03/04/19

Em Verso e Prosa - Gióia Júnior, um poeta da cidade - por Jénerson Alves


O dia 04 de abril de 2019 marca 23 anos sem Gióia Júnior. Nascido em Campinas-SP, no dia 09 de agosto de 1931, Rafael Gióia Martins Júnior foi poeta, radialista, advogado, jornalista e publicitário, além de ter feito incursões na política. Sem dúvida, um nome que deveria estar na mente do povo e ser estudado nas escolas.

Para o professor paraibano José Mário, “Gióia Júnior, em sua poesia, celebra e denuncia a cidade, falando desta sem maquiar as suas mazelas. Por isso, a obra deste autor é válida e merece ser apreciada, não só porque tem um conteúdo verdadeiro, mas também uma artisticidade apurada”.

Os versos de Gióia Júnior apresentam uma preocupação social. E este engajamento, ele mesmo explica, advém de uma profunda piedade cristã: “Sou Batista. Membro dessa nobre família [...] diácono da Igreja Batista e fiel às doutrinas Batistas. Aprendi democracia com essa denominação”. Assim, muitas de suas obras imbricam os dilemas da sociedade e os dramas humanos, reconhecendo as relações existentes entre ambos.

Um exemplo disso pode ser visto no belíssimo poema ‘Oração da Maçaneta’, que narra a angústia dos pais aguardando o retorno dos filhos das baladas na madrugada. Segue um trecho da obra:

“ (...)
Oh! os presságios e os pesadelos,
O eco dos passos nas calçadas,
A voz dos bêbados na rua
E o longo apito do guarda,
Medindo a madrugada,
E os cães uivando na distância,
E o grito lancinante da ambulância!
E o coração descompassado a pressentir
E a martelar
Na arritmia do relógio do meu quarto
Esquadrinhando a noite e seus mistérios.
Nisso, na sala que se cala, estala
A gargalhada jovem
Da maçaneta que canta
A festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa,
Com todos os ruídos secundários. (...)”

O mesmo pode ser visto no seguinte excerto de ‘Uma mulher na frente do fogão’:

“(...)
Chega o marido

que o tempo também  se incumbiu de transformar
em cansaço e desesperança
e traz para a cozinha
os problema da rua, 
o  insegurança do serviço,
o orçamento estourado,
a fila, a espera, o desconforto, a condução
e ela na frente do fogão!

(...)”

Apesar desta ótica para a cidade e para os problemas sociais, era contrário à Teologia da Libertação. Talvez por perceber que este segmento teológico pode desembocar em controvertidas relações com ideologias contrárias ao Cristianismo. Para Gióia Júnior, “Cristo não fez opção pelos pobres. É um erro julgar que a opção tenha sido pelos pobres. A sua opção é pelos pecadores, sejam eles ricos ou pobres”. Segundo ele, os líderes religiosos deveriam entender os “parâmetros de sua tarefa”, para que “não interfiram noutros campos que não lhes pertencem”.

Ele escreveu 20 livros de poesia, entre os quais podemos citar ‘Cântico Novo’, ‘Menino Pobre’, ‘Aparecem as Flores na Terra’ e ‘Jesus, Alegria dos Homens’. Este último, inclusive, remete a um poema inspirado no famoso coral que faz parte da cantata ‘Herz und Mund und Tat und Leben’, de Johann Sebastian Bach. O poema chegou a ser traduzido para o inglês pelo missionário William Hodges, que atuou no Brasil de 1980 a 2010. Depois de traduzida, a obra foi musicada por Ralph Manuel e tornou-se a letra da cantata ‘Jesus, Our Joy’, a qual estrou em fevereiro de 2012 na capela Ransdell da escola de música da Campbellsville University, em Kentucky, nos Estados Unidos.

Gióia Júnior também foi político. Vereador na cidade de São Paulo, foi considerado um dos 10 mais atuantes pela imprensa da época. Foi também deputado estadual por duas legislaturas. Por três vezes foi eleito deputado federal, tendo sido um dos mais atuantes da Câmara Federal, conforme registrado pelo jornal O Estado de São Paulo.

Foi filiado ao Partido Democrático Social (PDS), partido ligado ao governo militar, e depois a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Contudo, na Câmara Federal, durante a famosa sessão do dia 25 de abril de 1984, ele votou a favor da emenda Dante de Oliveira, que propunha o restabelecimento das eleições diretas para presidente. Como a lei não foi aprovada na Casa (faltando 22 votos), no ano seguinte Gióia Júnior votou no candidato Tancredo Neves para presidente da República, expressando claramente seu pensamento democrático.

Também presidiu a Associação de Radialistas do Estado de São Paulo, foi membro da Academia Paulista de Jornalismo, da Academia Maçônica de Letras do Brasil, da Academia Evangélica de Letras do Brasil, presidente do Conselho da União Brasileira de Escritores, presidente do Departamento da Mocidade Batista do Estado de São Paulo e vice-presidente do Congresso Nacional da Juventude Batista. Ademais, foi o primeiro presidente do Sindicato dos Radialistas de São Paulo e foi professor de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

Atualmente, é possível encontrar várias poesias de Gióia Júnior na internet (inclusive gravações de poemas por ele declamados estão disponíveis no YouTube). Vale ressaltar que duas de suas letras foram musicadas pelo cantor Sérgio Reis, a saber ‘A Gangorra’ e ‘Pé de Cedro’. Revisitar sua obra é um exercício de cidadania e de reflexão existencial. É olhar para o próximo, para a cidade, para nós mesmos e para Deus, através de versos carregados de beleza e sensibilidade.

Fonte:
DIAS, Júlio César Tavares. As duas (p)artes da vida de Gióia Júnior: entre a poesia e política. Disponível AQUI Verbete biográfico da Fundação Getúlio Vargas e AQUI
Folha de São Paulo



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