
Viviane Ferreira é a segunda mulher negra
brasileira a dirigir um filme de longa metragem. A primeira foi Adélia Sampaio,
em 1983, diretora de Amor Maldito. O projeto de Viviane, intitulado Um dia com
Jerusa, quebra, portanto, um jejum histórico de falta de participação das
mulheres negras como diretoras no cenário do audiovisual brasileiro.
Por Djamila Ribeiro
Nascida na periferia de Salvador,
Viviane foca sua narrativa no encontro de duas gerações de mulheres negras que
partilham memórias e vivências como forma de aplacar a solidão cotidiana.
Confira a entrevista:
Quem é Viviane Ferreira?
Viviane Ferreira: Tem algumas coisas que são
indispensáveis saber sobre mim. A primeira delas é que sou uma mulher negra,
nascida e criada no Coqueiro Grande, pedaço de chão na Estrada Velha do
Aeroporto, na região periférica da cidade de Salvador, exatamente no fronte
entre o Terreiro Manso Dandalungua Cocuazenza e o Sítio Santo Antônio.
Ali, o sol nasce cedo; as sombras das árvores
frutíferas refrescam as gotas de suor que escorrem na face da gente preta
sempre pronta para lida; e as nascentes de água doce nos brindam com espelhos
d’água que nos põem cotidianamente frente aos nossos reflexos.
Assim, não é possível esquecer nunca de onde venho,
porque meu lugar de origem diz muito sobre quem sou no mundo.
O que mais?Eu tenho uma formação política fincada na vivência religiosa do candomblé, em
uma casa em que o “feminino” ainda é centro do poder. Tal formação foi alinhada
com a experiência de trajetória profissional e política fruto da resistência do
movimento de mulheres negras brasileiras. No Ceafro (organização de mulheres
negras em Salvador), integrei o coletivo de juventude e fui educanda e fui
presidenta até 2017 da Associação Mulheres de Odun, organização de mulheres
negras feministas.
Por último, e não menos importante, é indispensável
a informação de que sou uma pisciana que torce para o Esporte Clube Bahia. Ser tricolor
é ter a certeza que se tem dois títulos de campeã brasileiro e, ainda assim,
seguir crendo que o mais importante no campeonato é jogar. Por isso, reconheço
a importância da garantia de regras nítidas em todo e qualquer jogo.
Conte-me mais sobre o seu filme Um Dia Com Jerusa.O longa metragem é desdobramento do curta O Dia de Jerusa. A história se mantém
essencialmente em torno do encontro entre duas gerações de mulheres negras,
que, na partilha de memórias e vivências, encontram respostas para amenizar a
solidão cotidiana.
Qual é a diferença entre fazer um longa e um curta
metragem?No longa, temos mais fôlego para explorar o universo em que Silvia e Jerusa
estão imersas. Com isso, podemos identificar como a memória coletiva da
população negra está ilustrada na trajetória de cada uma das personagens,
trazendo um sentido distante da ideia do “acaso” para o encontro entre essas
duas mulheres.
Assim como o curta, a ideia do longa surge do meu
processo de observação do cotidiano das pessoas negras na cidade de São Paulo,
em diálogo com as reflexões sobre o estado de existência das pessoas negras.
Quem participa do filme?Para contar essa história, conto com a atuação generosa de Léa Garcia e com a
entrega corajosa de Débora Marçal. Nossa expectativa é manter o elenco e equipe
do curta, embora já tenhamos feito pequenas alterações na equipe técnica, em
função de compromissos dos profissionais com outros projetos para o período de
dedicação ao filme.
Qual é a sensação de saber que você é a segunda
mulher negra a dirigir um longa de ficção no Brasil?A sensação de responsabilidade é muito grade, sobretudo, por ter consciência da
quantidade de outras histórias, tão boas quanto a minha, que não foram
selecionadas. Depois, porque proponho um filme que tem sua fonte criativa na
“memória coletiva” da população negra brasileira.
Também não posso esquecer que estou à frente do
projeto que quebrará um jejum histórico na cinematografia brasileira, uma vez
que trata-se do segundo longa-metragem de ficção dirigido por uma mulher negra
no Brasil. A primeira foi Adélia Sampaio, diretora de Amor Maldito, há 34 anos.
Por fim, sinto-me feliz e confiante com o desafio. Afinal, o projeto reúne características que fazem com que eu possa chamá-lo de “nosso filme” entre os meus e não de “meu filme”. Um Dia Com Jerusa é um sonho sonhado por muitas gerações.
Por fim, sinto-me feliz e confiante com o desafio. Afinal, o projeto reúne características que fazem com que eu possa chamá-lo de “nosso filme” entre os meus e não de “meu filme”. Um Dia Com Jerusa é um sonho sonhado por muitas gerações.
Qual é a importância das ações afirmativas em
editais de audiovisual?É um fato incontestável que a sociedade brasileira vive uma história de
profunda desigualdade racial. De mesmo modo, é incontestável a necessidade de
esforços do Estado brasileiro para propor políticas reparatórias que visem
reduzir esse fosso de desigualdades.
Por isso, os editais curta e longa afirmativos são
importantes por serem reveladores de uma demanda reprimida: há pessoas negras
sedentas por contar a própria história.
Além disso, expõem como são excludentes racialmente
alguns dos critérios e condução das seleções de projetos audiovisuais nos
editais “gerais”. Por fim, apontam um caminho profícuo para que a Ancine se
inspire e se disponha a construir em diálogo com a SAV e a sociedade civil uma
Programa Nacional de Ações Afirmativas para o Setor Audiovisual.
Diante da necessidade histórica de reparação
estrutural e simbólica que o Estado deve à população brasileira, e as
reivindicações do público por um conteúdo audiovisual cada vez mais
representativo, em um país com mais de 50% da população composta por pessoas
negras, o “Programa Nacional de Políticas de Ações Afirmativas para o Setor
Audiovisual” é elemento indispensável para o avanço e aprimoramento das
políticas audiovisuais brasileiras e, consequentemente, para o fortalecimento
do cinema nacional.
Como é presidir a Associação dos Profissionais do
Audiovisual Negro (Apan)?Estar a frente da presidência da APAN é um dos maiores desafios que já me
dispus à enfrentar. Primeiro porque a matéria da qual a APAN trata está
inteiramente ligada aos sonhos, subjetividades e construções simbólicas das
pessoas negras desse país. Essa é a matéria-prima do que definimos como
“audiovisual negro”.
Em segundo lugar, trata-se de um processo político
travado em uma arena na qual os privilégios da branquitude têm montado um
grande cerco frente aos coerentes questionamentos e reivindicação de combate ao
racismo estruturante no setor.
Além disso, trata-se de um processo coletivo entre
pessoas negras e para pessoas negras, o que nos exige atenção cotidiana para
que as estratégias históricas de desmobilização não atinjam à nossa construção
coletiva.
Como assim?Estamos à mercê das táticas de dividir para dominar: não cole em processos
coletivos de pretos com pretos para não ficar marcado e “fora do jogo”.
Comentários como “convidava você antes de ser da associação por ser minha
amiga, mas pra mim esse rolê de raça não tem nada a ver, somos todos iguais, e
daí por diante”.
Por fim, ainda precisamos lidar com os efeitos
daquilo que já chamei em um texto de “matrimônio perfeito”: a aliança entre o
racismo, o sexismo e o capitalismo.
Quais os efeitos de tal aliança, em especial, para
negros e negras?VF: Essa aliança produz uma escassez de recursos e oportunidades diante da
nossa demanda coletiva reparação. E, consequentemente, adoece os nossos com uma
frustração coletiva, diante das dores cotidianas produzidas por essas
frustrações.
Ainda que estejamos organizadas(os) em uma
associação, não são os nomes de todos os associados que aparecem entre
habilitados ou contemplados em editais de fomento ao audiovisual. Também a
seleção para grandes festivais faz com que, cotidianamente, precisemos ter
parcimônia e resiliência para gerir a frustração coletiva e distribuir água
sobre “fogo amigo”, tentando não nos permitir esquecer que tudo isso é efeito
do tal “matrimônio perfeito” entre racismo, sexismo e capitalismo, que alimenta
a farsa da meritocracia.
Com tudo isso, para me manter atenta, atuante e
reflexiva para colaborar com as minhas e os meus na elaboração de estratégias
que contemplem um número cada vez maior de sonhos, subjetividades e construções
simbólicas negras no setor audiovisual, é preciso dormir e acordar lembrando de
como sonhava, ainda guria no Coqueiro Grande, em cima do pé de cajueiro, em
fazer filmes pela primeira vez.
Hoje, meu dia precisaria ter 48 horas. As regras do
jogo para tornar esse sonho realidade não são tão nítidas para pessoas negras
quanto às regras do Brasileirão para o futebol. Eu preciso me dedicar 24 horas
à contribuição da elaboração dessas regras, para que caibam corpos e mentes
negras no jogo. As outras 24, para redigir minhas narrativas e percorrer o
árduo caminho de tentar garantir que os sonhos de filmes se tornem realidade.
Carta Capital
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