Finalizamos o penúltimo mês de 2019 propondo uma reflexão sobre a nossa passagem pelo mundo, onde chegamos deitados num bercinho e dele partimos deitado numa esquife, popularmente chamado de “caixão de defunto”.
No primeiro semestre, tivemos perdas muito significativas no cast artístico do Brasil. Nomes da dimensão de Paulo Henrique Amorim, João Gilberto, Ricardo Boechat, Lúcio Mauro, Rafael Miguel, Gabriel Diniz, Beth Carvalho e semana passada o apresentador Gugu Liberato.
Alguns fatos são passíveis de uma reflexão sobre a partida dessas pessoas para outro plano, metade delas vítimas de acidentes.
Essas pessoas são conhecidas do grande público a partir da força de marketing que pesa em seus nomes. Acostumados a assistirmos a autopromoção deles e delas nos diversos canais de TV e mais ainda nos smartphones, a maioria das pessoas vão criando uma relação de respeito e afetividade com seus heróis e heroínas, aspirando o modelo de vida que eles levam, mas na realidade bem distante dos nossos costumes de rotina de vida sem o estrelismo próprio que a exposição nas mídias ofertam a poucas pessoas.
Quando alguma celebridade falece - principalmente vitimado por uma fatalidade - ocorre um choque momentâneo nos seus milhões de fãs!
Na semana em curso, com a fatídica morte acidental do apresentador Augusto Liberato, adotado artisticamente por Sílvio Santos, o magnata das comunicações brasileiras, alguns aspectos me chamaram a atenção, tais como a banalidade de um acidente doméstico; a cobertura em mídia nacional, indiferente às normas de concorrência entre as emissoras; o comportamento de várias pessoas no velório, anônimos e famosos fazendo “selfies” no recinto, a meu ver inapropriado para essa atitude expositiva e por fim o crescimento instantâneo de milhares de seguidores em diversas plataformas.
Me levou à percepção de questionar sobre qual sentido das pessoas se tornarem seguidoras de alguém que já não está mais entre nós, já que o titular da conta não poderá interagir, respondendo comentários nas postagens, abrindo um pouquinho de sua vida privada para satisfazer a curiosidade das pessoas que acompanham os trabalhos, ou simplesmente mantendo acesa a chama do marketing, agora nas plataformas digitais, Instagram, Twitter e similares?
Obviamente que um argumento favorável às referidas contas é aquele que justifica uma homenagem eterna ao finado, ou ainda a preservação da memória artística de quem se tornou uma referência social por sua atuação profissional.
Por fim, inovam-se os costumes sociais, levando a internet para todos os momentos da vida humana, do nascimento à morte, nos tornamos eternos conectados do mundo digital. Será que internet nos acompanha no pós morte? ainda poderemos “descansar em paz”?
*José Urbano
é professor e historiador

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