Na atualidade, teocracia é o termo usual quando se entende que a democracia liberal está sofrendo ou prestes a sofrer algum dano, caso pessoas abertamente religiosas exerçam o poder político.
No Ocidente principalmente, isso pode ser verdade em relação aos adeptos da teologia do domínio, desejosos de que a política reflita diretamente valores cristãos. Estes aparentam ter pouca habilidade com o pluralismo político e a diversidade de estilos de vida. Querem que seu país seja uma bem-aventurada “nação cujo Deus é o Senhor”. São evidentes os riscos ao Estado laico na hipótese de as pretensões dominionistas terem passe livre, pois aproximam de forma perigosa o Estado e a Igreja. Há riscos também para as minorias, inclusive religiosas, com sua relação com o sagrado, visão de Deus ou versão de cristianismo distintas do modelo majoritário.
Mas tal não se aplica àqueles que, não obstante assumirem abertamente a influência da religião em sua vida, conseguem separar as esferas políticas e religiosas conforme os ditames democráticos. Podem até propor leis e efetivar programas governamentais motivados pela sua fé, mas nunca para satisfazer exigências de poder de grupos religiosos específicos em detrimento do restante da população. Para os que sabem dar “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, é natural e esperado promoverem o diálogo e cooperação entre religião e política, mas nunca a ponto de unir Estado e Igreja, ofender a democracia, desconsiderar a diversidade social e enfraquecer a laicidade.
Em referência a esse segundo grupo de cidadãos, os termos teocracia, fundamentalismo e quejandos são inadequados. Não passam de expressões injuriosas lançadas por antirreligiosos “zelosos” para rotulá-los negativamente perante a opinião pública, tais como nazista, fascista e comunista.
A única versão de teocracia admitida pelo cristão genuíno é aquela descrita no Novo Testamento, notadamente nos quatro evangelhos.
N. T. Wright, em seu livro Como Deus se tornou rei, defende que a mensagem central dos evangelhos é que o Deus de Israel cumpriu suas promessas àquele povo, transmitidas pelos antigos profetas, de suscitar um novo rei e inaugurar um novo reino em Jesus Cristo. O nascimento, ministério, morte e ressurreição de Jesus deu início a uma nova realidade por meio da qual Deus, em Cristo e por meio de Cristo, tornou-se o rei do mundo e começou um processo de transformação da criação que só terá fim quando o seu reino tornar-se pleno, no futuro.
A entronização do Rei deu-se na cruz, “com a inscrição ‘Rei dos Judeus’ sobre a cabeça”. E a vitória do Rei “sobe as nações não será com armas e bombas, mas com o seu povo, em sofrimento e testemunho” (Wright, N. T. Como Deus se tornou rei. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 222).
O trabalho servil de Cristo “demonstra o novo tipo de poder que deve ser inaugurado no mundo, confrontando os governantes como o novo caminho de Deus”. “A crucificação era a forma apropriada e há muito profetizada como o Messias viria a ser rei de todo o mundo, e o segundo volume de Lucas, Atos dos Apóstolos, descreve como isso se desenvolve”. A cruz evidencia que o “reino de Jesus não virá por violência (...), mas por sua própria morte. Ao ser levantado da terra, o rei atrairá todos a si mesmo” (idem, p. 229, 230).
Ao ter o Império Romano condenado Jesus à morte, ajudou “na entronização daquele cujo reinado sobre as nações fluía de seu amor soberano, restaurador”. Daí que o reino de Cristo “vem de maneira totalmente inesperada” (idem, p. 232).
Para os súditos desse reino, que são chamados para continuar a obra do Messias, está reservada uma tarefa a ser “cumprida da mesma maneira, pelos mesmos meios” (idem, p. 234).
Nessa nova teocracia, Deus habita em Jesus e este habita no Espírito. “No poder do Espírito, o povo de Jesus se propaga e passa a ser a habitação de Deus aonde vai, antecipando o cumprimento da promessa por meio de sua vida e obra comunais moldadas pela cruz” (idem, p. 251). A cruz é “o momento e que o povo de Deus é renovado para ser, finalmente, o sacerdócio real que tomará posse do mundo, não por amor ao poder, mas pelo poder do amor” (idem, p. 251, 252).
A redefinição de reino apresentada na cruz afasta “qualquer sugestão simplória de triunfalismo”. “Martírio” e “sofrimento” são esperados “pelos que trazem o reino”. A história dos cristãos “não é uma história de poder. Nosso desígnio não é obter dinheiro, sexo ou poder para nós mesmos”. Na verdade, a história cristã “é uma história de amor, operando por meio de Jesus e, então, pelo Espírito, por meio dos seguidores de Jesus” (idem, p. 253).
Como o reino é para este mundo, não cabe aos cristãos o “afastamento sectário”. A missão dos cidadãos do reino de Deus é “incorporar, explicar e defender novas maneiras de organizar comunidades, nações e o mundo. O lugar da igreja é no coração do mundo, onde, pela oração e pela santidade, ela administra cura, precisamente no centro da dor (idem, p. 254).
Por fim, “a aplicação primária da cruz”, segundo Wright, é “um programa em que pessoas perdoadas são postas para trabalhar, lidando com os males do mundo à luz da vitória do Calvário. Aquele cujo trabalho relacionado com Deus foi retificado é o mesmo que trabalha como ‘retificador’ do mundo. Justificação é a forma como Deus antecipa a retificação de homens e mulheres, até o dia em que ele corrigirá todas as coisas, constituindo, assim, o povo justificado como agente-chave nesse seu projeto posterior. Dessa ideia fui uma nova missiologia, incluindo uma teologia política integrada, e uma nova eclesiologia que lhe servirá de apoio, uma comunidade cuja própria essência será formada pelo perdão” (idem, p. 254).
Jesus está agora “governando o mundo como aquele que foi crucificado”, e seus seguidores por toda parte, mediante seu testemunho prático, revelam que esse governo não está assentado sobre um “poder coercivo ou violento”. Trata-se de um governo completamente diferente: um “governo do amor” (idem, p. 260).
Para os cristãos, não um país, mas o mundo todo já vive sob uma teocracia – a teocracia do reino de Deus redefinido pela cruz do Calvário. Assim, a teocracia iniciada por Jesus e tornada real pela igreja, é algo completamente diferente das estruturas e programas de poder que marcam a história da humanidade, e aos que se comprometeram com seus valores – os valores do reino – nada mais resta do que seguir os passos do Rei servindo e amando um mundo que sofre.
*João Alfredo Beltrão Filho - é graduado em Bacharelado em Direito pela Associação de Ensino Superior de Olinda (1999) e mestrado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (2010). Atualmente é professor assistente da Associação Caruaruense de Ensino Superior. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Processual Civil. Coordenador do Fórum Regional de Liberdade Religiosa para a Associação Pernambucana Central da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Forlir-APeC).


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