17/07/20

Luto no Radiojornalismo brasileiro: Morre aos 78 anos José Paulo de Andrade

"O canhão do rádio" era um defensor da verdade na comunicação, atuou durante 57 anos no grupo Bandeirantes

Revista QuemGlobo.com

José Paulo de Andrade, de 78 anos de idade, apresentador da Rádio Bandeirantes, morreu nesta sexta-feira (17). O locutor havia sido diagnosticado com Covid-19 no início de julho e estava internado no Hospital Israelita Albert Einstein desde o dia 7 de julho. Em recuperação, ele estava afastado do trabalho e não participava da programação desde o dia 6 de julho.

A informação foi confirmada pelo jornalista Claudio Junqueira, autor do livro O Pulo do Gato - Esse Gato Ninguém Segura, que conta a história de principais programas jornalísticos de rádio, comandado por Zé Paulo, como o locutor era carinhosamente chamado pelos amigos e ouvintes.

Nos últimos anos, a saúde do jornalista vinha inspirando cuidados por conta de problemas no pulmão. No começo de 2018, ele chegou a ficar afastado do trabalho para tratamento um enfisema pulmonar. Por motivos saúde, ele apresentava o programa em um estúdio particular, em sua casa, há mais de um ano. Ele tinha doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Ele deixa a mulher, Sueli Longue, e dois filhos, Paulo e César.

Por meio de nota, o Grupo Bandeirantes lamentou a morte do apresentador, que trabalhava na emissora de rádio e TV desde 1963. "Com uma voz firme, amplo conhecimento político-econômico, são-paulino fanático e um dos maiores formadores de opinião do Brasil, José Paulo tinha um coração gigante e um caráter ímpar. Com 57 anos de Rádio Bandeirantes, José Paulo de Andrade deixará um legado indiscutível, um vazio enorme e muitas saudades."


Nas redes sociais e em depoimentos na TV, amigos e personalidades lamentaram a morte do jornalista:

Rodrigo Bocardi, jornalista: "Em 1994, foi por meio dele que tive a primeira oportuidade de colocar a minha voz na rádio. Trabalhava na madrugada e o via chegar às 4h da madrugada na rádio para apresentar O Pulo do Gato."

Milton Neves, apresentador: "Luto no jornalismo, no microfone e no Pulo do Gato. Zé Paulo fez TV e tudo no rádio: narrou, foi repórter volante, comentarista e grande analista político. Obrigado por tudo, Zé Paulo!"

Gloria Vanique, jornalista: "Quando ainda morava no interior, lembro de acompanhar seus programas na rádio. Depois, tive o prazer de conviver com ele na TV Bandeirantes."

Eduardo Barão, radialista: "A maior voz do rádio se foi. Grande abraço, Zé! Minha singela homenagem a quem me acompanhou desde criança."

Álvaro José, comentarista esportivo: "Morreu José Paulo de Andrade e com ele se vai uma grande parte da história da Rádio Bandeirantes. Apresentador, comentarista, âncora por anos na rádio e agora ele está no caminho da luz."


PROGRAMA

O Pulo do gato é o Programa jornalístico que esteve mais tempo no ar sob comando do mesmo apresentador e na mesma emissora, Rádio Bandeirantes, ficando de 1973, ano de estreia, até 2019. Este ano ele se afastou para cuidar da saúde. José Paulo de Andrade acompanhou muitas mudanças no País e nos ouvintes, com quem manteve uma relação longeva. “Tenho muitos ouvintes fiéis. Já são quatro e, em alguns casos, até cinco gerações deles”, comentou o jornalista em conversa com o Portal da emissora. O programa, ia ao ar de segunda a sábado das 5h30 até 7h, trazendo as principais manchetes do dia, informações do trânsito, tempo, aeroportos, esportes, mercado financeiro e prestação de serviço em quadros como o “Boca no Trombone” sobre defesa do consumidor.

Para Zé Paulo, uma dos fatores que fez o programa continuar atual era a contribuição do ouvinte. “Não dá para deixar de falar das coisas que estão na boca do povo. Tem que acompanhar isso, estar atualizado, esse é o segredo.”

Segundo o jornalista, o ouvinte até participa mais atualmente, muito devido a novas ferramentas – como redes sociais e WhatsApp – que aproximam a audiência do apresentador. “Eles ajudam muito o programa. A gente coloca no ar informações do ouvinte sobre acidentes, buracos nas vias, o que ele quiser falar. É um ganho. E tem que ser assim, porque a concorrência é boa no horário, e sempre estamos entre os primeiros [na audiência], e é bom que seja assim, é algo que motiva”, conta.

Momento marcante

Nesses quase 50 anos, na trajetória de O Pulo do Gato, Zé Paulo cita entre um dos momentos marcantes: “Considero como marco o Código de Defesa do Consumidor, que entrou em vigor em 1991. Participamos, antes da aprovação, de debates sobre a importância de termos um instrumento de defesa como esse. Tenho muito orgulho de ter me engajado em sua aprovação.”

José Paulo de Andrade no início da carreira (Foto: arquivo pessoal)

Quando o programa começou, em pleno regime militar, Zé Paulo lembra que essa participação era mais comedida. “Antigamente o ouvinte era mais passível, até porque era época da ditadura em seu período mais duro, do governo Médici”, lembra. “Além disso, as pessoas tinham que entrar em contato por telefone, o que era mais difícil, ou então por cartas. O curioso é que até hoje eu recebo cartas de ouvintes.”

Ditadura

Outra lembrança que vem à tona é mais difícil, sobre os tempos nos quais o programa foi ao ar pela primeira vez e a convivência com a censura que foi estabelecida durante a ditadura militar. “Época difícil”, define Zé Paulo. “Eu me lembro daquele surto de meningite que o governo proibiu que falássemos sobre [nos anos 70]; isso impediu que providências fossem tomadas. Nós andávamos em uma corda bamba. A qualquer momento poderíamos ser punidos.”
O jornalista conta ainda de uma ocasião em que a rádio foi tirada do ar, na década de 1980, por ter noticiado uma greve, por exemplo.

Livro

Para conhecer mais da história do programa, bem como acontecimentos de seus bastidores ao longo desses anos, o jornalista Claudio Junqueira, que integrou a equipe de Zé Paulo, escreveu o livro Esse Gato Ninguém Segura, da editora Letras do Pensamento, que já está à venda.

“Nessa época eu era apresentador de telejornal também. Eu lembro que tinha que ficar esperando o censor do governo checar a matéria antes de ir para o ar”, recorda. “A gente aprendia a se controlar, mas o importante era não ter autocensura, isso sim era o pior de tudo.”

Uma das curiosidades do programa é justamente sobre seu nome. Na época em que foi ao ar pela primeira vez, a atração concorria com programas voltados para a música sertaneja. Seu conteúdo focado na informação e serviços atraiu a audiência. Foi o "pulo do gato", expressão popular que remete ao sucesso de algo, na concorrência.

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