20/09/17

Alteridade a matéria prima do bem estar no pensar a cidade - Sibeli Cotta

O Brasil de hoje é resultado de um crescimento desordenado acerca de suas cidades.
Há larga distância acerca da ideia de "onde queremos chegar" e "onde precisamos estar", distância essa que reside em conceitos que visam nortear o cidadão e a sociedade na qual ele está inserido. Isto é, Pensar a Cidade a partir de um planejamento que se norteie pela alteridade, ou seja, construir a cidade pensando no outro e com objetividade.
Por muitos anos os responsáveis pela construção de suas respectivas cidades tiveram que transitar por esses dois caminhos, ora a buscar o desenvolvimento da sociedade, conscientizando o seu cidadão de sua relevância, ora conter o desenvolvimento da sociedade em razão do desenvolvimento do "eu próprio". É sabido que algumas sociedades obtiveram êxito como, já outras nem tanto.
Belo Horizonte, a exemplo, está há mais de 100 anos em desenvolvimento, porém seu êxito parece cada vez mais distante se comparado ao quadro político atual. Talvez não se tenha chegado a um efetivo resultado não apenas em razão da crise política no país, mas também em razão de um não Pensar a Cidade a partir do Cidadão e do outro, de modo a considerar suas diferenças na construção do eu e do outro, no todo e para todos.
Afinal, que Poder é esse que o Cidadão detém eficaz á eleger seus representantes, mas não o é, à participar de modo efetivo do planejamento da Cidade, de modo a contribuir com sua forma diferente de pensar, afim de alcançar efetivo resultado. O Brasil de hoje é resultado de um crescimento desordenado acerca de suas cidades, no qual o rumo era o desenvolvimento da sociedade, mas que tão somente se deu em detrimento da qualidade de vida do cidadão.
Detrimento esse despercebido à época em razão do deslumbre da Revolução Industrial seguida por todo o seu aparato tecnológico, que no final das contas só teve a contribuir para o aumento da poluição das cidades e descontentamento por parte da sociedade que nada tem a desfrutar, senão promessas vagas de qualidade de vida. A realidade é assustadora, será que é por isso que temos a sensação de sermos consumidos pela cidade, quando na verdade nós é que a consumimos.
A ideia de se Pensar a Cidade, no qual a cooperação em prol do bem estar coletivo, é o que nutre a ideia de cidade. Desde os tempos da agricultura, em que a moeda era a troca, é que se busca a melhor forma conviver com as diferenças, dai a necessidade de pensar na formação da cidade a partir do outro, com o outro e para o outro.
Hoje a realidade é diversa do que se idealizou, tendo em vista o desperdício da tecnologia industrial em razão do não planejamento da cidade, antes mesmo de edificá-la é desperdiçar tempo, e esse não volta jamais. É frustrar as expectativas daqueles que tanto esperam pela cidade e que por conseguinte acaba por gerar uma cidade improdutiva e cada vez mais regressiva no seu desenvolvimento.
Pensar é também refletir sobre si próprio, sobretudo na maneira mais adequada de apreender a diferença do outro, buscando assim certa completude afim de contribuir para a edificação da coletividade, logo o resultado é certamente o Pensar a Cidade. O cidadão que não tem consciência de si, ele apenas usa a cidade, drena seus recursos, passa por ela sem se quer notá-la.
Ele volta ao seu lar sem ter a consciência que dela faz parte e de que a falta de interação com o outro na construção da cidade só tende a distanciar o efetivo desenvolvimento da sociedade, é como pensar nos elementos do meio ambiente e pensar que o homem não depende dele.
É necessária a reestruturação do entendimento de Cidade que já ultrapassado clama por uma renovação em seu sentido, isto é, por meio da unicidade que contempla a alteridade. Corroborando para um pensar efetivo na promoção da coabitação do eu com o outro e de nós para com a Cidade. Promovendo assim telhados verdes, ruas largas e arvorecidas, conseguintemente diversidade de biomas de modo a propiciar maior interação do cidadão e seu redor.
A questão envolve a todos, mas nem todos se dão conta dela, pois, sem a cidade não há razão de ser cidadão, afinal, há séculos abrimos mão de parte da nossa liberdade individual para compartilharmos de uma coletiva, e que por ora está aquém do seu real objetivo. É preciso saber viver e conviver com a cidade que abarca variadas formas de ser, sem consumí-la.
O pensar a cidade hoje é pensar o ser humano de amanhã. Cabe a cada um buscar a conscientização de que o ser humano está cada vez mais invisível um para o com o outro e levando consigo a cidade para essa invisibilidade ao agir sem alteridade, pois, muitas vezes paramos e não pensamos ou se pensamos não paramos, essa é uma relação na qual o resultado é a não efetividade.
Portanto, Pensar a Cidade é pensar o Cidadão com Alteridade, isto é, se pretende de fato efetivar o progresso da cidade, bem como aproximar tal pensamento das autoridades que a governa, é preciso então, que o cidadão tenha consciência de si e do outro. Sobretudo ter consciência dos elementos que compõe a cidade e que promovem a manutenção da nossa existência e nos protege. De certo pensar a cidade em compasso com a alteridade enquanto matéria prima do bem estar.
Sibeli Cotta é graduanda em Direito e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Pensar a Cidade seus aspectos ambientais, jurídicos e sociais, sob a orientação do Líder, Professor Dr. Emilién Reis, da Dom Helder Escola de Direito.
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