30/11/19

Coisas de Matuto - Tem matuto por todo canto desse Brasil por Nelson Lima*


Eu pensei que só se tinha matuto no nordeste, mas encontrei uma, e sei que tem inúmeras, história de uma família no Paraná e Rio Grande do Sul, que se deu entre 15 de agosto de 1946 a 3 de junho de 2018. Assim se deu:


Em agosto de 1946 Elsa de Nardi Comunello chegava com o marido, Francisco, um filhinho no colo e duas vaquinhas de leite amarradas na carroça, alugada, com a mudança. Era tudo mato...

Dia 15 de agosto de 1946, após ajudar o carroceiro a engatar os cinco animais na carroça, o jovem Francisco Comunello anunciou à esposa, Elsa, que estavam perto e em algumas horas de viagem chegariam ao rancho, sede do sítio que há poucos meses ele tinha vindo comprar.

Sempre disposta e atarefada, devido aos trabalhos de casa e compromissos com a Igreja, da qual foi ministra da eucaristia, preservava tudo do que o marido deixou ao falecer. Cuidava das parreiras e fazia o vinho. Na roça, viu crescerem sempre mais as centenas de pinheiros que o marido plantou. Mesmo vivendo sozinha, manteve arrumadas as camas dos “meninos” e das “meninas”, pra quando reunia filhos e netos; em seu quarto tinha ainda a cama de casal, pois as netinhas gostavam de dormir com ela quando iam visitar. E quando era para falar de sua vida, do marido, dos filhos e da história de Francisco Beltrão, dona Elsa estava sempre pronta e relembrava com muitos detalhes tudo o que viveu, como pioneira de uma das cidades mais progressistas do Paraná.

Numa entrevista Elsa respondeu.

O que cabia na carroça, além do fogão? Era uma carroça meio grande, puxada por cinco animais. Tinha a cama e as roupas, todas bem ajeitadas. Banha, linguiça, trouxemos de tudo. Mas de móveis tinha só o fogão e uma “cama patente”, de casa, com um colchão de pena. Nem mesa cabia. A cama ficava erguida de um lado, as cabeceiras do outro, as coisas no meio e ali a gente se acomodava, com uma lona por cima. As roupas estavam em caixas e num baú. Olha, se eu tivesse 21 anos, eu voltava de novo.

Naquele primeiro ano, o que plantaram? Quando chegamos, o Comunello já tinha mandado plantar trigo, colhemos trigo, colhemos milho, e daí era em agosto, né, já começamos a plantar. Não era muita roça, dava pra gente viver, ele tinha mandado roçar, quando chegamos, foi só plantar. A terra era boa. Naquele tempo o Comunello trabalhava bem na roça. Era tudo na enxada. Eu também ia pra roça, eu gostava. A terra era nova, não tinha inço. A gente plantava e colhia com facilidade.


Termino por aqui e se tudo der certo, na volta das férias continuarei com outras histórias.

José Nelson de Almeida Lima - é poeta cordelista, escritor, ator, produtor, palestrante. 


Um comentário:

Unknown disse...

Que venha mais histórias.