12/10/19

Pelo segundo ano consecutivo, Nobel da Paz, vai para um Cristão evangélico

Primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, e o presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, comemoram a reabertura da Embaixada da Eritreia na Etiópia, em Adis Abeba, em 16 de julho de 2018 — Foto: Michael Tewelde / AFP
G1

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, ganhou o Nobel da Paz 2019 por sua iniciativa decisiva para resolver o conflito de fronteira com a vizinha Eritreia, no leste da África. O anúncio do 100º Prêmio Nobel da Paz foi feito na manhã desta sexta-feira (11), em Oslo, na Noruega.
Em estreita cooperação com o presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, o premiê de 43 anos rapidamente elaborou os princípios de um acordo para acabar com o longo impasse "sem paz, sem guerra" entre os dois países. O tratado colocou formalmente fim a 20 anos de uma guerra que deixou mais de 80 mil mortos.
"O Comitê Nobel espera que o prêmio da Paz reforce o primeiro-ministro Abiy em seu trabalho a favor da paz e da reconciliação. É um reconhecimento e também um estímulo a seus esforços. Somos conscientes de que resta muito por fazer", afirmou a presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Berit Reiss-Andersen.
Como primeiro-ministro, Abiy Ahmed "procurou promover a reconciliação, a solidariedade e a justiça social". Ele iniciou importantes reformas que "dão a muitos cidadãos a esperança de uma vida melhor e de um futuro melhor".
O Comitê do Nobel também reconhece com esse prêmio todos que trabalham pela paz e reconciliação na Etiópia e nas regiões leste e nordeste da África. O trabalho do presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, foi destacado.
"A paz não é alcançada apenas com as ações de uma única pessoa. Quando o primeiro-ministro Abiy estendeu a mão, o presidente Afwerki aceitou e ajudou a dar forma ao processo de paz entre os dois países", afirmou o comitê.
No telefonema em que foi informado do prêmio, o premiê afirmou ter recebido humildemente a premiação e que ficou emocionado:
"É um prêmio dado à África, dado à Etiópia, e posso imaginar como os outros líderes da África serão incentivados a trabalhar no processo de construção da paz em nosso continente. Estou muito feliz e emocionado com a notícia. Muito obrigado, é um grande reconhecimento", afirmou o laureado.
Após o anúncio, o gabinete de Abiy afirmou que o prêmio é um testemunho "dos ideais de unidade, cooperação e convivência mútua que o primeiro-ministro sempre defende". O governo etíope anunciou que o país está orgulhoso pelo prêmio.
O prêmio significará um impulso para o governante, que enfrenta uma onda crescente de violência entre diferentes grupos em seu país, onde estão previstas eleições legislativas em maio de 2020.

Premiê etíope, Abiy Ahmed (centro), de mãos dadas com o presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, falam ao público na capital da Etiópia — Foto: Mulugeta Ayene/AP
Biografia

Abiy nasceu em uma família muito pobre, em Zona Jima, no sul da Etiópia, em 1976. Ele é filho de pai muçulmano Oromo e mãe cristã Amhara. Ele ingressou na política em 2010, como membro da Organização Democrática do Povo de Oromo.

Posteriormente, ele foi eleito membro do parlamento. Nessa época, ocorreram fortes disputas entre católicos e muçulmanos e ele teve a iniciativa de criar o "Fórum Religioso pela Paz", uma solução duradoura para o problema.

Em abril de 2018, ele assumiu o cargo de premiê da Etiópia, a segunda maior população da África, e introduziu reformas liberalizantes, que tiveram forte impacto no país. Ali libertou da prisão milhares de ativistas da oposição, pediu desculpas pela brutalidade do Estado e permitiu que dissidentes exilados voltassem para casa.

Mais importante ainda, ele assinou o acordo de paz com a Eritreia em julho de 2018.

A Eritreia declarou independência da Etiópia em 1993. Isaias Afwerki se tornou o presidente (e até hoje o único) da nova nação. Afwerki, que controla o país com mão de ferro, e Meles Zenawi, então premiê etíope, eram primos. A relação ia bem, mas, cinco anos depois, as duas nações entraram em confronto por questões fronteiriças.

De 1998 a 2000, Etiópia e Eritreia travaram uma guerra que deixou mais de 80 mil mortos, principalmente devido a divergências sobre a fronteira. O confronto eclodiu na cidade fronteiriça de Badme (Eritreia).

O confronto foi apelidado pela mídia local de "guerra louca" no Chifre da África. Ele parecia resultar de nada mais do que rivalidade entre familiares - cada lado exigia "respeito" e alegava não estar recebendo.

Além das milhares de vidas perdidas, as duas nações investiram bilhões de dólares em um conflito aparentemente sem importância estratégica para nenhum dos lados, de acordo com a CNN.

Um acordo de paz chegou a ser assinado em 2000, mas não foi colocado em prática. Em 2002, a Etiópia se recusou a aceitar uma proposta de uma comissão independente, liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU), para a demarcação da fronteira entre os dois países e manteve a animosidade.

Em agosto de 2012, Meles morreu e, aparentemente, esse fato contribuiu para a posterior resolução do conflito.

Em 9 de julho de 2018, Abiy Ahmed Ali e Isaias Afwerki assinaram o acordo que restabelecia as relações diplomáticas entre os dois países.

“Uma nova era de paz e amizade começa. Os dois países se abrem para promover uma estreita cooperação, nos setores da cooperação, nos setores da política, da economia, do social, da cultura e da segurança”, dizia o documento.

A partir de então, o comércio, os transportes e as telecomunicações entre as duas nações foram retomadas.

O vencedor do Nobel receberá um prêmio de 9 milhões de coroas suecas (R$ 3,72 milhões). A cerimônia de entrega acontecerá no dia 10 de dezembro, aniversário da morte do idealizador do prêmio, o industrial e filantropo sueco Alfred Nobel (1833-1896).

O Comitê Nobel registrou neste ano 301 candidaturas, sendo 223 pessoas e 78 organizações. Criada pelo industrial sueco Alfred Nobel, o inventor da dinamite, a premiação foi concedida pela primeira vez em 1901.

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