20/10/19

Arte e Devoção - Guerra e Paz por Jenerson Alves


Pintados entre 1952 e 1956, os painéis ‘Guerra e Paz’ foram os últimos e maiores feitos pelo pintor brasileiro Cândido Portinari. O trabalho foi encomendado pelo então presidente Juscelino Kubitschek, com o objetivo de presentear a Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque.

De acordo com muitos críticos de arte, esta obra é a mais relevante de Portinari. A mensagem humanista trazida por ela, voltando o olhar para questões de cidadania, violência e injustiça social, impacta milhões de pessoas. As cores e formas do painel consistem em uma verdadeira poesia que representa o drama da existência.

Ora, a paz é um dos maiores ideais do ser humano. Obras literárias, musicais, teatrais e cinematográficas ganham projeção por traduzirem a sede do ser humano por um estado de harmonia e concórdia.

Estas reflexões trazem à memória o Sermão da Montanha, proferido por Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo por volta do ano 29 ou 30 d. C. Embora não se tenha certeza do local exato em que o discurso foi proferido, a beleza e a profundidade das palavras apresentadas pelo Mestre são inequívocas.

Uma das beatitudes apresentadas pelo Senhor Jesus está no capítulo 05, versículo 09 do Evangelho de São Mateus: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”. Em algumas traduções, este versículo era apresentado de forma diferente. A versão Almeida Antiga (1848), por exemplo, assim expressa: “Bemaventurados os pacificos, porque eles serão chamados filhos de Deos”.

Contudo, há uma diferença semântica entre ‘pacíficos’ e ‘pacificadores’. Enquanto a primeira palavra traz uma ideia de passividade estática, a segunda indica dinamismo. No grego, a palavra utilizada é ‘eirenopoios’, que quer dizer “fazedores da paz” (“peacemakers”, em inglês). Indo para o hebraico, a palavra ‘paz’ é “Shalom”, que tem um significado muito mais amplo. O pastor Isaltino Gomes Coelho Filho explana: “ A ideia mais exata é de integralidade, ser uma pessoa integral, sem brechas nos relacionamentos. Tem um sentido tridimensional: é bem-estar com o próximo, consigo mesmo e com Deus. É paz para fora, para dentro e para cima. É ter boas relações em todos os níveis da vida. Então já podemos ter uma noção do que Jesus está falando, ao analisarmos o sentido de paz”.

Desta feita, esta paz não se trata de ausência de conflitos, ou de cessação temporária do uso de armas. É uma paz com significado endógeno, que habita no mundo interior do ser humano. A paz outorgada pelo Senhor Jesus harmoniza os conflitos internos de cada um, para que o indivíduo possa ser um agente de promoção da paz no ambiente em que estiver inserido.

Se, na obra de Portinari, há o contraste em a guerra e a paz no seio da humanidade, a mensagem de Jesus indica a guerra e a paz no coração humano. E a paz que Jesus oferece advém da guerra contra o ego. Huberto Rohden já definiu: “O grande tratado de paz tem de ser assinado no foro interno do Eu individual antes de poder ser ratificado no foro externo das relações sociais. Nunca haverá Nações Unidas, nunca haverá sociedade ou família unida enquanto não houver indivíduo unido”.

Jénerson Alves - jornalista, professor, assessor parlamentar, poeta e escritor.

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