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sexta-feira, 16 de junho de 2017

"A Flip não vai falar de militância o tempo inteiro"

Já dava para reparar uns ares de mudança na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), maior festival de literatura do país, quando se anunciou, em novembro passado, o nome do autor que seria homenageado no evento deste ano: Afonso Henriques de Lima Barreto, negro, pobre, suburbano. A ideia de reverenciá-lo veio da jornalista baiana Joselia Aguiar, curadora da 15ª edição da Flip, que acontece entre os dias 26 e 30 de julho. Ela redescobriu o escritor em meio à pesquisa para produção da biografia de Jorge Amado, ainda sem data de lançamento. Jorge o considerava o grande autor popular do Brasil, e Joselia buscou entender o porquê. “Descobri um autor inventivo, com um olhar político e social extremamente crítico em sua época, prolífico e de humor particular”. A programação da Flip, divulgada no final de maio, acompanha esse olhar. Pela primeira vez na história, haverá mais mulheres que homens entre os autores convidados, e a edição contará com 30% de escritores negros. Nada mal para uma festa que chegou a ser chamada, no ano passado, de “Arraiá da Branquitude”. Em entrevista à Muito por e-mail, Joselia fez questão de ponderar que o evento é literário, e não militante. A confusão entre uma coisa e outra representa, para ela, um “preconceito às avessas”. “Precisamos nos acostumar a ter mais mulheres e negros nos eventos literários sem limitá-los a certos temas ou papéis. Os autores estão livres para falar do que quiserem, não podemos aprisioná-los com essas expectativas”.
No ano passado, houve protestos pela falta de diversidade na Flip, que chegou a ser chamada de “Arraiá da Branquitude”. Em que medida essas manifestações influenciaram suas escolhas na definição da programação deste ano?
Não estive na Flip no ano passado. O meu contato com o Grupo Intelectuais Negras da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] – que organizou o protesto – se deu assim que fui nomeada curadora, em outubro. Encontrei na historiadora Giovana Xavier uma interlocutora. Queria ouvi-las para entender como, sendo uma festa de literatura, poderíamos tornar mais diverso o programa. Como resultado desse diálogo, convidei-as para fazer o lançamento, durante a Flip 2017, de um catálogo-portfólio que faz um primeiro levantamento de intelectuais negras em atividade hoje. Elas vêm realizando esse trabalho há tempo na UFRJ, e fico contente de a Flip se tornar o primeiro lugar em que vão apresentar as primeiras conclusões do projeto. O ativismo negro e das mulheres, que é internacional e é potente na internet, tem operado mudanças nos últimos dois, três anos. Estou muito sensível a isso. Responder a essa necessidade de representação exige pesquisa e mesmo diligência, porque é muito mais rápido fechar uma programação só com autores homens. É claro que essa representação não espelha o mercado editorial. Essa é uma tentativa de representar de outro modo, com recortes específicos.
Também no ano passado, o autor Benjamin Moser notou que não havia negros na plateia. Como promover a diversidade também entre o público?
Há muitas coisas ao alcance da curadoria, outras, não. Temos como convidar autores e pensar debates. Não temos como organizar a vinda e hospedagem do público, nem influir para algo nessa direção. A nossa torcida é que os leitores todos se motivem e encontrem meios de vir. Na nova configuração, além do Auditório da Matriz, há o Auditório da Praça, com muito mais cadeiras sem pagar ingresso e com proteção contra sol e chuva.
A jornalista Josélia Aguiar é a curadora do evento literário deste ano - Foto: José Serra / Divulgação
A Flip deste ano irá apostar em editoras e autores menos conhecidos. De onde veio esse desejo? Você não teve receio de que essa escolha implicasse uma redução de público?
Os nomes são novos, talvez não tão conhecidos no Brasil, mas quase todos são bastante conhecidos em seus países e regiões, alguns são mesmo muito conhecidos. Temos dois vencedores do Man Booker Prize dos últimos dois anos. [O islandês] Sjón é um letrista e romancista também muito conhecido. [A chilena] Diamela Eltit é um grande nome nas letras hispano-americanas. A Flip sempre apresentou novos autores ao país. É uma grande tradição da festa e é motivo de contentamento. Creio que, nos 15 anos da Flip, uma marca podia ser justamente essa, a de trazer alguns daqueles que vêm sendo apontados como os autores que serão centrais na próxima década. A verdade é que lá fora isso também está acontecendo. Lembro que a imprensa europeia no fim do ano passado, ao comentar os finalistas do Man Booker Prize, registrava isso.
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Fonte: A Tarde

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