16/03/19

Coisas da Vida - A MALA DO BAZAR por Agildo Galdino*


Nesse nosso mundinho perdemos uma boa parte do tempo com futilidades. A massificação do consumo e banalização da vida surpreende-nos. Ainda bem que ouvimos e contamos histórias. Essa foi uma prática generalizada ao longo dos tempos. O homem se utilizou da narrativa para repassar suas experiências de vida, e desta maneira contribuiu para a nossa formação. Histórias dramáticas, outras de fazer rir. Tudo isso porém, antes das mídias digitais incorporadas ao nosso dia a dia.

Pois é, foi-se o tempo em que as pessoas achavam que comprar em bazares e outros tipos similares de comércio era sinônimo de adquirir produtos velhos, modelos fora de época ou sem qualidade, lugares apenas frequentados por consumidores com recursos financeiros escassos. Não, hoje em dia significa muito mais do que algo que já foi usado em primeira mão por outra pessoa. É uma questão de escolha por alternativas de consumo consciente e sustentável.

Tudo começa quando o amigo JB decidiu pegar a mala de sua última viagem à Europa e doá-la a um bazar para angariar um dinheirinho, para as obras beneficentes da instituição de que fazemos parte, a qual manterei o nome em sigilo. Dirigindo-se aos filhos sobre o que pretendia fazer, perguntou a um e a outro. Praticamente, a resposta foi uma só: “Sei lá, o senhor é que entende desse negócio de bazar.”


É verdade, aquela mala representava a lembrança de momentos maravilhosos que passou viajando de cabo a rabo por esse mundão de meu Deus, sempre com ela de companhia. Mas o espírito de solidariedade e companheirismo o encorajara para levar a mala ao bazar e vendê-la por um preço acessível, muito aquém de seu valor de mercado, sem falar do valor sentimental. Que sofrimento o do JB, exercitar logo com aquela mala o desapego das coisas materiais.

Ele então pegou a mala e ainda a recheou com peças de roupas em desuso e de quebra com alguns pequenos utensílios domésticos. Tinha coisas do arco da velha. Só vendo para crer. Mas quando pegou uma caçarola, ouviu: “– Não, assim é demais.” Não cabia mais nada na mala. Estava suficientemente pesada para arrastá-la casa afora, até a garagem.


Pegou o carro e saiu feito um louco em disparada. Só pensava em entregar a mala logo para conseguir um preço melhor. Com o passar das horas, parece que dá a louca no pessoal. Muitos querem se livrar de suas mercadorias e começam as promoções. Aí então as vendas disparam feito fogo montanha abaixo. Não tem quem não compre. Há aquelas pessoas que ficam só de mutuca, esperando alguém da organização do bazar sair entre a multidão gritando: “promoção, promoção, baixou tudo, tudo.”

A partir daí, o fuzuê é grande. Homens, mulheres e crianças correm de um lado para outro. Acontece de tudo. Uns se vestem com a própria roupa que deveria comprar e saem desfilando. “– Só estava vendo se o tecido é flexível, se cai bem.

– Tá certo, passe ali para pagar.” Outros devolvem o que compraram minutos antes da promoção e, em vez de uma sacola de roupas, levam duas ou três.
Voltemos à mala do JB que ainda continha três telas a óleo que já não combinavam mais com sua nova casa. Sua intenção era agregar valor para conseguir um preço melhor pela mala. Porém o vendedor na barraca as vendeu em separado. “Por quanto? O quê? Por vinte reais as três? Meu Deus, por baixo, valeriam cem.

E afinal a mala foi vendida?

Eis a questão: No instante em que a mala estava sendo negociada, chegou o JB e plantou-se entre os dois, vendedor e comprador. Observava, sem intrometer-se, a transação. Mas de repente ao ouvir o valor de oferta, gritou de lado: “Não, assim não dá, por esse preço a compro de volta, tome os vinte reais.”

O vendedor, sem titubear e com altivez, respondeu: “– Alto lá companheiro, essa linda mala já não te pertence mais, esqueces que doaste para o bazar? – Mas por esse preço, companheiro, a compro de volta.” O outro pretendente, já com a cédula de vinte reais na mão, ensaiava contra argumentar. A confusão estava formada. Aí então, foi juntando gente ao redor deles e a mala passou a ser alvo de curiosos. Até gritos se ouviam: “Por esse preço eu também compro.” 

Que situação, héin JB?

E então nesse instante, alguém se aproxima e pergunta: “Afinal, o que essa mala tem de tão mágico que está criando esse fuzuê danado?” Não lhe foi respondido. Foi quando o JB lembrou o preço que pagou pela mala no exterior e com consentimento do outro pretenso comprador fez uma proposta. “–Cinquenta reais e não discutimos mais. – Não, não me interessa mais essa mala.”

Daí veio outra dor de cabeça. Quando JB suspendeu a dita cuja da mala, a alça arrebentou, abrindo-se em pleno salão. Eram cacarecos de todos os tipos a se espalharem pelo chão. “Valha-me, meu Deus, nunca vi coisa tão azarada. Deve ter sido mal olhado daquele galalau por não ter ficado com a mala.”

Então chamou um garoto, carregador de frete, e perguntou por quanto juntaria todos aqueles apetrechos e colocaria a mala na carroceria da sua camionete estacionada lá do outro lado da rua. “– Tudo bem patrão, isso é café pequeno. – Ótimo, quanto foi seu serviço? – Para o senhor, meu patrão, apenas cinquentinha, mas se quiser dar mais um agrado recebo, pois sua gerigonça pesou mais que jumento quando empaca na estrada, né verdade, patrão? – 

Sabe de uma coisa, você não quer comprar essa mala com tudo dentro? Vendo a você por trinta reais, que acha? – Tá doido patrão, fico por dez reais.”
E então para se livrar da dor de cabeça que causou a venda da mala: “– Está certo, fique com a mala. – Alto lá, patrãozinho, tenho a ver quarenta de troco. – Valha-me, meu Deus, toma, fica logo com essa azarada. De graça mesmo.”

Acabava assim a história da mala do JB.

*Agildo Galdino é presidente da Academia Caruaruense de Cultura Ciências e Letras

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