13/03/19

Em Verso e Prosa A inquietude de Jó por Jénerson Alves

https://www.jw.org/pt/publicacoes/livros/mensagem-da-biblia/jo-mantem-a-integridade/

Finalizando a série de artigos sobre os livros poéticos da Bíblia, vamos falar acerca da famosa história de Jó. Sem dúvida, uma das maiores obras literárias de todos os tempos, que tanto inspira quanto inquieta os leitores. Com breves trechos em prosa, o texto é predominantemente formado por diálogos poéticos, que enriquecem o conte e embelezam a forma da composição.
A autoria do livro é desconhecida. Segundo a tradição judaica, teria sido escrito por Moisés. Porém, eruditos modernos atribuem a autoria ao próprio Jó ou a Eliú (também mencionado no livro). Com as indefinições quanto a quem teria redigido a obra, consequentemente o período e o contexto de produção são incertos, mas parecem indicar a era dos patriarcas (chefes de grupos familiares seminômades, a exemplo de Abraão, Isaque e Jacó).
Para além destas especulações, chama a atenção a mensagem do livro. O sofrimento físico e moral do homem é o tema central da obra. Ao apresentar-se em formato de narrativa, a peça propõe uma partilha de experiências com o leitor. Afinal de contas, o sofrimento é um elemento presente na biografia de todos os seres humanos.
Na moldura do livro vê-se a caracterização de Jó como um homem “honesto, de palavra, totalmente dedicado a Deus e que odiava a maldade”. Após críticas do Acusador, Jó passa por diversos testes, como a perda repentina da família, da fortuna e da saúde. Inicialmente, o patriarca suporta as crises em silêncio, mas depois levanta questionamentos sobre as causas dos males que lhe sobrevieram.
Diante das tragédias contínuas, Jó não se contentou com as respostas prontas dos seus amigos Elifaz (22:23-27), Bildade (8:3-7), Zofar (11:14-17) nem Eliú (capítulos 32 a 37), que criam que os homens bons não poderiam padecer calamidades. Jó, persistente, questionou Deus e não se contentou com o silêncio do Criador como resposta. Em outras partes do Antigo Testamento, o mal é apresentado como consequência dos atos de desobediência à lei divina. No livro de Jó, a compreensão sobre a presença da maldade parece ter sido adensada, levando em consideração as dimensões do mal que independem da vontade humana (como tragédias, catástrofes naturais e acidentes), mas que fazem parte da inescrutável dimensão sapiencial do Eterno. Assim, as consequências da maldade não apontam para causas isoladas, mas sim para a Primeira Causa, isto é, a criação.
Perceba-se assim o entendimento das espécies dos males da vida humana – morais (resultados de transgressão da lei); físicos (necessidades do corpo e/ou da mente) e metafísicos (relacionados à nossa falta de infinita perfeição). Tais males estão intimamente relacionados à natureza humana, de modo que desvencilhar-se deles consiste em um “impossível intrínseco”.
O professor Northrop Frye, no livro El Gran Código, explica que geralmente o livro de Jó é classificado como tragédia, mas é, tecnicamente, uma ‘comédia’ em virtude do seu final feliz, já que Jó retoma sua prosperidade. “Em sua convencional forma cômica de renovação, este tipo de conclusão raramente convence: os que perdem suas filhas não se consolam realmente com novas filhas”, explana. Ainda segundo Frye, a renovação é mais compreensível como tipo de uma transcendência presente, “porém a transcendência não pode dar-se em um estado de ser por completo, como ao despertar de um sono: se o mundo restaurado não coincidisse com o mundo das chagas e dos amigos que não compreendem, o poema não teria sentido” (tradução livre).
Mais do que uma obra literária poética e narrativa, o livro de Jó possui uma arquetipia profética. Ele aponta que, a despeito da inquietante presença do mal na história da humanidade (que é a nossa história), o Defensor vive e por fim se levantará (19:25). Quando a vida sai dos trilhos, é possível enfrentar os dilemas da existência se desfrutamos de partículas de transcendência em nosso cotidiano.


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