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Precisamos resistir até para nosso próprio bem. Nenhum ser humano merece ser diminuído à condição de inseto, como escreveu Kafka. Mas também, continuar a vida e abandonar ao largo os que jazem na estrada nos desumaniza.
Rejeitemos nos entreter com notícia rala sobre a vida íntima de ricos e famosos. Procuremos análises mais profundas sobre os fatos. Cobremos manchetes imparciais.
Acostumar-se à barbárie é monstruoso.
A solução de quem mostra os dedos engatilhados para matar é sórdida.
O arrazoamento bélico, que desconsidera pessoas em nome de projeto político, nasce no inferno. Paz forjada sobre retaliação e vingança não é paz. Intolerância fermenta ódio.
Diz-se que C.S. Lewis confrontou seus amigos que gostavam de discutir literatura em um pub em Oxford durante a II Guerra: “O que fazemos aqui discutindo literatura, enquanto a Europa arde”?
Nero não foi um monstro por incendiar Roma, mas por tocar violino diante de uma cidade atolada no inferno.
Se crianças morrem estraçalhadas por balas, granadas ou fome, a vida não pode seguir adiante como normal.
Em “Metamorfose” Kafka descreve Gregor Samsa esquecido, empoeirado e triste, para avisar os que o abandonaram: se nos acostumarmos com o inferno, anormal não é ele que virou inseto, mas os familiares que o esqueceram; eles é que se transformaram em menos que gente.
Que Deus não nos deixe dormir em paz.
Ricardo Gondim é pastor
preside o Instituto Cristão de estudos Contemporâneos

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