O secular não implica a expulsão
do religioso. O secular significa a presença de outras influências na sociedade
além da religiosa. Se o ambiente político e social é genuinamente democrático,
o secular e o religioso coexistirão razoavelmente bem, isto é, conseguirão
equilibrar suas tensões e tirarão lições mutuamente. Foi isso que tentou-se
deixar evidente no último artigo desta coluna a partir da percepção de Jürgen Habermas sobre o tema.
Valendo-se agora das lições de John Gray, pensador e professor
britânico, a proposta é patentear ainda mais os equívocos daqueles desavisados
que teimam em entender a secularização como um movimento radical de combate às
religiões, notadamente as abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo).
No seu livro Missa negra:
religião apocalíptica e o fim das utopias, John
Gray defende com muita inteligência e certa dose de ironia que as
ideologias e movimentos políticos descendem do monoteísmo judaico-cristão, com
sua noção de que a história faz parte de um fluxo de acontecimentos que
conduzirá a humanidade a uma era de paz e harmonia. Se a utopia que dominou o
mundo era o surgimento de um novo céu e nova terra com a volta de Cristo, desde
o Iluminismo e a Revolução Francesa, a fé em um mundo melhor baseia-se na ação
puramente humana.
Marxismo, socialismo, nazismo e o
movimento de implantação da democracia liberal e dos direitos humanos guardam
entre si a crença no progresso, numa nova era com um novo homem. Esses
movimentos trabalharam ou ainda trabalham pela universalização os seus
princípios e dogmas, tidos como verdades absolutas e não livres de
fundamentalismos. Daí ser apropriado considerá-las religiões seculares.
Além disso, a nova militância
ateísta, que acredita que a ciência e a tecnologia são a chave para a
humanidade dar seu último salto emancipador das superstições e alegado atraso
civilizatório das religiões (cientificismo) e que devem ser levadas aos quatro
cantos da Terra, traduz uma espécie de evangelismo ou trabalho missionário de
um fervor apostólico capaz de deixar os frios cristãos do Ocidente
constrangidos.
John
Gray escreveu: “Evidenciar as origens cristãs das crenças humanistas não
prova que estejam equivocadas, mas não são apenas as crenças humanistas que
derivam do cristianismo. É todo o arcabouço do pensamento...” (Missa negra:
religião apocalíptica e o fim das utopias. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.
282).
Sobre o problema fundamental do
secularismo radical, o professor britânico registrou que, “quando se refere a
um tipo de sociedade no qual esteja ausente a religião, o secularismo é uma
contradição, por se definir por aquilo que exclui. As sociedades seculares
pós-cristãs são formadas pelas crenças que rejeitam, ao passo que uma sociedade
que efetivamente tivesse deixado o cristianismo para trás estaria isenta dos
conceitos que modelaram o pensamento secular” (Idem, p. 282).
Além de o secularismo beber de
sua fonte religiosa, os que estão nas fileiras do secularismo jacobino lutam
uma batalha perdida, pois o homem é religioso por natureza:
“O mais importante no momento é aceitar a realidade
irredutível da religião. Nas filosofias iluministas que modelaram os dois
últimos séculos, a religião era um aspecto secundário ou derivativo da vida
humana, fadado a desaparecer ou a deixar de ser importante quando suas causas
fossem eliminadas. Uma vez erradicada a pobreza e universalizada a educação,
sendo superadas as desigualdades sociais e ficando para trás a repressão
política, a religião terá a mesma importância que um hobby pessoal. Por
trás desse artigo de fé iluminista está a negação do fato de que a necessidade
da religião é genérica na espécie humana. É verdade que as religiões são
infinitamente variadas e exercem muitas funções sociais – sobretudo, é claro,
como instituições de beneficência. Eventualmente, também têm servido às
necessidades do poder. Além desses objetivos sociopolíticos, contudo, as
religiões expressam necessidades humanas que nenhuma mudança social haverá de
eliminar: por exemplo, a necessidade de aceitar o que não tem remédio e
conferir significado aos acasos da vida. Assim como não podem deixar de ser
sexuais, lúdicos ou violentos, os seres humanos nunca deixarão de ser
religiosos.
Se é uma necessidade humana primordial, a religião
não deve ser suprimida ou relegada ao limbo da vida privada. Precisa ser
plenamente integrada à esfera pública, o que não significa que se deva
instaurar uma religião específica como doutrina pública” (p. 310).
Por fim, ao defender a adoção do realismo em
matéria política, John Gray exorta:
“Está na hora de aceitar a diversidade das religiões e abandonar a tentativa de
construir um monopólio secular” (p. 311).
O “monopólio secular” implicaria, na melhor das
hipóteses, um recuo além do tolerável do elemento religioso na vida das pessoas;
na pior, o seu desaparecimento. É evidente que nenhuma delas é viável. A
realidade impõe ao Estado a tarefa de trabalhar para assegurar a coexistência
pacífica das diversas formas de pensamento. Quanto às pretensões secularistas
radicais, baseadas no cientificismo e utopia puramente humanista, devem ser
completamente abandonadas, pois fadadas ao insucesso.
João Alfredo Beltrão Filho - é graduado em Bacharelado em Direito pela Associação de Ensino Superior de Olinda (1999) e mestrado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (2010). Atualmente é professor assistente da Associação Caruaruense de Ensino Superior. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Processual Civil. Coordenador do Fórum Regional de Liberdade Religiosa para a Associação Pernambucana Central da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Forlir-APeC).


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