Há uma canção gravada em 1987, pelo grupo mineiro 14 Bis, que se chama "Mais Uma Vez". Ela traduz com bastante intensidade o quanto é importante manter acesa a chama da esperança, em todos os sentidos. É importante lembrar que essa composição reuniu dois grandes artistas de gerações e gêneros musicais distintos: Flávio Venturini (MPB) e Renato Russo (Rock) – pois é, na década de 1980 o país ainda cultivava a ‘diferença’ como um elemento capaz de promover a soma das visões de mundo, e não apenas as divergências superficiais e obscuras que parecem ter inundado todos os recantos da vida contemporânea, principalmente em países subdesenvolvidos como o nosso.
Me recordo que, em um determinado trecho da letra, o líder e vocalista da Legião Urbana dispara a frase: "Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem". Certamente, meus amigos, esse é um dos primeiros entendimentos que deveriam apontar para a direção de que não se deve dar crédito ao discurso odioso, e assentado no baixo astral geral, que toma conta da sociedade nesses últimos anos. Sejamos sempre contrários a esse caminho desencantado e cinzento. Acreditar em algo libertador, emancipador, e socialmente consistente, talvez, possa suscitar a recuperação de valores comuns, para o dia a dia do homem comum.
Creio que ainda não tomamos consciência sobre o quanto é perversa e nociva a postura individualista que tem moldado os novos – e até velhos - atores sociais que aí estão: nas ruas, nas fábricas, nos estabelecimentos de ensino, nas empresas, nas instituições, no poder público, enfim. São milhões de brasileiros que perderam a capacidade de enxergar as múltiplas possibilidades que a vida oferece e, por isso mesmo, enxergam apenas a si próprios, e quase sem nitidez.
Essa sucessão de condutas, somada a uma grave miopia coletiva, resulta nessa atmosfera de instabilidade e desconfiança em que todos estamos mergulhados. O que leva Renato Russo a também dizer na mesma canção: “Tem gente que está do mesmo lado que você. Mas deveria estar do lado de lá”.
Mas existe um alento. Simultaneamente também é possível encontrar uma imensa corrente de pessoas que se esforçam para aprender, para assumir falhas, e seguir promovendo o bem. Estes têm a lucidez e a ciência do quanto é importante cultivar e partilhar o que o mundo tem de honesto e de positivo. É essa ação, discreta e fundamental, que revela a esperança como algo que vai além de uma mera expectativa. A esperança é uma condição. Um objetivo.
Então, sigamos livres a melodia e os versos da música que inspirou esses escritos. Ela, a canção, já passa dos trinta anos - sinal de que a esperança também não tem idade. É por causa da sua atemporalidade que outros milhões de brasileiros não perdem a capacidade única de serem humanos, solidários, transparentes, sonhadores e realistas. Não esqueçamos das palavras do poeta Renato: “Confie em si mesmo. Quem acredita, sempre alcança”
Almir Vilanova é jornalista

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