02/11/18

Gestor público britânico defende criatividade na economia


John Newbigin dedica a carreira à economia criativa. Fundou e é CEO da Creative London, uma parceria público-privada que investe em negócios criativos e em tecnologia digital. Na década de 1990, Newbigin foi assessor especial do ministro da Cultura e esteve envolvido nas primeiras políticas públicas britânicas de economia criativa. Ao longo de sua trajetória profissional, falou e escreveu extensivamente sobre o assunto. Em 6 de novembro, falará mais um pouco, durante palestra gratuita no MicBR.
Em entrevista ao portal do MicBR, Newbigin defende que a economia criativa, um dos setores que mais cresce – e mais rápido – na economia global, deveria ser central em todo país, não apenas por gerar empregos, mas por trazer soluções para relevantes questões existenciais do mundo. Ele conta que o Reino Unido pode ajudar a abrir oportunidades para jovens de comunidades marginalizadas, que têm talento e criatividade, mas não têm meios de seguir as carreiras que gostariam. Além disso, defende escolas que estimulem a criatividade, para que evitem preparar jovens para uma economia e uma sociedade que já não existe. “Propriedade intelectual está se tornando mais valiosa do que propriedade física”, afirmou.
1) Por que a economia criativa é importante? Quais são os principais benefícios e desafios de desenvolver e investir nesse setor?A economia criativa deveria ser central em todo país. É um dos setores que mais cresce – e mais rápido– da economia global. E isso é verdade em todas as regiões, não apenas na Europa e América do Norte. Mais importante, gera empregos, empregos que os jovens querem ter e que robôs não conseguem fazer. Uma das forças das indústrias culturais é que dependem da criatividade humana e da inteligência emocional, não são empregos que máquinas podem executar. No jargão econômico, são intensivos em mão de obra, não intensivos em capital. O chefe da maior empresa de telecom do Reino Unido brinca que você não precisa de muito dinheiro nem de muita qualificação para começar um trabalho na economia criativa, você só precisa ser inteligente e ter um smartphone!
Criatividade e pensamento criativo são fundamentais para o futuro de todos porque temos problemas massivos nas cidades – habitação, poluição, transporte, água e serviços energéticos – e temos de pensar em formas radicais e criativas de como resolver esses problemas. E, finalmente, estamos destruindo o planeta em que todos nós vivemos, não podemos continuar sendo tão imprudentes. É frequente dizermos que o petróleo foi o combustível que impulsionou a economia do século 20. É a criatividade que conduzirá a do século 21. A diferença entre os dois é que, quanto mais usamos petróleo, menos temos. Mas quanto mais usamos a criatividade, mais criativos nos tornamos e mais rápido conseguimos as respostas para os grandes problemas existenciais que enfrentamos.
2) No Brasil, ainda estamos lutando para mostrar que a economia criativa é um setor de fato relevante. Você acha que no resto do mundo as pessoas já perceberam esta importância?Não. É um processo lento, embora mais e mais países estejam acordando para essa nova realidade. Na China, um dos slogans do governo é “troque fabricado na China por desenvolvido na China”. Eles entendem que é melhor ser a pessoa que tem as ideias e é dona das ideias do que a pessoa que fabrica os artigos. Se você comprar um Iphone, cerca de 60% do preço vai para a Apple, que o desenvolveu; apenas 6% vai para a companhia da China que de fato fabricou o aparelho. Propriedade intelectual está se tornando mais valiosa do que propriedade física.
3) Você é o CEO da Creative England. Pode nos contar um pouco sobre essa experiência?Na Inglaterra, o poder e a riqueza são sugados – em demasia – para Londres, então quando criamos a Creative London, dissemos que só trabalharíamos fora de Londres. Nosso mantra era “Talento está em toda parte, mas a oportunidade não” e foi exatamente isso que encontramos. Há pessoas talentosas com ideias incríveis em quase toda localidade, mas frequentemente elas não têm o dinheiro, o network e a confiança para colocar suas ideias em prática. Então, além de investir financeiramente, a gente conecta essas pessoas a mercados e a uma rede de contatos profissionais e tentamos dar a elas a confiança para sair para o mundo.
Outra coisa que decidimos é que o dinheiro que o governo nos deu como subsídios para pequenas empresas, nós só daríamos como empréstimos. O resultado é que as companhias em que investimos têm de manejar as finanças com mais cuidado, então elas têm uma chance bem maior de sustentabilidade – e recebemos o dinheiro de volta que pode ser investido em outros negócios. Nosso fundo também se torna sustentável.
4) Você acredita que algumas experiências inglesas exitosas poderiam ser aplicadas aqui no Brasil?Uma das verdades sobre economia criativa é que não há dois lugares parecidos. Cada cidade, cada região, cada país é diferente e tem de ser construído em suas próprias tradições criativas, suas habilidades, sua herança, sua cultura. É como uma planta que cresce- o sucesso depende do clima, do solo, da quantidade de chuva, não há dois lugares iguais. É claro que é bom ter um intercâmbio de ideias e aprender com os outros, mas cada país tem que encontrar seu próprio caminho. O importante é olhar para o que é distinto e criativo na sua própria localidade.
O mais recente estudo das Nações Unidas sobre economia criativa global mostra que as mais exitosas políticas são aquelas baseadas em olhar para ao ativos e pontos fortes da localidade, não em suas necessidades. Você começa pela criatividade das pessoas.
Mas uma coisa que podemos fazer do Reino Unido é ajudar a abrir oportunidades para jovens de comunidades marginalizadas, que tem talento e criatividade, mas não têm meios de seguir com as carreiras que gostariam. O British Council lançou uma importante inciativa no Brasil, chamada “Developing Inclusive and Creative Economies” (DICE). Ela encoraja jovens criativos empreendedores a ter confiança para estabelecer seu próprio negócio. Estamos ansiosos para compartilhar a experiência que ganhamos com o Creative England e várias outras iniciativas do Reino Unido e do Mundo para ajudar e apoiar jovens empreendedores do Brasil.
5) Como você acha que o Brasil poderia explorar mais, e melhor, a sua economia criativa?Não conheço o Brasil bem o suficiente para responder essa pergunta, mas sei que vocês têm uma rica e criativa cultura, reconhecida mundialmente. Para competir na economia global, não acho que precisa ser como os outros. Na verdade é o oposto. É preciso ser diferente, distinto. A economia criativa brasileira só pode ser construída com a cultura, habilidade e conhecimento do povo brasileiro, é isso que uma economia criativa realmente é. Não é como uma fábrica de carros ou de roupas que pode ser realocada em qualquer parte do mundo e em que a força de trabalho é barata e a regulação, fraca.
As indústrias culturais crescem do coração e da mente das pessoas. É claro que isso significa também que você precisa de escolas que encorajem as crianças a serem criativas, a pensarem por elas mesmas, a compartilhar ideias, a experimentar. É isso que países bem-sucedidos estão fazendo. Mas muitos sistemas educacionais do mundo vão na direção oposta, em vez de rumar para o futuro, estão rumando de volta para o passado, preparando jovens para uma economia e uma sociedade que já não existe. Isso significa que estão indo para lugar nenhum.
6) O que acha de o Brasil ter um evento dedicado inteiramente à economia criativa?Eu acho maravilhoso ter um evento de tão alto nível celebrando a criatividade e o potencial de uma economia criativa. Encoraja investidores, empreendedores, governo, acadêmicos – e talvez até políticos- a reconhecer que ela tem o potencial de ser um ativo gigantesco para o Brasil, para a América Latina e para o mundo.
Mais informações: http://micbr.cultura.gov.br/

Nenhum comentário: