O dia 04 de abril de 2019 marca 23 anos sem Gióia Júnior.
Nascido em Campinas-SP, no dia 09 de agosto de 1931, Rafael Gióia Martins
Júnior foi poeta, radialista, advogado, jornalista e publicitário, além de
ter feito incursões na política. Sem dúvida, um nome que deveria estar na mente
do povo e ser estudado nas escolas.
Para o professor paraibano José Mário, “Gióia Júnior, em sua
poesia, celebra e denuncia a cidade, falando desta sem maquiar as suas mazelas.
Por isso, a obra deste autor é válida e merece ser apreciada, não só porque tem
um conteúdo verdadeiro, mas também uma artisticidade apurada”.
Os versos de Gióia Júnior apresentam uma preocupação social.
E este engajamento, ele mesmo explica, advém de uma profunda piedade cristã: “Sou
Batista. Membro dessa nobre família [...] diácono da Igreja Batista e fiel às
doutrinas Batistas. Aprendi democracia com essa denominação”. Assim, muitas de
suas obras imbricam os dilemas da sociedade e os dramas humanos, reconhecendo
as relações existentes entre ambos.
Um exemplo disso pode ser visto no belíssimo poema ‘Oração
da Maçaneta’, que narra a angústia dos pais aguardando o retorno dos filhos das
baladas na madrugada. Segue um trecho da obra:
“ (...)
Oh! os presságios e os pesadelos,
O eco dos passos nas calçadas,
A voz dos bêbados na rua
E o longo apito do guarda,
Medindo a madrugada,
E os cães uivando na distância,
E o grito lancinante da ambulância!
E o coração descompassado a pressentir
E a martelar
Na arritmia do relógio do meu quarto
Esquadrinhando a noite e seus mistérios.
Nisso, na sala que se cala, estala
A gargalhada jovem
Da maçaneta que canta
A festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa,
Com todos os ruídos secundários. (...)”
O mesmo pode ser visto no seguinte excerto de ‘Uma mulher na
frente do fogão’:
“(...)
Chega o marido
que o tempo também se incumbiu de transformar
em cansaço e desesperança
e traz para a cozinha
os problema da rua,
o insegurança do serviço,
o orçamento estourado,
a fila, a espera, o desconforto, a condução
e ela na frente do fogão!
(...)”
Apesar desta ótica para a cidade e para os problemas
sociais, era contrário à Teologia da Libertação. Talvez por perceber que este
segmento teológico pode desembocar em controvertidas relações com ideologias
contrárias ao Cristianismo. Para Gióia Júnior, “Cristo não fez opção pelos
pobres. É um erro julgar que a opção tenha sido pelos pobres. A sua opção é
pelos pecadores, sejam eles ricos ou pobres”. Segundo ele, os líderes
religiosos deveriam entender os “parâmetros de sua tarefa”, para que “não
interfiram noutros campos que não lhes pertencem”.
Ele escreveu 20 livros de poesia, entre os quais podemos
citar ‘Cântico Novo’, ‘Menino Pobre’, ‘Aparecem as Flores na Terra’ e ‘Jesus, Alegria
dos Homens’. Este último, inclusive, remete a um poema inspirado no famoso
coral que faz parte da cantata ‘Herz und Mund und Tat und Leben’, de Johann
Sebastian Bach. O poema chegou a ser traduzido para o inglês pelo
missionário William Hodges, que atuou no Brasil de 1980 a 2010. Depois de
traduzida, a obra foi musicada por Ralph Manuel e tornou-se a letra da cantata
‘Jesus, Our Joy’, a qual estrou em fevereiro de 2012 na capela Ransdell da
escola de música da Campbellsville University, em Kentucky, nos Estados Unidos.
Gióia Júnior também foi político. Vereador na cidade de São
Paulo, foi considerado um dos 10 mais atuantes pela imprensa da época. Foi
também deputado estadual por duas legislaturas. Por três vezes foi eleito
deputado federal, tendo sido um dos mais atuantes da Câmara Federal, conforme
registrado pelo jornal O Estado de São Paulo.
Foi filiado ao Partido Democrático Social (PDS), partido
ligado ao governo militar, e depois a Aliança Renovadora Nacional (ARENA).
Contudo, na Câmara Federal, durante a famosa sessão do dia 25 de abril de 1984,
ele votou a favor da emenda Dante de Oliveira, que propunha o restabelecimento
das eleições diretas para presidente. Como a lei não foi aprovada na Casa
(faltando 22 votos), no ano seguinte Gióia Júnior votou no candidato Tancredo
Neves para presidente da República, expressando claramente seu pensamento
democrático.
Também presidiu a Associação de Radialistas do Estado de São
Paulo, foi membro da Academia Paulista de Jornalismo, da Academia Maçônica de
Letras do Brasil, da Academia Evangélica de Letras do Brasil, presidente do
Conselho da União Brasileira de Escritores, presidente do Departamento da
Mocidade Batista do Estado de São Paulo e vice-presidente do Congresso Nacional
da Juventude Batista. Ademais, foi o primeiro presidente do Sindicato dos
Radialistas de São Paulo e foi professor de jornalismo da Faculdade Cásper
Líbero.
Atualmente, é possível encontrar várias poesias de Gióia
Júnior na internet (inclusive gravações de poemas por ele declamados estão
disponíveis no YouTube). Vale ressaltar que duas de suas letras foram musicadas
pelo cantor Sérgio Reis, a saber ‘A Gangorra’ e ‘Pé de Cedro’. Revisitar sua
obra é um exercício de cidadania e de reflexão existencial. É olhar para o
próximo, para a cidade, para nós mesmos e para Deus, através de versos
carregados de beleza e sensibilidade.
Fonte:
DIAS, Júlio César Tavares. As duas (p)artes da vida de Gióia
Júnior: entre a poesia e política. Disponível AQUI Verbete biográfico da Fundação Getúlio Vargas e AQUI
Folha de São Paulo



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