As redes sociais estão cheias de depoimentos e orações para o apresentador da TV Asa Branca Alexandre Farias, vítima de uma bala perdida ontem à noite. Se conheço a prática política de nossos governantes, esta semana haverá reforço no policiamento e discursos inflamados em favor da segurança pública. Nada disso, contudo, vai trazer a saúde do apresentador de volta. Nada disso vai apagar os mais de 200 homicídios só este ano. Nada disso vai devolver aos caruaruenses a paz perdida.
Foi Alexandre, poderia ter sido eu, poderia ter sido você, que lê estas linhas agora. Não sejamos hipócritas nem partidários nesta hora. A verdade é que estamos entregues. Não há um cidadão de bem que não tema abrir o portão de casa pela manhã para ir trabalhar, ou mesmo que não sinta uma constante sensação de medo ao conversar com alguém ao portão. Como quem espera a morte, olhamos o tempo todo para os lados, desconfiamos de todos, trememos ao ouvir o ruído de motocicletas. Mergulhamos no mais profundo sentimento de medo.
Junto a ele, a perplexidade, o repúdio, a resignação. Aprendemos a aceitar que assaltos são comuns, que nosso celular ou nosso automóvel não nos pertencem. Pior, convivemos permanentemente com a ideia de que nossa vida não é nossa. Em Caruaru, cidade onde nasci e que amo, vejo perplexo o crime tomar conta das ruas e de nós. Sim, ainda que não usemos drogas, ainda que não vivamos abraçados a marginais, estamos à mercê deles.
Dia sim, dia não, ouvimos notícias de homicídios que envolvem usuários de drogas e ex-presidiários. Até passamos a sentir isso como algo “normal”. Mas quando um trabalhador honesto é atingido por uma bala perdida, resta-nos a sensação de que, com ele, todos nós somos atingidos. Somos atingidos pela hipocrisia de quem defende bandidos sob a alegação de que eles são “vítimas da sociedade capitalista”; somos atingidos pelo descaso de governantes que vivem em carros blindados e cercados de seguranças; somos atingidos pelo medo de não poder criar nossos filhos em paz. Enfim, somos atingidos pela vergonha de ser brasileiro.
Enquanto não houver uma polícia mais bem equipada e preparada para enfrentar o tráfico, enquanto não houver leis duras para manter atrás das grades quem mata ou estupra, enquanto não houver escolas de qualidade para crianças e jovens em situação de risco, enquanto não houver compromisso de nossos representantes com o combate à violência, continuaremos assim: presos em nossas casas, construindo muros altos e blindando carros para tentar viver um pouco mais.
Aos que podem se mudar do país, como a atriz Carolina Dieckmann, não vejo motivo para não fazê-lo. Sem escolas de qualidade, sem saúde de qualidade, sem segurança nas ruas, a única coisa que nos sobrou foi um presidente denunciado duplamente por formação de quadrilha e um ex-presidente corrupto até a alma como líder de pesquisas eleitorais. De fato, viver no Brasil é para os fortes.
Força, Alexandre. Caruaru e região estão juntos com você na luta pela vida.
Menelau Júnior
É professor
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