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domingo, 21 de maio de 2017

Opinião: Do Espaço Cultural para o Polo Azulão. por Frank Junior


O São João é o evento mais importante pra cultura da cidade, e apesar de ter vários palcos e atrações, os artistas locais nunca tiveram muito espaço neles, nem os de cultura popular, nem os mais contemporâneos. Um ou outro conseguia escapar as vezes e tocar no palco principal.

Eu me lembro que bem antes de se ter Polo Azulão, existia toda uma manifestação dentro do Espaço Cultural. Quem não lembra das rodas de ciranda ao som de "Ciranda da Vida", "Boca da Noite" e "Jangadeiro"?

Quando fecharam o Espaço Cultural um ano desse pra colocar a polícia, essa galera ficou órfã dessa efervescência cultural. Foi aí que surgiu o "Garajão", onde na garagem de uma casa, fizeram um som com bandas locais e fizeram a festa na rua, de uma maneira completamente independente.

Isso não é por acaso, isso são gritos de socorro dado pela cultura, é ela querendo falar.

Só então depois surgiu o chamado Palco Alternativo, dentro do galpão na antiga estação ferroviária. Todo sucateado, e escanteado pela mídia. Não se via divulgação nenhuma, nem imagens, nem a programação tinha - me lembro que a programação era dada em "tempo de execução", por final de semana. O palco por ser num lugar fechado e sem mídia, o pessoal passava, achava estranho e nem sabia o que era. Me lembro muito bem de diálogos do tipo:

- onde é o palco alternativo?
- lá no galpão da estação ferroviária pô.
- lá só toca rock né?
- rapaz, lá toca de tudo, inclusive, muito mais forró que o palco principal, vá lá, visite, vale a pena.

Foi a partir disso que surgiu iniciativas como o TaiDoido por exemplo, que era o único lugar que se consultava programação, imagens e informação sobre o Polo Azulão.

Mudaram o nome para Polo Azulão e nesse ano de 2017 (acho que uns 5 anos depois de existência, se não me falha a memória) o palco terá atrações de peso como Lenine, Siba e Chico César. Ótimo, sinal de que as coisas estão melhorando, mas ainda assim, faltando 15 dias pro SJ, não se tem a programação, só foram divulgados alguns nomes, e todo mundo sabe que essa antecedência na contratação é sinal de organização e de fundamental existência, até para os próprios músicos se organizarem.

E apesar desse ano ter 17 palcos no São João, só foi divulgado a programação completa do palco principal e ainda com a chamada "foi divulgada a programação completa do são João de Caruaru". Ora, de 17 palcos, só foi divulgado a programação de um e alguns nomes do outro, isso é "programação completa"?

E lembram daqueles artistas que eu falei que tocaram na época do Garajão e do início do palco-sucateado-sem-midia por pura militância e amor a arte? Eles foram o que lutaram no começo, e eles continuam cantando e produzindo, e são reflexos da produção cultural da cidade, assim como os artistas autorais que surgiram depois. Caruaru tem uma cultura muito rica, uma produção autoral muito latente (isso é assunto pra outro texto), e deveriam estar lá no Polo Azulão, que é o espaço criado a partir de muita luta e história pra dar vazão a toda essa explosão cultural que tem em Caruaru.

"Preciso de ação
Não vou andar na contra mão dos fatos
Do óbvio eu sempre fujo
E do maldito cujo esteriótipo."
(Composição de Ronaldo Lampi, gravada por Thera Blue)
"O poder cria a ferida
Mas o povo reinventa a vida
A palavra, a força, o desejo
Vão refazer esse chão"
(Outras Coisas)

Procurem saber sobre os artistas locais e a produção da sua cidade, assistam os shows, existe vida na cultura local, pra não #MorrerEmPernambuco.

Frank Junior

Desenvolver de software e pesquisador e responsável pelo Coletivo de Comunicação TaiDoido

3 comentários:

  1. Parabéns Frank, de pleno acordo com sua última frase: "Procurem saber sobre os artistas locais e a produção da sua cidade, assistam os shows, existe vida na cultura local, pra não #MorrerEmPernambuco.". Valeu

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  2. Encarei o texto como um trampo de um Artista da cidade, com a vivência de anos de estrada no meio !!!
    Não um desabafo, tipo uma Poesia!

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  3. Texto incrível...
    Um breve relato histórico desse palco que é feito por artistas da terra e que merece um olhar mais sensível, mais atenção e investimento.

    Arrasou no texto, Frank!!!!

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