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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Especial Caruaru 160 anos - A História do Teatro (parte 1)

Arary Marrocos é uma das homenageadas do São João deste ano. É memória viva do Teatro de Caruaru e única remanescente com vida da cena teatral do início dos anos 50. É membro dos Conselhos Estadual e Municipal de Política Cultural. Natural de Belo Jardim, de 24 de abril de 1938, filha de Osterno Ramiro Bezerra e Elza Marrocos Bezerra. Atriz, produtora, encenadora, educadora, Bacharela em Direito e em Contabilidade. Recebeu o título de Cidadã de Caruaru, outorgado pela Câmara de Vereadores em 2004. Iniciou suas atividades em teatro, no ano de 1952, no Colégio de Caruaru, com a criação do grupo de Teatro Estudantil do Colégio de Caruaru. Participou ativamente do Grêmio Estudantil Heroínas de Casa Forte. Lecionou no Colégio de Caruaru e Instituto Santo Antônio até 1962, quando passa a atuar como contadora. Como veremos nessa entrevista, a primeira de uma série que publicaremos, a sua história se confunde com a própria história do teatro do município. Uma honra para o blog fazer este registro.


Vamos voltar no tempo para descobrir como despertou em você o gosto pelo teatro.
Naquela época eu morava em Belo Jardim, ainda criança. Os pequenos circos iam lá... Mas eram tão pequenos que até as cadeiras era a gente que levava (risos). Papai nos levava todos as noites e após o número de circo eles faziam drama, e quando chegávamos em casa reuníamos a vizinhança, enchia a sala da casa. A gente nem sabia direito o que estava fazendo mas todos gostavam.
Com onze anos eu vim para Caruaru porque em Belo Jardim não havia grupo escolar, quem precisasse estudar ia para pesqueira, Garanhuns ou Caruaru. A gente veio estudar no Colégio Caruaru.
Daí eu vi que no colégio tinha um grupo de teatro e eu comecei a participar.



E o Argemiro?
Ele já fazia teatro há muito tempo. Veio de Bezerros ainda jovem. Já fazia teatro lá e permaneceu aqui. Aí eu fui acompanhando e participando. Ia para os ensaios e espetáculos. Mas não subia no palco apenas ajudava em tudo: varria, fazia maquiagem, abria as cortinas, passava ferro nas roupas, era camareira e contra-regra.

Entre esse final da década de cinquenta e o início de sessenta o que existia no cenário teatral?
Joel Pontes crítico teatral, ensaísta e professor.
Integra vários grupos de teatro como ator
e diretor, entre as décadas de 1940 e 1960.
Até 1962 só existia o Teatro de Amadores. Todas as pessoas que faziam teatro estavam agregados naquele grupo. Então Joel Pontes (foto) trouxe um Festival de Teatro Universitário para Caruaru. Nós assistimos os ensaios. Ficávamos até tarde da noite vendo palestras, a preparação, discussão e trabalhos de corpo. Isso tudo era novidade para a gente, naquela época apenas pegávamos o texto e definíamos o papel de cada um. Muitas vezes nem sabíamos quem era o autor e nem tínhamos preocupação com isso. Apenas encenávamos.

Dava certo?
Dava. Naquela época sem televisão nem outras formas de entretenimento que servisse de parâmetro. Então fazíamos e o teatro Difusora lotava e era bom o que fazíamos.
Vimos que precisávamos aprender mais. Solicitamos a Joel Pontes aquele tipo de trabalho para o município. Precisamos aprender a trabalhar o ator. Ele era professor universitário e disse: “Consigam alimentação e hospedagem, transporte e eu banco o resto.”
Os professores vieram durante dois anos como voluntários. Dependendo da oficina, cada professor vinha um ou dois meses. Então aprendemos tudo que era relacionado a teatro.
Com o sim de Joel, reunimos o Teatro de Amadores de Caruaru, mas a maioria não quis. Então resolvemos começar com quem queria, éramos dez, entre nós o Carlos Fernando.



Então surgiu o TEA?
É, mas ainda não com esse nome. Criamos o Movimento Teatral Renovador (MTR), só que tinha um partido com essa mesma sigla e não queríamos que confundissem. Então resolvemos mudar para Teatro Experimental de Arte, nascia o TEA para poder acolher melhor este trabalho que queríamos fazer. Em 1962 montávamos nosso primeiro espetáculo “Um elefante no Caos” direção de Antônio Medeiros. O TEA está firme até os dias atuais. Montando todos os anos estas oficinas. De março à dezembro descobrindo talentos, formando atores, atrizes e técnicos para teatro. Penso que 80% dos que fazem teatro em Caruaru e cidades vizinhas passaram por oficinas do TEA. Até 2000 contabilizamos mais de 900 atores que receberam formação do TEA.

Você já atuava no palco?
Não. Minha estreia foi em 64. Dr. Isaque deu uma oficina aqui e me empurraram para fazer esta oficina.

Que outras lembranças e influencia você tem do fazer teatral daquela época?
Minha geração foi muito influenciada pelo Teatro Oficina (Considerado um Patrimônio Brasileiro). São grandes atores, um trabalho consolidado muito forte e muito bom. Todos os grandes atores que atuam hoje na televisão e que vieram do teatro, do Arena (O Teatro de Arena de São Paulo foi um dos mais importantes grupos teatrais brasileiros das décadas de 50 e 60). Havia também o Teatro de Amadores de Pernambuco, eles conseguiam trazer grandes diretores.



Que espetáculo de porte nacional você já assistiu que mais lhe marcou?
Macunaíma foi sem dúvida uma das grandes produções nacionais que eu já vi. Foi no Teatro Santa Isabel, Recife. No ano retrasado fomos ver o Théâtre du Soleil no Rio, foi a primeira vez que eles saíram da França para uma turnê no Brasil. Aprendemos muito nestas oportunidades e nunca deixamos de aprender.

Quando o FETEAG entra nessa história?
O FETEAG surgiu em 1982, naquela época os jovens não participavam do movimento teatral, então Fábio Pascoal e Chiquinho, ainda adolescentes, decidiram criar um festival que envolvesse a juventude, os estudantes para o teatro, para a vida cultural de Caruaru, assim surgiu o Festival de Teatro do Agreste. No início apenas cinco escolas participaram, era competitivo por isso as escolas se empenhavam muito e lotava o teatro. Depois ampliamos para o estado e agora é nacional.

O tempo passou, mas a intenção de buscar a qualidade e possibilitar capacitação não mudou, é isso?
Como naquela época buscamos trazer o que há de melhor no Brasil e no mundo. Essa é a visão do Fábio, possibilitar o acesso de bons espetáculos nacionais para nossos artistas que não tem facilidade de se deslocar para São Paulo, Rio, Santa Catarina para assistir um espetáculo de qualidade e discutir com seus atores, o próprio diretor, além das oficinas de formação que vai enriquecer em muito o currículo dos que fazem teatro.

E o que mudou?
A dificuldade financeira permanece mas o fazer teatral mudou muito. Melhorou muito. O teatro hoje é feito com muito profissionalismo, muito estudo e trabalho. Não há improviso e brincadeira, é muito sério. Assim como toda profissão é necessário se preparar, estudar e ousar.

Voltando para o TEA, o que tem de novidade?
Temos várias, uma delas é a solicitação de um grupo de atores para que houvesse formação para cinema. Então no segundo semestre estaremos começando uma oficina para suprir essa necessidade preparando para esta linguagem, será aos domingos.

Para concluir, o que é o teatro para você?

O teatro é a arte mais completa. É transformador. As pessoas que fazem teatro e que gostam de ver espetáculo se modificam. Passam a ver o mundo de uma maneira diferente. Desenvolvem o senso crítico. Passam a ter uma visão maior de mundo. É uma arte que transforma o homem.

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