Novamente, o mundo assiste os EUA serem incendiados com manifestações violentas contra o assassinato de um homem negro pela polícia. A cena amplamente divulgada da prisão e imobilização de George Floyd ainda nos choca e dá razão às acusações de racismo. A revolta está prestes a completar uma semana e chegou às portas da Casa Branca, em Washington D.C., sede do governo, levando o presidente Donald Trump a se refugiar em um bunker, conforme notícias de hoje.
Qual a resposta do cristianismo a tudo isso? Os mais afoitos talvez digam que não existe, pois o racismo esteve presente por séculos em nações declaradamente cristãs, sendo as principais vítimas os judeus e os negros. E com a preocupação em muitos países europeus com a manutenção de sua identidade nacional e cultural – que se tornou até pauta política em razão da crise provocada pelo ingresso de refugiados de guerra em solo europeu nos últimos anos –, leis e atos de cunho racista ganharam legitimidade em muitos lugares.
Mas a doutrina de Jesus oferece uma resposta, e não podemos julgá-la a partir da infidelidade dos seus pretensos adeptos ao longo da história. Por sinal, como desafiou Gilbert K. Chesterton, as pessoas deveriam julgar o cristianismo pelo que ele é, e não pelo que não é.
O cristianismo é universalista. Como disse Paulo, “mediante a fé somos “filhos de Deus”, não existindo “judeu nem grego; escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3. 26-28 – Nova Versão Internacional).
No famoso episódio em que Jesus se encontra com uma mulher samaritana junto ao Poço de Jacó, o Nazareno mostra que no Reino de Deus – cuja realização é missão da igreja já neste mundo – não há espaço para barreiras nacionais, culturais e religiosas (João 4).
João, no Apocalipse, em uma das cenas de adoração a Deus, descreveu “uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas” (Apocalipse 7. 9 – Nova Versão Internacional).
O cristianismo ensina que todos são iguais em essência, pois foram feitos à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1. 26,27). Portanto, a Bíblia afirma a unidade da raça humana. Além disso, quando é dito que o amor é devido ao próximo, a parábola do Bom Samaritano revela que esse próximo é qualquer outro ser humano (Lucas 10. 25-37).
Escreveu John Stott: “As igrejas devem estar na vanguarda da condenação ao racismo, e não vê-lo como um tema sobre o qual uma conversa ocasional pode acontecer se houver interesse suficiente”.1
O Evangelho põe abaixo diferenças culturais, ignora as fronteiras do mapa-múndi, está além das discussões entre esquerda e direita e não se importa com a cor da pele ou a composição genética das pessoas. O Evangelho pertence ao mundo em toda a sua rica diversidade, e todos os que o levam a sério têm o compromisso de desenvolver o mesmo caráter abarcante, trabalhando pacífica e tenazmente para que pecados como o racismo tenham cada vez menos espaço.
1 STOTT, John. Os cristãos e os desafios contemporâneos. Viçosa: Ultimato, 2014, p. 308.
*João Alfredo Beltrão Filho - é graduado em Bacharelado em Direito pela Associação de Ensino Superior de Olinda (1999) e mestrado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (2010). Atualmente é professor assistente da Associação Caruaruense de Ensino Superior. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Processual Civil. Coordenador do Fórum Regional de Liberdade Religiosa para a Associação Pernambucana Central da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Forlir-APeC).


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