10/09/17

Damasco - Domingos Alexandre

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Deus andava em silêncio pela casa
E eu, pasmado, mirando-me em seu rosto,
Sentia o seu olhar como uma brasa
Ardendo na penumbra do sol posto.

Atordoado com sua presença,
Como se a vida ali desmoronasse,
E ofuscado ante aquela luz imensa
Senti vergonha e, desviando a face,

Me achei, de bruços sobre o chão, caído
A pedir-lhe perdão por meus pecados
Mas, pelo seu olhar, vi, comovido,
Que haviam sido, há muito, perdoados.

Senti meu corpo, então, como uma pluma
Livre de toda dor e sofrimento.
Lá fora agigantavam-se na bruma
O horror do mundo e a solidão do vento.
Imaginei que tudo fosse um sonho,
Tinha diante de mim a Eternidade,
Mas Deus me olhava e o seu olhar risonho,
Era só compaixão e piedade. 

E eu abracei-o como faz o filho
Que, finalmente, reconciliado,
Se inflama na voragem do seu brilho 
E fica, para sempre, iluminado.

Fui para rua e Ele saiu comigo
Pôs o braço em meu ombro e deste então
Tem seguido ao meu lado como um amigo
Que sabe os rumos do meu coração.

Não busca me arrastar ao seu rebanho,
Mas me envolve em seu manto com carinho.
E, embora sinta em mim algo de estranho,
Deixa que eu siga, livre, o meu caminho.

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