Há casos raros na literatura, em que autor e obra se
confundem. Mestre Dila é um deles. Da sua pena, brotaram personagens,
narrativas, imagens. Realidade e ficção se fundem na sua obra. Então, não é por
acaso que há certos tons ficcionais em sua biografia. Alguns historiadores
registram que o nascimento dele ocorreu no dia 23 de setembro de 1937.
Entretanto, a família atesta que é no dia 17 de setembro que ele completa
aniversário. Hoje, ele completa 82 anos de idade, morando em Caruaru desde os
15.
Seu legado para a literatura de cordel é inegável. Além da
produção poética, seu manejo para criar xilogravuras é reconhecido
mundialmente. Ademais, foi o introdutor da linogravura (desenhos feitos com
borracha vulcanizada) na literatura de cordel. Desta forma, os traços das capas
lavradas por Dila apresentam detalhes e contornos que, embora mantenham a
rusticidade característica do folheto nordestino, configuram-se em novas
expressões, formatando um diálogo entre o conteúdo poético, no interior, e o
imagético, no exterior.
A versatilidade de sua verve também se apresenta na
multiplicidade de suas assinaturas. Dila, Dillas, Kirbaano Sabóia, José Soares
da Silva (seu nome de batismo, inclusive) e Dila Soares da Silva são apenas
algumas das formas utilizadas por ele em seus livretos.
Em 2005, foi considerado Patrimônio Vivo – título outorgado
pela Secretaria Estadual de Cultura (Fundarpe). Humildemente, ele afirma que
não se sente merecedor desta honraria. Assim como não adota o epíteto de
Mestre, argumentando que “Mestre é Jesus”.
Da mesma geração de vates como Olegário Fernandes, José
Pacheco, Vicente Vitorino, Jota Borges e Francisco Sales Arêda, Dila foi um dos
responsáveis pela difusão da literatura de cordel pelo Nordeste. Alinhando o
fazer artístico às demandas do mercado, conseguiu transformar versos em pão,
sustentando a família.
Foi a partir do esforço de nomes como Mestre Dila que o
Cordel alcançou posição de relevância no âmbito cultural. A criação da Academia
Caruaruense de Literatura de Cordel (ACLC) é um dos frutos das sementes
lançadas por Dila. Jovens escritores, como Espingarda do Cordel, Davi Geffson,
Thais Avelino, Hugo Delleon e Jefferson Moisés – para citar apenas alguns –
seguem os passos destes ícones, preservando a tradição com toques de
modernidade.
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| Mestre Dila e seu universo. Foto: Leo Caldas |
Atualmente, a Literatura de Cordel é reconhecida como
Patrimônio Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan). Há mais de 10 anos, funciona na rede municipal de
Caruaru o projeto Cordel nas Escolas. Na Paraíba e em Pernambuco, tramitam
projetos de lei que fomentam esta arte nas unidades educacionais – o primeiro,
de autoria da deputada Pollyana Dutra; o segundo, do deputado Delegado Erick
Lessa. Ademais, o Cordelista é reconhecido como profissional, segundo a Lei
Federal 12.198/2010.
Estas conquistas da categoria só foram possíveis graças ao
esforço de referências como Dila. No primeiro semestre, foi inaugurado o
Memorial Mestre Dila, na Rua Antonio Satu, no Centro de Caruaru, organizado
pelo artista Valdez Soares (filho de Dila), um local onde é possível aprender
mais sobre a vida e obra do Mestre. Aplaudir o passado, o trabalho e a sua
história é prenunciar a preservação da literatura de cordel como elemento
identitário do nosso povo, aguando as raízes culturais da nossa ancestralidade.
Parabéns, Mestre Dila!
*Jénerson Alves é
jornalista e vice-presidente da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel


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