10/11/19

Arte e Devoção - “Um amigo querido que conheci até ontem se foi hoje" Jenerson Alves*


O ‘Ishiyana-gire’ é uma antologia de trinta e seis poemas decorada luxuosamente, cujos volumes estão dispersos. Os papéis são coloridos em três cores e decorados com plantas e insetos. Os versos são escritos no elegante silabário japonês chamado ‘hiragana’.

Há dois poemas redigidos para um amigo que morreu, de autoria de Ki no Tsurayuki – poeta e cortesão do período Heian (794-1185), o qual é considerado o pico da corte imperial japonesa e destacado pela sua arte, principalmente a poesia e a literatura. A palavra ‘Heian’ (平安) significa “paz” em japonês.

Em três linhas, o primeiro poema diz: “Um amigo querido que conheci até ontem se foi hoje, arrastado como nuvens de montanha”. O verso seguinte continua o pensamento: “Que trágico que embora vivamos o que temos seguramente morrerá”.

Interessante observar que, apesar de terem sido escritos em um tempo de paz, os versos apresentam para o leitor a crueza da finitude da vida. Faz-me recordar o livro bíblico de Eclesiastes, escrito pelo sábio Rei Salomão por volta do ano 930 a.C., que já inicia com a forte sentença – “Vanitas vanitatum” (tudo é vaidade, isto é, efêmero).

Pensar na transitoriedade da vida nos impele a aproveitar melhor o intervalo que temos entre o nascimento e a morte. Coloca a baixo os castelos de areia que construímos para nós mesmos. Saber que nós podemos ser arrastados como as nuvens nos traz uma sensação de impotência que nos lança aos pés dAquele que é Onipotente, e torna vívido o conselho do Pregador: “Memento Creatoris tui” (Ec. 12:1).


Jénerson Alves - jornalista, professor, assessor parlamentar, poeta e escritor.


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