“A literatura não serve para nada”. Essa frase,
atribuída a inúmeros escritores e críticos literários, revela que a grandeza do
ato de escrever perpassa a compreensão do que é necessário. Não há utilidade na
literatura. Destarte, é ela um mecanismo de dar forma a pensamentos, ideias,
sensações, emoções. Assim como o artista plástico transforma barro em
esculturas; o escritor transforma sentimentos em palavras (ou palavras em
sentimentos). Sabe-se, contudo, que não existe apenas um tipo de escritor. Há
vários. Poetas, contistas, cronistas, romancistas… um sem-número de artesãos
das palavras, que subdividem-se em diversas especificidades, mas perseguem um
horizonte intangível, inalcançável, mesmo assim impossível de ser protelado. O
que fica evidente, porém, é que quem lê sai das trevas da alienação e passa a
enxergar a existência mediante novas lentes. A clareza reveste o mundo de novos
significados.
Enquanto a grande mídia permanece infestando os
lares com lixo – a exemplo do que nos é oferecido sobretudo nas tardes de
domingo pelas emissoras de televisão –, a literatura continua sendo fonte de
tesouro – que precisa ser procurado avidamente, como um peregrino busca um
oásis em meio ao deserto.
Vivemos tempos de fluidez, de efemeridade.
Estudiosos mostram que desde a segunda metade do século XX a sociedade passa
por intensas transformações.
O homem pós-moderno constitui-se em um sujeito
dessubstancializado, desprovido de grandes ideais. As relações são fragmentadas
e utilitárias, tendo em vista que o tempo deixou de ser percebido como linear e
progressivo, para ser simplesmente 'fatiado' em instantes. Ademais, predomina o
individualismo, oriundo de um sistema político e econômico baseado na ganância.
Com isso, fica difícil concatenar ideias e convertê-las em conhecimento. O
'outro' passa a ser um ser 'estranho', cuja importância está completamente
relacionada às intencionalidades do sujeito. A literatura aparece como um
antagonismo a tudo isso. Sem precisar engajar-se em alguma causa, ela
contrapõe-se ao sistema e humaniza as pessoas. O espírito humano é a grande
matéria-prima e objeto das obras de arte.
Assim sendo, a literatura passa a ser uma forma de
conexão entre consciências. Neste sentido, acho linda a doutrina cristã de que
a Bíblia é a Palavra de Deus. Distante das questões teológicas, percebo que a
Trindade decide comunicar-se com o ser humano mediante um livro, repleto de
poesias, narrativas, provérbios e parábolas. Amos Wider traduziu esta verdade
com excelência ao afirmar: “O modo narrativo é especialmente importante no
Cristianismo”. Nas narrativas bíblicas, as histórias são muitas vezes
apresentadas como um convite a partilhar das mesmas experiências. Em que pese a
importância das regras hermenêuticas e exegéticas para uma compreensão mais
aprofundada da Bíblia, quanto às narrativas – segundo Leland Ryken – a regra de
ouro é esta: “Encare as histórias bíblicas como um convite para partilhar de
uma experiência do modo mais vivo e concreto possível, com as personagens da
história”. Faça assim e perceberá que, sim, poderá ser uma atividade inútil,
porém essencial.
*Jénerson Alves é jornalista, professor, poeta e escritor.


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