04/08/19

Arte e Devoção - Da inutilidade da literatura - por Jénerson Alves*



“A literatura não serve para nada”. Essa frase, atribuída a inúmeros escritores e críticos literários, revela que a grandeza do ato de escrever perpassa a compreensão do que é necessário. Não há utilidade na literatura. Destarte, é ela um mecanismo de dar forma a pensamentos, ideias, sensações, emoções. Assim como o artista plástico transforma barro em esculturas; o escritor transforma sentimentos em palavras (ou palavras em sentimentos). Sabe-se, contudo, que não existe apenas um tipo de escritor. Há vários. Poetas, contistas, cronistas, romancistas… um sem-número de artesãos das palavras, que subdividem-se em diversas especificidades, mas perseguem um horizonte intangível, inalcançável, mesmo assim impossível de ser protelado. O que fica evidente, porém, é que quem lê sai das trevas da alienação e passa a enxergar a existência mediante novas lentes. A clareza reveste o mundo de novos significados.

Enquanto a grande mídia permanece infestando os lares com lixo – a exemplo do que nos é oferecido sobretudo nas tardes de domingo pelas emissoras de televisão –, a literatura continua sendo fonte de tesouro – que precisa ser procurado avidamente, como um peregrino busca um oásis em meio ao deserto.

Vivemos tempos de fluidez, de efemeridade. Estudiosos mostram que desde a segunda metade do século XX a sociedade passa por intensas transformações.
O homem pós-moderno constitui-se em um sujeito dessubstancializado, desprovido de grandes ideais. As relações são fragmentadas e utilitárias, tendo em vista que o tempo deixou de ser percebido como linear e progressivo, para ser simplesmente 'fatiado' em instantes. Ademais, predomina o individualismo, oriundo de um sistema político e econômico baseado na ganância. Com isso, fica difícil concatenar ideias e convertê-las em conhecimento. O 'outro' passa a ser um ser 'estranho', cuja importância está completamente relacionada às intencionalidades do sujeito. A literatura aparece como um antagonismo a tudo isso. Sem precisar engajar-se em alguma causa, ela contrapõe-se ao sistema e humaniza as pessoas. O espírito humano é a grande matéria-prima e objeto das obras de arte.

Assim sendo, a literatura passa a ser uma forma de conexão entre consciências. Neste sentido, acho linda a doutrina cristã de que a Bíblia é a Palavra de Deus. Distante das questões teológicas, percebo que a Trindade decide comunicar-se com o ser humano mediante um livro, repleto de poesias, narrativas, provérbios e parábolas. Amos Wider traduziu esta verdade com excelência ao afirmar: “O modo narrativo é especialmente importante no Cristianismo”. Nas narrativas bíblicas, as histórias são muitas vezes apresentadas como um convite a partilhar das mesmas experiências. Em que pese a importância das regras hermenêuticas e exegéticas para uma compreensão mais aprofundada da Bíblia, quanto às narrativas – segundo Leland Ryken – a regra de ouro é esta: “Encare as histórias bíblicas como um convite para partilhar de uma experiência do modo mais vivo e concreto possível, com as personagens da história”. Faça assim e perceberá que, sim, poderá ser uma atividade inútil, porém essencial.

*Jénerson Alves é jornalista, professor, poeta e escritor.
 


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