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Artigos

Hoje foi um dia Histórico pra História da Política de Cultura...

... e não só pra Caruaru, mas pra o País.
Diante de tantas idas e vindas, de uma crise que se estende atrás de outra, assistir a criação de um Fundo de Incentivo à Cultura, é no mínimo esperançoso.
Pois bem...
O Conselho Municipal de Política de Cultura de Caruaru em assembleia extraordinária na data de 16-05-2017, aprovou o tão sonhado SMFC (Sistema Municipal de Financiamento da Cultura).
Foram anos de idas e vindas, lutas incansáveis, discussões produtivas e constantes abraçando o passo a passo das orientações encaminhadas pelo SNC (Sistema Nacional de Cultura). Nomes são muitos que estão envolvidos no processo e a citação me traria a injustiça de esquecer alguns dos envolvidos, mas com certeza não poderia deixar de citar os que juntos estão desde os primeiros passos como o amigo Paulo Nailson, Bela Araújo, Jô Barbosa, Alexandre Soares, Arary Marrocos, Socorro Maciel, Janaina Valéria, Hérlon Cavalcanti e Yanara Galvão...
Cito estes pois além de Conselheiros estavam presentes em comissões que elaboraram desde a Lei que Instituiu o Sistema Municipal de Cultura aos trâmites que desembocaram no FUNDO MUNICIPAL DE CULTURA.
Agora o passo seguinte será a elaboração do PLANO MUNICIPAL DE CULTURA, que trará as DIRETRIZES DOS PRÓXIMOS ANOS NO CAMPO DA CULTURA em Caruaru e que tem também a Contribuição desse que vos fala na COMISSÃO DE FORMATAÇÃO DO PLANO MUNICIPAL DE CULTURA.
Sinto que cada noite de reunião é dia de estudo ao lado desses GUERREIROS(AS), se mostra TER VALIDO A PENA!!!
Parabéns Caruaru, este é o meu (ou melhor) o NOSSO PRESENTE PRA VOCÊ!!!


Anderson do Pife.

Secretário Geral do Conselho Municipal de Política de Cultura


São João de Caruaru é eliminado de edital 
do Ministério do Turismo
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Prof. Urbano
Triste notícia veiculada pela a imprensa - para a nossa Caruaru - afinal ostentamos os títulos de Capital do Forró, Princesa do Agreste, Terra dos Avelozes, Berço de Vitalino, Centro de Artes Figurativas. Olhando pelo retrovisor da história, por uma década trabalhei na Fundação de Cultura e Turismo, e com a autonomia de cidadão e conhecimentos como funcionário, elaborei no final dos anos 90, um projeto com 12 tópicos que potencializariam esta cidade para o turismo e a promoção da cultura popular. Apresentei para algumas pessoas ligadas ao tema, e houve uma unanimidade de aprovação. Tentei chegar até os gestores da época, mas se o projeto chegou, eu não conseguiu o mesmo feito.
Passados alguns anos, e com o evento junino diminuindo suas atrações ano após ano, chegamos a esse fatídico resultado no ano em curso. Surpresa? Não para mim. Estive no momento histórico de inauguração do Pátio de Eventos, há 22 anos atrás, trabalhei nos bastidores e fazia Assessoria Técnica do governo à época, e via a necessidade de avançar no importante tema festejo junino. Pessoas foram designadas para responder pela referida pasta, geralmente por critérios meramente de apadrinhamento político, e por compromissos de estarem filiados a determinados partidos, com vistas a ganhar eleições. Dessa forma, falta-lhes o critério de conhecimento de causa, o compromisso em fazer, a habilidade do diálogo e a sinceridade ideológica aos seus próprios princípios pessoais e coletivos. 
Os três itens assinalados no Edital do Ministério do Turismo, relembrando: site do evento, programação artística e informativos bi-lingues, formam a base de gestão pública profissionalizada, globalizada, antenada com os desafios de gerir os interesses da sociedade, no quesito Turismo e Cultura.
Perdem Caruaru, seus fazedores de Cultura, seus Educadores, os Artistas Populares, os profissionais do Turismo e a sociedade como um todo, por assistir a diminuição da divulgação de nossa identidade sociocultural. 
Para a atual gestão municipal, fica o desafio de superar esse momento fatídico, corrigindo falhas, apontando soluções, potencializando as secretarias, dialogando com a sociedade, e refazendo o brilho cultural e artístico de Caruaru, celebrando 160 anos da nossa majestade, a Princesa do Agreste. 
Com educação qualificada, consciência política e competências na administração pública, avançaremos juntos, reconstruindo práticas culturais dinâmicas, nossa marca maior.


Prof. José Urbano 


Rimas pobres remetidas a um endereço qualquer "Oração"* 

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Hellen Tainan

Que minha alegria durasse mais que dias

Mais que dois talvez.

Que as chamadas que recebo, tivessem mais esperança que lamento.

Que tudo aquilo que não se explica, não fosse a mim tormento.

Que antes de lançar a flecha, fosse calculado o dano.
Que toda palavra de amor, não soasse como engano.

Que minha alegria durasse mais que dias
Mais que dois talvez.
Que quando a tristeza viesse,
Um alento ali houvesse.
Que a vontade de esquecer
Não me fizesse para sempre lembrar.

Que minha alegria durasse mais!
Mais que dois dias talvez
Que as surpresas do porvir
Fossem sorte não revés.

Que as rimas pobres fossem ricas
Aos ouvidos de algum deus
Que de mim se lembrasse,
E me conferisse a graça
Que do passado eu esquecesse.

Hellen Tainan
bulanabula.blogspot.com.br

A CASA FANTASMA DO MONTE BOM JESUS 

por Iran Bradock
Vista noturna do Monte do Bom Jesus
Lá no alto do monte Bom Jesus, existe uma lenda da casa da lua cheia ou a casa fantasma, como a própria história fala por si só.
Uma casa que só aparece em noite de lua cheia apenas uma noite a última noite da fase da lua.
Era uma casa grande, em forma de caixote ou caixão.
Em um terreno baldio, onde por algum motivo ninguém queria mais...
Uma placa de venda enferrujada, já sem nome algum.
Dizem a boca pequena; que nesse tal terreno maldito, de fato existira uma família, Uma enorme casa com um formato de um quadrado alongado, como um caixão.
Mas que também ouve uma.tragédia...
O.pai matou a filha e a mãe matou i marido em.seguida, tudo por causa de um namorico.
Da filha que dizem não sei, que já tinha trinta anos e ainda era dozela.
Mas tinha finalmente arrumado um namorado, um.pouco mais jovem...
Dizem que foi tanto sangue, ele batia nela com um chicote de rabo de boi.
A CASA FANTASMA DO MONTE BOM JESUS
Caruaru estava pra lá de quente, a noite fervia e cheirava a amor, e bem daqueles pesados.
Uma seca daquelas.
Macabel havia desintendido-se com a sua companheira a quase um ano, já tinha conhecido várias mulher e até um.travesti transara sem camisinha, mais uma noitada; fora lá na rua Silvino Macedo ou do vulgo rua da má fama, afim de beber algo, fumar e disopilar.
Os pneus levantam uma pquena nuvem de poeira sob o fino asfalto por cima do calçamento davam o tom nas noites de Caruaru, a princesa do agreste mal assombrado.
O clima temperado, em meados do ano de dois mil e dezessete agora dava lugar a humidade ao extremo, o suor descia como leite desliza o peito, Calisteu estava bem vestido:
- Ei irmão, me veja aí uma dose tripula de wisque. - Exclama Macabel Calisteu, fitando uma garota toda de preto, aquela visão feminina lhe chamara a atenção.
Trajava uma mini saia e uma meia calça, também usava um espartilho negro da mesma cor.
Um baton roxo. E olhos com lápis.
O jovem passam um breve tempo lhe fitando...
Aquela mulher logo começa a corresponder, Macabel pede para lhe conhecer balançando o seu dedo indicador em direção a boca e a dama.
A mulher sae do canto onde estava a beber cerveja e com uma garrafa na mão vai em direção ao jovem.
- Oi! Pediu pra me conhecer foi? - Indaga a dama de Preto com um olhar penetrante.
Olhar forte de quem sabe bem o que quer,
Olhar dominador de dominadora.
- Sim! Gata , gostei de você, do seu jeito, você é daqui? Digo; da cidade?
- Sou sim! Mas Tava um tempo fora! Tenho família no estado de São Paulo.
- Beleza! Seu nome?
-Marisa.
- Lindo nome.
- E o seu?
- Macabel, Macabel Calisteu.
- Prazer! - Ambos se cumprimentam com dois beijinhos. Mas Marisa dera um a mais.
- O terceiro que é pra casar, gato.
- ok! - Calisteu apenas rir de ladinho da boca.
- Gato! Foi um prazer lhe conhecer, mas tenho que ir. É que meu...
- Você tem marido não é? Foi mal então. - Corta Calisteu tocando sua mão pele de chocolate.
- Não gato. Tenho pai e ciumento, que as vezes penso que nenhum homem que eu venha arrumar seja igual, acho que não vai passar nem perto. - Balbucia aquela atraente dama.
- Disse algo?
- Não nada! Só pensei alto, desculpa você não tem nada a ver com os meus problemas, minhas mazelas domiciliares. Uma verdadeira merda!
- Calma gata, seja o que for vai dar certo! Viu?
Disse O rapaz tentando lhe colocar para cima.
- E agora gastei o meu dinheiro todinho. Até o do moto taxi.
Eita! Se não se importar de andar a pé eu lhe levo Marisa.
Mas eu moro no Morro seu louco! Você não teria coragem, teria?
" Caramba! Bosta! Logo no Monte "?
- É pau ali visse? Mas com essa violência, heim?
- Entendo gato. Então foi um prazer se despediu mais uma vez Marisa.
- Calma gata! Eu em algum momento disse que não ia? Vamos sim pronto! Você aceita que eu lhe leve?
- Claro que sim! Mas com essa violência toda, mas parece que agente não tem governador, agora se eu tivesse vendido o meu título, mas eu votei por ideologia, naquela conjectura era a melhor ou mais viável opção politicamente falando. Entende gato?
' Caramba! Você é jornalista ou intelectual?
 Eu não gosto muito não. Mas posso passar a gostar.
-Hum...
Os dois rumaram cortaram o centro da cidade, passaram pelos.sinais e avistaram meninos de rua, viciados em cola e a pedra crack, (Verdadeira epidemia nos tempos atuais).
Em outro sinal mais a frente dois jovens e os seus sapatos emitiam um som estridente ao ter contato com o asfalto pintado sob os semáforos da capital do forró.
Subiram de pés pela rodagem do monte Bom Jesus, Macabel e Marisa avistara a cidade a cada passo naquela altitude, as luzes de Caruaru a noite entorpecia a ambos.
Lua cheia, os cachorros da região ouvavam, e os gatos namoram em cima das pedras do monte.
As antenas de perto mas pareciam gigantes.
Iran Bradock é escritor, poeta.
Da Série: O agreste mal assombrado

Por que a Rua da Má Fama?
Daniel Finizola

Primeiro, vamos começar respondendo uma pergunta: por que a Rua da Má Fama é conhecida assim? E essa não é uma resposta difícil de ser encontrada. Uma conversa com proprietários/as e frequentadores/as nos faz entender.
Daniel Finizola
A Rua da Má Fama era frequentada por pessoas que subvertiam as “regras.” A música diferente do que se tocava em outros pontos da cidade, a defesa de todas as formas de amor, o jeito de se vestir, as conversas sobre o mundo, os diferentes hábitos fizeram com que as pessoas que frequentavam a Rua Silvino Macedo fossem vistas de forma diferente e, na maioria das vezes, negativa. Eram pessoas de má fama. A rua e seus movimentos foram aos poucos construindo uma cultura de diversidade, onde todas as tribos entram, interagem e dialogam.


Essas pessoas resistiram e se organizaram. Fizeram do negativo um questionamento: somos mesmo a parte ruim ou eles estão só com medo do novo?!

A Má Fama é hoje referência em arte e cultura, bem como polo comercial e gastronômico. A Má Fama é respeitada pelo nome que carrega e pela luta diária que constrói para continuar atendendo as pessoas, se organizando coletivamente para debater sobre acesso, segurança e melhor prestação de serviços.

Daqui a pouco começa a programação da Semana Santa e ela está, de fato, muito bonita. É gente da gente que vai tocar pra gente. Aproveitem a festa. Espalhem a nossa cultura para todos os cantos.

A gente se vê na Má Fama.



Daniel Finizola

é vereador

O APITO DO VIGIA NOTURNO

Série: poesia oculta
De Iran F. R. Bradock

Iran Bradock
- A madrugada é um tiro no escuro...
as calçadas obstruidas...
o gato na telha...
telhado...
pedras; pedradas no felino mágico...
deserta estrada...
os cachorros pretos não mais estão na encruzilhada...
o gato em cima da gata...
o noiado da estrada...
um velho na minha frente apitava...
noturno mundo...
pernas grossas saia curta encostada no muro...
um velho decrépito meio curvado...
solta um sopro em um apito de metal...
um apito gelado...
a madrugada é marginal...
a aurora tira pedaços...
o apito do vigia noturno só é escutado até as quatro...
"Era para Eu, pegar de meia noite... mas dormi, então só agora comecei..."
-era mais de uma hora; o relógio biológico vai embora...
a noite pede esmolas...
entro na roda...
bocas de pedra...
um subdeus noiado na certa vou encontrar...
uma consideração sobrenatural; o noia me deixa passar...
o vício perde para o respeito...
a noite tem alto relevo...
o apito do vigia me dar medo...
na madrugada solta-se os desejos...
o vigia me acompanha até minha casa...
deixei com ele uma de minhas moedas mágicas...
cigarro e cachaça...
fecho o portão enquanto o apito do vigia rasga.
me parecia que o mesmo avia visto um fantasma.

/O andarilho Noturno/autor ocultista:

Iran Bradock
é escritor com 13 livros publicados

MENTES APRISIONADAS


Jénerson Alves



Nós vivemos em sistemas


Onde há falsas liberdades

Que criam necessidades

E fantasiam problemas,

Põem nos humanos algemas



E os tornam decadentes,

Pálidos, miméticos, doentes,

Ascos, volúveis, banais...

Estruturas sociais
Que aprisionam mentes.


Essas grades invisíveis

Ferem, dopam e viciam,

As virtudes se atrofiam

Formando chagas terríveis,

Barreiras intransponíveis,

Difusão de violências,

Que agridem as essências

As diluindo em frações,

Robotizando as ações,
Deletando consciências.
  

Depende de cada um

Querer encontrar o Bem,

Mas deve-se enxergar além

Para achar o bem comum.

Entre espinhos, ver algum

Jeito de oscular a flor,

No horizonte pôr cor

Com a tinta da emoção,

Entrando em conexão
Com o plano do Criador.


Enxergar a luz do dia,

Sentir do Sol o calor,

Saber lidar com a dor,

Semear a alegria.

A pura sabedoria

Gerada no coração,

Advém de construção,

De busca incessante, ardente,

Porque na vida da gente
Tudo, tudo é decisão.

Jénerson Alves
Escritor e Jornalista


MANIFESTO OU DESABAFO

Jô Albuquerque
Jô Albuquerque
Quero compartilhar com vocês os pontos mais relevantes na minha humilde opinião. Cada ator tem sua técnica, seus métodos pessoais e para ter esta escolha é preciso conhecimento e sabedoria para optar, e sem estudo, disciplina e dedicação é impossível. Existe a famosa intuição que todos atores recorrem na hora da atuação mas para se tornar um grande ator estou cada vez mais convencida que é preciso ir além, é necessário sair da mesmice e da zona de conforto. E para isso é preciso estudar, se dedicar, ensaiar quantas vezes for preciso.

O teatro é uma arte que se faz a realidade na interação viva e direta entre os artistas e o público, é nesse mágico encontro que o fato teatral adquire sentido e valor. E a cada dia deve ser considerado o dia do teatro, porque temos a responsabilidade de continuar a tradição de entreter, educar e esclarecer o nosso público, sem o qual não existiria. "

O teatro tem a capacidade de fazer-nos rir, mas também deve nos fazer pensar e refletir. É através de trabalho em equipe, que o artista cresce. Os atores são as pessoas que você vê, mas há um número surpreendente de pessoas que não são vistos. Eles são tão importantes quanto os atores e suas habilidades diferentes e especializadas permitir a produção a ser realizado.

Como se encontra o teatro caruaruense? Na minha opinião, ainda pedindo esmolas, e não vamos coloca a culpa no governo nem nos empresários. A culpa, desconfio e lamento, é do próprio “povo do teatro”. E não estou falando da culpa cristã, essa que promete um Salvador e o caminho dos céus, eu me refiro a sua responsabilidade como artista pelos rumos da sua profissão.

Era uma vez um povo que se acostumou a trabalhar de graça, a viver de favor, a ser submisso. Um povo que foi domesticado a receber sempre com muita gratidão e humildade um apoio, o prato de comida na noite de estreia, um desconto camarada durante a temporada. Infelizmente, esse povo que trabalha e muito; se acostumou a se nivelar por baixo.

Era uma vez um povo crítico, observador, treinado a perceber cores na realidade que escapam aos olhos da maioria de seus irmãos. Esse povo, com antenas conectadas naquilo que parece imperceptível, e capaz de produzir questionamentos sobre nosso jeito de ser e de se comportar, esse povo então batizado como “artista”, é muito conformado.

Era uma vez um monte de gente jovem, com seus, quinze, vinte, trinta e poucas primaveras de sonhos, utopias e necessidades de transformar o mundo. Essa é a história de um povo criativo, bastante egocêntrico mas muito criativo, que nasceu inspirado a interpretar nossa existência e mostrar para o restante do “povo comum” que nas entrelinhas da vida existe drama, existe fantasia e que o nosso combustível para viver é o conflito.

Gostaria de contar para vocês a história de um povo apaixonado pelo que faz. Que tem dificuldade em enxergar na própria profissão um trabalho, que sobe no palco pela primeira vez cheio de ideologias e discursos prontos, que se sente ofendido e muitas vezes surpreso quando é pago pelo que faz. Pelo que ele faz muito bem.

É a fábula de um povo muito bacana e gentil que não deixa de prestigiar os amigos. De um povo que lota todos os teatros e que mesmo sabendo das dificuldades em se levantar um espetáculo, criou o “convite amigo”. Para que ele próprio, o “povo do teatro”, não reconheça o valor de seu trabalho. Ou para que não enfrente o pior dos pesadelos: uma plateia vazia.

O povo do teatro quer trabalhar a todo custo. Alega que é movido pela paixão. Trabalha não por compulsão ou doença, mas por uma necessidade política muito fundamental do ser humano: a vontade incontrolável de falar. De compartilhar. De perguntar sem a obrigação de responder. Alguns consideram-se mais especiais que os outros e ao invés da generosidade, disseminam vaidade. Outros, por não se sentirem tão importantes assim, por falta de possibilidade, desistem no meio do caminho.

Quantos de vocês não conhecem alguém que ficou para trás? Quantos de nós já não pensamos em desistir? Quantos talentos promissores não foram desperdiçados, quantas possibilidades não foram devastadas pela nossa falta de postura e união? Quantas almas criativas não foram enterradas diante da desesperadora e justa necessidade de chegarmos aos 25, 50 anos com um pouquinho de qualidade de vida?

O povo do teatro é um povo muito covarde. Covarde porque ele aceita qualquer coisa, porque ele se acostumou a produzir com o medo de não fechar as portas, de não perder os contatos, de não “se queimar”. Covarde por aceitar que empresas patrocinem seu trabalho como se fizessem um favor.

Infelizmente, os maiores sacrificados são os próprios artistas. Mesmo quando alguns poucos são beneficiados com o sonho do patrocínio, descobre-se que aquela empresa que fez o favor de “dar o dinheiro para bancar o seu sonho” vai depositar a parcela tão batalhada… um mês depois, seis meses depois, um ano depois da sua estreia!

Os atores, a ALMA de qualquer espetáculo, e que exceto o público são a única presença verdadeiramente indispensável para que o teatro aconteça, são os últimos a receber. Os dramaturgos, os primeiros a trabalhar sem a menor garantia que um dia verão o seu texto encenado. A culpa não é dos produtores. Inclusive, eles trabalharão horas a fio para inscrever seu projeto na lei, para captar alguma grana por fora, para convencer o empresário ou a comissão do FUNCULTURA que "aquilo é bom".

Só que estamos caminhando para o colapso. Quando qualquer classe de trabalhadores se sente agredida e desrespeitada, busca-se uma articulação, algum tipo de união e debate, alguma atitude. Os funcionários fazem greve. Assistimos, em poucas meses, a greve de professores, bancários, policiais, etc.

E os artistas, como se defendem? Como esse povo que é apaixonado pelo que faz entrará em greve com o amor? Vocês serão capazes de paralisar essa energia movida pela paixão, tão cafona, tão vítima e tão melodramática, para assumir o verdadeiro papel de heróis? Serão capazes de se transformar ao longo da jornada?

Queremos ser heróis trágicos, vítimas massacradas por escolhas infelizes e por uma batalha desigual com os deuses. Nossa maior desmedida não é o engano; nosso erro trágico é passar por cima e fingir que essas são as regras do jogo. Que é melhor jogar calado do que desistir. Já que para cada um que não trabalha de graça, uma centena trabalhará.

O “povo da música”. Dizem que eles só entram no processo quando existe dinheiro. Assim como o “povo da técnica”, aquele responsável por operar o som que embala os atores ou a luz que não os deixará no escuro. O povo da música, quando trabalha de graça, exige no mínimo um instrumento para ser tocado. Os atores não. Eles aceitam ensaiar sem espaço adequado, aceitam ensaiar sem os objetos de cena, os atores aceitam não receber. Os atores aceitam. Aceitarão, no futuro, as indicações de alguns diretores despropositados que não sabem o que estão fazendo. Aceitarão o patrocínio que entra com meses de atraso. Aceitarão qualquer trabalho em qualquer comercial de TV para que possam aparecer, mesmo ganhando um misero cachê, ou não ganhando nada, fazem o seu teatro, graça a Deus.

Quantos artistas anônimos transbordando de talento, mas cheios de falta de sorte ou sem os devidos contatos, não morrerão sem viver o calor de uma temporada cheia?

Povo do teatro! Não vamos aceitar quietos e sermos pagos três meses, seis meses, um ano depois! Aceitar é um verbo antiteatral por princípio. É um verbo que acaba com o conflito. E o que percebemos, angustiados com o povo do teatro, é que temos aceitado tudo com medo, com receio de não trabalhar mais. Não vamos trocar nosso trabalho por um prato de comida nem por um pedaço de pano. Não vamos nos deixar levar pela promessa de pagar nossas contas de janeiro apenas em abril. Ou então, prezado povo do teatro, vamos assumir que somos apaixonados e medíocres.

Quando se é jovem, quando não se é ninguém, é muito bom desfrutar da importância de ser “desimportante”. De não levar os discursos tão à sério e enxergar por trás de um manifesto apaixonado e radical, cheio de inconsequências e desmedidas, um suspiro de sinceridade. E carinho, muito carinho, com esse tal “povo do teatro”. Afinal, se nem todos são do teatro, todos nós somos o povo.

Assumir esse desconforto não é uma maneira de dizer que o teatro faliu. Não é um manifesto pessimista. Não é apologia ao “não vale a pena”. É só a história do único povo do mundo que passa fome para alimentar a alma dos outros. Nunca foi tão emblemático gritar “Merda” antes de cada apresentação, mas no pé que estamos, sugiro que o grito seja dado no final, sempre que a plateia estiver vazia.

O povo do teatro enfrenta seu maior desafio. Já que ele não é pago pelo que faz, ficou refém do elogio."

SALVE O DIA MUNDIAL DO TEATRO - 27/03/2017

*Jô Albuquerque
Teatrólogo


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