30/09/19

Cidadania e Fé - Uma mistura possível - por João Beltrão Filho*


Foi publicada há alguns dias, neste blog, uma nota de repúdio de autoria do núcleo pernambucano da Frente de Evangélicos(as) pelo Estado de Direito e da Escola de Fé e Política Pastor Marin Luther King Junior contra decisão da 24ª Vara da Justiça Federal em Pernambuco que ordenou a desocupação do Centro de Formação Paulo Freire, instalado no Assentamento Normandia do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, localizado aqui em Caruaru.

A Frente identifica-se como um “movimento social” constituído por membros de várias igrejas, com núcleos espalhados pelo país, cujo objetivo é “pautar uma narrativa contrária ao fundamentalismo religioso” e atuar prioritariamente “no campo da educação em direitos humanos nos espaços religiosos”.

A nota de repúdio está repleta de referências bíblicas. Abre o texto a lembrança de que a terra pertence a Deus (Salmo 24.1), sendo um “local onde se produz alimento e libertação” e uma “ferramenta valiosa nas mãos de Deus”. Como a decisão ordena a retirada do “povo” daquilo que “pertence somente a Deus”, teria sido inspirada pela idolatria ao dinheiro (Mateus 6.24).

Segue o texto denunciando o que seria “o projeto de poder” do governo Bolsonaro, que usa o discurso religioso ferindo o estado laico e de forma hipócrita, como os antigos fariseus. Seria um governo comprometido com um “sistema de miséria e opressão”, fazendo-se assim “inimigo de Deus”, incapaz de exercer amor pelos marginalizados, passando ao largo da “verdadeira religião”: “cuidar dos mais pobres e desprovidos de condições reais de vida” (Tiago 4.4, 1ª João 7.8 e Tiago 1.27).

No encerramento da nota é prestada solidariedade àquele espaço, vítima de “perseguição política”, e apela-se a “um mundo mais justo”, onde o que tem fome, tem sede, o nu e o estrangeiro são atendidos nas suas necessidades (Mateus 25.34-40).

Não obstante este articulista discordar da tese de que a decisão judicial se reduziria a uma perseguição política, a manifestação acima resumida, em linhas gerais, confirma o que vem sendo dito nesta coluna desde seu primeiro artigo: a religião pode fornecer uma fundamentação ética poderosa para a promoção do bem comum. Assim, a religião não traz apenas orientações quanto à salvação do indivíduo, mas também pode influenciar positivamente na atuação das pessoas na sociedade, levando-as a ir além de si mesmas ao torná-las profundamente implicadas no bem-estar da comunidade a que pertencem.

Em relação aos cristãos, não há muito espaço para alienação e escapismos, pois Jesus mostrou de maneira prática e clara o elo existente entre salvação e ética social misericordiosa. A crença de que o reino de Deus já começou com a encarnação, ministério, morte e ressurreição de Jesus impõe ao cristão trabalhar já agora para a realização dos valores desse reino, no qual, quando for pleno, não haverá “mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor” (Apocalipse 21.4).

Escreveu Jonathan Duffy, presidente mundial da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA): “Nossas crenças acerca do futuro têm implicações importantes sobre nossa maneira de viver hoje. Uma confiança saudável nas promessas de Deus para o futuro do nosso mundo deve ser o catalisador do envolvimento ativo, a faísca de uma vida rica e profunda e que faz a diferença para os outros” (“Meus pequeninos irmãos: servindo aos necessitados”. Lição da Escola Sabatina, jul-ago-set/2019, Adultos-Professor. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 138).

O envolvimento na esfera pública de pessoas motivadas por suas crenças religiosas não ameaça o estado laico. Essa ameaça provém da aliança entre Estado e Igreja enquanto instituição. Mas “religião e política podem, sim, ser misturadas. Uma pessoa pode ser inspirada por sua fé religiosa e ingressar na política e defender certas propostas”, bastando que esse envolvimento político seja do tipo “comunitário”, o qual não se dá em nome de igrejas ou instituições, mas em nome de “grupos de pessoas que pensam politicamente de uma mesma forma, inspiradas pela sua compreensão da fé cristã” (Paul Freston, Religião e política, sim; Igreja e Estado, não: os evangélicos e a participação política. Viçosa: Ultimato, 2006, p. 10 e 12).

A partir de certas premissas, como a defesa do Estado constitucional democrático, o respeito ao pluralismo ideológico e a consciência de que sistemas de verdades não podem ser impostos a todos, não há razão para temer ou mesmo rechaçar o engajamento político-social daqueles que falam e agem fundamentados em firme base teológica.

Daí ser perfeitamente aceitável, para dizer o mínimo, o trabalho de pessoas como o religioso batista Martin Luther King Jr., que não fazia nítida separação entre sua função de pastor e líder político e que estava muito à vontade para inserir em seus inspiradores discursos passagens da Bíblia. Baseado em Miqueias 6.8, ele declarou: “Vamos marchar sobre as urnas, até que enviemos às câmaras municipais, às assembleias legislativas e ao congresso pessoas que não tenham medo de fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com seu Deus” (citado por Paul Freston. Ob. cit., p. 32).

João Alfredo Beltrão Filho -  é graduado em Bacharelado em Direito pela Associação de Ensino Superior de Olinda (1999) e mestrado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (2010). Atualmente é professor assistente da Associação Caruaruense de Ensino Superior. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Processual Civil.  Coordenador do Fórum Regional de Liberdade Religiosa para a Associação Pernambucana Central da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Forlir-APeC).


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