Dia desses, meu amigo Paulo Nailson disse-me que teríamos a esperança como tema no especial de fim de ano do Blog. Daí passaram-se dias, e minha mente inquieta, haja vista tantos afazeres nesta reta final de ano, não dava sossego. Mas meu imaginário ganhou força e duas lembranças vieram à mente. Primeiro, a do navegador Bartolomeu Dias que, ao retornar a Portugal, dobrando o cabo (“pontal”) das Tormentas, no sul da África, como o chamou, descobriu que havia uma ligação entre o Oceano Atlântico e o Oceano Índico.
Em 1488, esse acidente geográfico – massa de terra que se estende por um oceano ou mar – passou a ser chamado de “Cabo da Boa Esperança” sugerindo então que haveria “uma esperança” para se chegar às Índias”.
A segunda lembrança fez-se presente em minha mente: o que levou a primeira turma de Engenharia de Pesca do Brasil sair por esse país afora de Monte Caburaí ao Arroio Chuí, do Rio Moa à Ponta do Seixas, ao ponto que hoje costumamos dizer entre nós: desbravamos as entranhas deste Brasil em pleno século 19, labutando na atividade pesqueira incluindo a pesquisa voltada para as especificas áreas do conhecimento.
Um grupo de 30 jovens, em média com 25 anos, após se diplomarem, em 1974, pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, lançaram-se na vida como diz a canção: “Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento”. Em busca da primeira oportunidade de emprego. Ser pioneiro geralmente é caminhar no escuro. Foram sim. Os sonhos sustentados pela esperança que não se desmancharam como quimeras ou puras miragens e nos envolvemos na vontade própria das experiências de cada um e destas extraindo-se a força para aqui chegar de diferentes maneiras.
Atualmente, o homem está diante de um mundo de tantas dificuldades e injustiças, e resta a ele a esperança: vislumbrar um mundo mais digno e justo. Isso nos leva à lembrança de Dom Hélder Câmara que foi, ao mesmo tempo, religioso, poeta, profeta, que construiu ao longo do século XX um modelo e uma pedagogia da esperança para os excluídos da sociedade.
Em pesquisa com ânimo diletante, encontrei centenas de definições atribuídas à esperança no âmago de contextos culturais, sociais, filosóficos, psicológicos e religiosos. Portanto a esperança significa para uns o poder de acreditar que tudo é possível, para outros um novo começo ou uma segunda chance para sua história oportunizando um anseio de mudança e uma transformação.
Nesse sentido, lembremos o descortinar do que somos hoje conduzidos também pelo sentimento de esperança por dia melhor, embora hoje vivamos em uma nova ordem de mudanças no mundo, de constante crise econômica, política e de violência. Ah, esperança nossa de cada dia, sustentáculo do nosso amanhã na completude de nossa alma no caminhar do dia a dia.
Segundo Donaldo Schüler (2000), o caminho abre-se na espera, como se fecha ao que nada espera. Quando não se tem esperança, não se vê o descortinar das cores. Dizem que o vermelho é a cor da paixão e o branco é a cor que representa a pureza. Já a canção nos diz: “Dizem que o campo se cobriu de verde; da cor mais bela que é a cor da esperança”. Teologicamente a esperança é uma das três virtudes ao lado da fé e da caridade (cf. 1ª Co. 13:13). Como nos diz a Bíblia, Deus é esperança. Aprendemos que ela reside em Deus, e assim Ele é chamado, “O Deus da esperança” (Rm. 15:13; 1ª Pd. 1:21). Esperança essa que se mostra como o desejo e a busca por um futuro melhor depositando no Senhor, confiança como em uma árvore plantada junto às águas.
Ainda quando nos referimos ao sentimento de esperança, inegavelmente falamos de valores no sentido amplo para a realização dos sonhos, dos desejos. Pensemos na esperança como um ponto de partida na busca por algo que acreditamos ser possível alcançar, pensemos ser uma expectativa de positividade no amanhã, que transcende toda e qualquer experiência de vida do ser humano.
Sabemos que há momentos em nossas vidas em que, como diz o dito, nos encontramos em um beco sem saída. O que fazer diante de perspectivas frustradas? Ah, esperança... Lutemos pela vida, conscientes de que os desafios fazem parte do nosso viver e, para vencê-los, navegar é preciso. Não desistam! Lembremos: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo. 16:33).
No entanto, se por um lado, é simples dizer A esperança é a última que morre, por outro lado, torna-se difícil descrever essa expectativa, essa intocável força que transcende o imaginário humano rumo ao caminhar. Ela nos faz não desanimar, não desistir de continuar no caminho. Segundo Carlos Drumond de Andrade, devemos permanecer esperançosos por um mundo melhor e mais justo.
Segundo o filósofo Mario Sergio Cortella, uma das coisas mais importantes na vida das pessoas é justamente a esperança, habilidade essa de buscar caminhos para que algo de bom possa se tornar realidade. Aristóteles disse ser a esperança um sonho feito de despertares. E eu digo: acreditemos que somos capazes de vencer nossos desafios. Para tanto, é nunca desistir de lutar, dar um passo à frente com o coração a pulsar e termos a esperança feito uma bandeira a tremular, num convite permanente.
Jesus sempre foi a esperança para o mundo, e especialmente para o seu povo. Retornou para o Pai, deixando-nos abundante esperança pelo poder do Espírito Santo” (Rm. 15:13).
Agildo Galdino Ferreira
É membro da Academia Caruaruense
de Cultura, Ciências e Letras.

Um comentário:
Texto notável.
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