04/02/18

SEU DOTÔ ME CONHECE? Patativa de Assaré*

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Seu dotô, só me parece 
Que o sinhô não me conhece 
Nunca sôbe quem sou eu 
Nunca viu minha paioça, 
Minha muié, minha roça, 
E os fio que Deus me deu. 

Se não sabe, escute agora, 
Que eu vô contá minha história, 
Tenha a bondade de ouvi: 
Eu sou da crasse matuta, 
Da crasse que não desfruta 
Das riqueza do Brasil. 

Sou aquele que conhece 
As privação que padece 
O mais pobre camponês; 
Tenho passado na vida 
De cinco mês em seguida 
Sem comê carne uma vez. 

Sou o que durante a semana, 
Cumprindo a sina tirana, 
Na grande labutação 
Pra sustentá a famia 
Só tem direito a dois dia 
O resto é pra o patrão. 

Sou o que no tempo da guerra 
Contra o gosto se desterra 
Pra nunca mais vortá 
E vai morrê no estrangêro 
Como pobre brasilêro 
Longe do torrão natá. 

Sou o sertanejo que cansa 
De votá, com esperança 
Do Brasil ficá mió; 
Mas o Brasil continua 
Na cantiga da perua 
Que é: pió, pió, pió... 

Sou o mendigo sem sossego 
Que por não achá emprego 
Se vê forçado a seguí 
Sem direção e sem norte, 
Envergonhado da sorte, 
De porta em porta a pedí. 

Sou aquele desgraçado, 
Que nos ano atravessado 
Vai batê no Maranhão, 
Sujeito a todo o matrato, 
Bicho de pé, carrapato, 
E os ataques de sezão. 

Senhô dotô, não se enfade 
Vá guardando essa verdade 
Na memória, pode crê 
Que sou aquele operário 
Que ganha um nobre salário 
Que não dá nem pra comê 

Sou ele todo, em carne e osso, 
Muitas vez, não tenho armoço 
Nem também o que jantá; 
Eu sou aquele rocêro, 
Sem camisa e sem dinhêro, 
Cantado por Juvená. 

Sim, por Juvená Galeno, 
O poeta, aquele geno, 
O maió dos trovadô, 
Aquele coração nobre 
Que a minha vida de pobre 
Muito sentido cantou. 

Há mais de cem ano eu vivo 
Nesta vida de cativo 
E a potreção não chegou; 
Sofro munto e corro estreito, 
Inda tou do mermo jeito 
Que Juvená me deixou. 

Sofrendo a mesma sentença 
Tou quase perdendo a crença, 
E pra ninguém se enganá 
Vou deixá o meu nome aqui: 
Eu sou fio do Brasil, 
E o meu nome é Ceará. 

*Patativa do Assaré, poeta do interior cearense que fez do árduo cotidiano do sertanejo e da busca pela reforma agrária temas para o fazer poético.

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