenageados do Carnaval do Recife, e em 2014, do São João de Caruaru.
No aniversário de 150 anos da Capital do Agreste, o compositor produziu um disco chamado "Crônicas Musicais de Caruaru", o que Onildo Almeida, outro compositor caruaruense, considera um documentário sobre a história do município. Em 2014, ele ganhou um espaço no Museu Memorial de Caruaru, onde estão reunidas obras da carreira. Carlos Fernando morreu em setembro de 2013, aos 75 anos, no Recife.
“Ele fez o povo de Pernambuco redescobrir o frevo, o carnaval. Sem as criações dele, acredito que o carnaval teria virado uma festa com influências baianas. Ele também tentou fazer isso com o forró nos anos oitenta. A poesia de Carlos sempre foi em crônicas”, destaca o cientista social e poeta Demóstenes Félix, amigo pessoal de Carlos Fernando.

Mas sabia que era feliz
Carlos Fernando cresceu em Caruaru. E no Coração do Agreste – título de uma de suas letras – deixou muitos amigos. Um deles, o empresário Lamartine Oliveira, de 69 anos, afirma que ele era uma pessoa diferenciada. “Eu fui amigo de infância, o conheci em 1959. Quando ele vinha para Caruaru dormia na minha casa e nós saíamos para beber. Era uma pessoa fora de série. Ele tinha uma sensibilidade fora do comum, era uma pessoa rara”, relembra.
Outro amigo, o poeta Demóstenes Félix lembra que conheceu Carlos por meio do jornalista Souza Pepeu. “Antes de conhecê-lo pessoalmente, eu conhecia a arte dele. Quando ele vinha para Caruaru nós nos encontrávamos. Carlos sempre foi meio hippie, sem lugar definido. Foi para São Paulo, para o Rio. A geração dele viveu na ditadura e ele a traduziu em canções", pontua.
Apesar de ter sido um dos homenageados no São João, o sociólogo e professor Arnaldo Dantas afirma que Carlos não recebe a valorização necessária em Caruaru. “Nenhum compositor de Caruaru teve uma expressão nacional como ele. Era um cara extremamente versátil e inteligente, mas não é tão reconhecido como deveria. Infelizmente a cidade não tem memória. A história cultural vai se diluindo com o tempo. Poucas pessoas conhecem a dimensão de Carlos Fernando”, pontua o sociólogo.

Primeiro e maior parceiro
Parceiro de composições e o artista que mais gravou a obra dele, Geraldo Azevedo lembra que conheceu Carlos Fernando nos movimentos culturais do Recife. A primeira parceria dos dois foi a música "Aquela Rosa", composta em 1966. Depois disso, formaram um grupo chamado "Raíz", que trazia referências de música e literatura.
“Ele foi o primeiro parceiro e o maior da minha carreira. Eu também devo ser o maior da carreira dele. Eu tenho vários parceiros, mas nenhum com a mesma quantidade de músicas. O meu disco ”Bicho de Sete Cabeças” tem sete músicas de Carlos Fernando. Todos os discos que fiz em minha carreira tem músicas dele. Ele foi um grande compositor independente, mas a maioria são parcerias comigo”, revela Geraldo Azevedo.
Um dos temas mais presentes nas composições dos dois era Caruaru. Elementos e personagens da cidade foram lembrados nas letras. Como em "Rua da Matriz", "Coração do Agreste" e "Social Guanabara".
“Acredito que ele foi uma das pessoas mais importantes de Caruaru. Sei que a cidade tem grandes artistas, mas a notabilidade dele como criador, como um homem da comunicação, foi muito relevante dentro da geração do final dos anos oitenta pra cá. Ele foi uma das pessoas mais importantes não só para Caruaru, mas para o país, trazendo os dotes em relação ao frevo e a música nordestina", conta o artista.
Há quatro anos sem a presença física de Carlos, Geraldo Azevedo afirma sentir saudade e que planeja homenageá-lo. “Sinto muita falta dele no meu trabalho, mas ele está presente sempre. Eu tenho músicas inéditas que fiz com ele. Estou querendo gravar um disco este ano com uma música dele. Quero ele presente em todos os meus trabalhos. Sonho ainda em gravar um disco só com músicas dele", finaliza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário