![]() |
| E-mail: agildogf@hotmail.com (81) 9.9572.7405 |
A verdade é que fiquei pensando em um fato que foi atribuído a minha amiga naquela noite de seu aniversário. Maravilhosa festa ocorrida em 7 de outubro deste 2016. Não! Claro que não vou dizer. Aprendi com minha avó Luizinha que não se pergunta a idade de uma mulher, e muito menos se divulga.
Fato esse que tem a ver com a terra de João Gilberto, que tantas coisas bonitas tem, como ele disse: “Tem meu chão, tem meu céu, tem meu mar”. Ah! Tem também a sua deliciosa culinária tão sincrética como seus cultos de fé. Deliciosa e apreciada por milhares de pessoas espalhados por esse mundão de meu Deus. Vejamos ainda um trecho do clássico e antológico samba-enredo de 1964 da Império Serrano que homenageia uma das mais famosas iguarias da Bahia: “Fiquei radiante de alegria, Quando cheguei na Bahia...Bahia de Castro Alves, do acarajé, das noites de magia do candomblé”.
O acarajé, há muito tempo é um produto nacional. Eu, mesmo já tive a oportunidade de comer deliciosos acarajés em várias praças brasileiras. No Rio de Janeiro em Ipanema, provei um dos melhores fora da Bahia. No Recife costumava comer num quiosque que existia no Shopping Outlook na entrada da avenida Recife em direção a Caruaru. Atualmente costumo comer acarajé na pracinha de Boa Viagem com uma coca-cola caese bem geladinha. Muito bom, todos permanecem com a cara da Bahia.
Mas que tem a ver Caruaru com acarajé? Calma gente, essa iguaria introduzida no Brasil, especificamente na Bahia por volta de 1800, ainda hoje suscita muitas histórias, como no episódio que tem como protagonista uma amiga que teve a vida dedicada a Caruaru. Professora de várias instituições de ensino do Município e do Estado, faculdade privada e inclusive da Universidade Federal de Pernambuco.
A jovem professora era apaixonada por acarajé, iguaria essa de raízes africanas, sucessora direta do acará litúrgico do candomblé, comida oferecida a Iansã, deusa dos ventos e das tempestades. Hoje, o acarajé é reconhecido como patrimônio...”
Eis que finalmente surge a oportunidade de nossa protagonista realizar aquele sonho gastronômico, provar dos bolinhos de feijão fradinho, cebola e sal, fritos em azeite-de-dendê e recheados de sua mais usual combinação: vatapá, camarão seco e vinagrete. Humm! Que deliciosos. Então com o pensamento voltado para os bolinhos, rumo a Salvador para participar do Congresso Brasileiro de Educação.
Mas as atividades do Congresso naquele ano foram intensas com palestras imprescindíveis, oficinas interessantíssimas, apresentação oral de suas pesquisas, outras dezenas de comunicações recheadas de novidades na área, enfim, aqueles três dias de evento não seriam suficientes para tantos eventos.
Portanto, durante o evento, ela não arredara os pés do Hotel onde se realizava o evento e no qual também se hospedara. Sua sensatez e senso ético não permitiam que preterisse alguma das atividades para ir atrás de sua paixão. À noite, quando do término dos trabalhos, exausta, mal jantava e já corria para a cama.
Para sua amiga, outra professora, dissera a todo instante naqueles dias de Congresso: “vou mais tarde”, “vou amanhã”, “de hoje não passa”. E o tempo passando. Quando se viu livre dos compromissos é que se deu conta que já estava praticamente na hora de ir para o aeroporto e voltar para Caruaru. Não se perdoou não ter ido comer seu acarajé e se lambuzar de prazer.
A caminho do aeroporto estava tristonha! Nada a ver com sua personalidade alegre, dona de uma risada de som grave sem igual, marca registrada, ri à toa. Sua amiga, sentada no lado esquerdo contrário ao seu, no banco traseiro do táxi, permanecia também calada, em respeito, imaginando o motivo daquela tristeza. De repente, o táxi passa por uma praça e, ao olhar para os lados, eis que nossa amiga depara-se, sendo procurado por várias pessoas em sua volta, o bom e delicioso acarajé. Ah! ela quase pula do táxi, abre a janela e aí então é que ficou difícil, com o aroma do acarajé sendo fritado naquele tacho com o dendê quente e vindo até ela, com todo seu poder de sedução. Calma, amiga, calma.
Já no aeroporto enquanto sua amiga despachava as bagagens, a ânsia para devorar um acarajé aumentava. Eis que repentinamente ela é acometida por uma tentação daquelas, um desejo violento parecia mais uma provocação de Exu. Ela não mediu as consequências, nem os limites da racionalidade, voltou-se para amiga dizendo vou, vou e saiu correndo, desembestada aeroporto afora.
“– Tás doida! Vais perder o voo!
– Não se aperreie não, se não chegar a tempo, podes embarcar que eu me viro, mas vou comprar meu acarajé.”
E haja correr pelos calcanhares pelo saguão do aeroporto e, ao se deparar com o tabuleiro da baiana, parecia delirar, mas era real aquele cheiro e os bolinhos nadando no dendê, no tacho quente, parecia um bailado. A baiana quase sem dá vencimento aos pedidos, abria rapidamente em bandas cada bolinho e a pedido colocava vatapá, caruru e camarão, pimenta a gosto do freguês.
Nessa hora, a saliva vem à boca e ela não quis saber de nada, respirou fundo e seja o que Deus quiser. Não deu outra, caiu matando, deu aquela abocanhada e saiu correndo de volta ao setor de embarque.
Na tentativa desesperada de não perder o voo, lá vem ela correndo com os cabelos soltos, despenteados, a lhe atrapalhar a visão. Por sorte, o voo tinha atrasado e com o semblante de felicidade e a cara lambuzada do dendê do bolinho e do vatapá que escapara nas mordidas, corre em direção à “fila indiana” de passageiros que se encaminhava para o avião parado na pista. Na
época, o tal aeroporto ainda não dispunha de jetway – aquele corredor ou ponte móvel pelo qual os passageiros dirigem-se diretamente da sala de embarque para a aeronave, a salvo de sereno, raios solares, chuva ou qualquer intempérie.
Adentrou tão apressada no avião que mal cumprimentou os comissários que dão as boas-vindas. Percebeu de imediato sua amiga na poltrona do lado da janela. Trazia uma sacolinha de papel na mão que estava mais segura que a bolsa e então, foi logo dizendo para a amiga: “Consegui, consegui. É mesmo dos deuses.
Quando a amiga pensava em falar algo, sem pestanejar eis que abriu a sacolinha de papel e sem nenhuma cerimônia puxou um daqueles bolinhos e mandou ver. Nhac, nhac, nhac. Nem notara, também pudera, mas o cheiro do dendê tomava conta do ambiente e já provocava reclamações dos passageiros.
Naquele momento de prazer, nem imaginaria que alguma coisa poderia acontecer em razão da comilança de acarajé. Não demorou muito para ela sentir a primeira investida do Tsunami no estômago. Ela ainda procurou relaxar, mas a cabeça logo começou a rodar.
O boeing já se preparava para decolar e a orientação dada era para que passageiros e tripulantes permanecessem sentados. Na subida da aeronave, ela, que não pode se levantar, foi às nuvens. Não era mesmo o dia dela, logo o piloto informava que atravessariam “uma pequena turbulência”. Bastou o aviso, para o enjoo vir a galope.
Novamente, a amiga interveio: “calma, calma, vai passar”. Estava ela visivelmente nervosa não com o balanço do avião, mas com o balançar do acarajé no estômago.
Uma comissária de bordo, percebendo algo estranho vai até a nossa amiga. E pergunta-lhe: “– Está se sentido mal? – Não, ninguém pode fazer nada, minha filha...Nem reza nem sequer um descarrego poderá parar tamanha avalanche que vem por aí.”
Gentilmente, a comissária a segura pelo braço e a leva até o confortável toalete do avião, na parte traseira. Eita! Estava ocupado. Ela suava bastante, mas o jeito foi atravessar o avião para o toalete dianteiro. Ufa, estava livre.
Finalmente, a aeronave aterrissou em solo pernambucano e por razões óbvias deixemos para a fértil imaginação de quem está lendo esse texto o que sucedeu a essa minha amiga, no trajeto entre Recife e Caruaru, numa época em que a BR 232 ainda não fora duplicada.
Agildo Galdino Ferreira
Membro da Academia Caruaruense de
Cultura, Ciências e Letras

Nenhum comentário:
Postar um comentário