
O Dia Internacional da Mulher Indígena é celebrado em 5 de outubro. Trata-se de uma homenagem à guerreira aymara Bartolina Sisa, assassinada pelos colonizadores espanhóis durante a invasão do território latino-americano, em 1792.
Bartolina
Sisa é um símbolo da resistência das mulheres indígenas e camponesas. Ela se
destaca pela valentia frente às tropas espanholas que dominaram o território
dos povos originários.
Ela
e o marido, Tupac Katari, dividiram igualmente o comando dos grupos indígenas
que resistiram à invasão da região hoje conhecida como La Paz, capital da
Bolívia.
Em
homenagem ao Dia Internacional da Mulher Indígena, Prosa, Poesia & Artetraz um conto cujo contexto é
também a invasão, porém, ao território dos índios Guaranis, ao sul do
continente.
Leia
na íntegra:
Koe’ju*
(Mariana
Serafini)
Antes
dos demais, Jaxuka se recolhe. Cabe a ela acordar primeiro e preparar o
desayuno. Desde que começou a guerra, os homens confiam à jovem de olhos de
águia a responsabilidade de alimentá-los.
Com
destreza, a índia ajeita a erva já sapecada na cuia, derrama a água quente e,
pelo tacupi*, suga o primeiro gole de ka’a*. A bebida amarga aquece o corpo,
deixa o espírito alerta e o coração alegre.
Jaxuka
viu quando aqueles homens desbotados como folhas secas chegaram. Eles não
conhecem nada sobre as plantas, tampouco têm interesse. Estão em busca de outra
riqueza. Falam de um jeito que sequer o pajé entende e não respeitam a ordem do
tempo.
Com
os mais velhos, ela aprendeu ainda menina a colher a erva – sempre após os
primeiros raios de sol – e prepará-la para toda a tribo. O trabalho é
cansativo, mas tem seu valor. O dia só começa depois que o corpo reage à seiva
do mate. Sempre foi assim.
Muitas
vezes, as árvores com as melhores folhas estão distantes. Jaxuka apreciava as
longas caminhadas, conhece o caminho tão bem quanto qualquer um da tribo. Tem
certeza de não ter se perdido quando viu aqueles olhos tão claros que a
engoliram como um tigre quando encontra a presa.
Conheceu
a desgraça.
Ao
notar o olhar envergonhado, a avó não disse palavra. As mãos velhas prepararam
as ervas para interromper o ciclo iniciado à força. Entre dar à luz e colocar a
tribo em desonra, ou cair na maldição dos deuses e perder o poder feminino,
Jaxuka escolheu o chá.
Ela
foi a primeira a ver os homens desbotados chegarem. Contou à avó e ao cacique.
Ninguém mais. O alvoroço tomou conta da tribo e os melhores guerreiros partiram
com a promessa de voltar.
As
mulheres devem permanecer em casa, protegidas. A força delas está nas raízes.
Mas Jaxuka conheceu os olhos do perigo e, sem temer, encarou a guerra junto aos
homens.
A
rotina longe da tribo é outra. Ela não é mais a menina responsável apenas por
trazer a erva. Caça, cozinha, cuida dos ferimentos, acende a fogueira todas as
noites, serve o jantar e se prepara para nascer do dia.
A
menina só aparece quando o sol se despede e pinta o céu de rosa-laranja. O
encantamento toma conta dos olhos de Jaxuka que canta, dança e pede aos deuses
seu poder feminino de volta. O amanhecer pertence às mulheres.
Do Portal Vermelho
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