Mexendo nos meus alfarrábios, esquecidos pelo tempo, deparei-me com uma foto de um casal, junto com um manuscrito sem muita lógica. Eram frases alinhavadas, mas desconectadas. Lembro que nesta época, era aluno interno num colégio. Apesar das alterações havidas com o passar dos tempos, porque geralmente a grafia muda, um pouco mais acentuadamente, um pouco menos, mas as características gerais continuam ali e assim reconheci ter sido escrito por mim.
No meio daquele amontoado de frases, uma me chamou a atenção, digo, estava circundada em grafite, ou seja, a lápis, já quase inelegível e dizia: Se a morte tivesse sentimento não matava um casal que se ama. Confesso não sei a quem atribuí-la e o porquê dessa frase. O manuscrito é datado de 1966 e imagino que a frase não se referia à morte simplesmente final de vida, mas a um amor do passado.
Falar sobre amores do passado não é uma tarefa fluida, pois os amores vividos pertencem a cada protagonista e, quando se vão, suas memórias esquecidas pelo tempo não devem ser reviradas. Não perturbemos os amores vividos, deixemo-los ali, resguardados pelo tempo. Mas quanto àquele casal da foto, perdoe-me por trazê-lo aqui.
Quando nos referirmos a amores do passado, não queiram reviver aquelas emoções, trazê-las para o presente. Mera ilusão, impensada, pois os momentos felizes estão aqui no presente. Já o passado, é preciso deixá-lo em seu lugar. Águas paradas não movem moinhos.
Mas aquele amor do passado a que me refiro teve história. Para declinar a respeito parto daquele dia, “um belo dia de verão”, ou seja em um dos dias ensolarados do agreste caruaruense e como das várias manhãs de idas do casal a sua predileta fazenda – Santo Antônio.
No caminho, ao passar por aquele pedacinho de terra, um morrinho, aquela mulher da foto apontou pela janela da caminhonete Ford, que ele guiava, e disse: “Aquela terra ali é o Azevém.” Nesse instante, a voz dela embargou, com um nó na garganta. Hoje sem dúvida entendo que ali foi um pedacinho do céu daquele casal da foto.
Permitam-me um parêntese. O azevém é uma das principais espécies forrageiras de inverno, resistente às adversidades e muito utilizada na alimentação do gado leiteiro. Invasora de lavouras no inverno, caracteriza-se pela ocorrência em diferentes estágios de crescimento, o que dificulta seu controle.
Voltemos àquela casinha que até poderia ter inspirado a canção que bem retratou um amor do passado: “Você não se lembra da casinha pequenina, onde o nosso amor nasceu”. Não, essa não tinha um coqueiro do lado, mas a saudade daquele início de vida ficou plantada no coração do casal, que ali roçaram a terra, preparando-a, plantando e colhendo suas primeiras safras de feijão e milho, apesar do azevém para roçar.
Ficava essa casinha no cume de um morrinho, melhor dizendo, numa elevação do terreno e na parte de baixo um baixio chamado de Salgado, pois na realidade brotava do interior da terra uma espécie de sal, daí porque esse nome. O tipo de terreno dificultava o cultivo da terra. Eita vida difícil naquela terrinha, mas era naquele momento de vida do casal seu pedacinho abençoado do céu. Vieram as primeiras safras e tudo começa a mudar. A produção a ser levada ao comércio, primeiro na feira na cidade mais próxima, Agrestina, e finalmente, na de Caruaru.
A casa de porta e janela, com o degrau da porta da frente parecido com um caixote de cimento. Apenas uma pequenina sala, em seguida, o quarto do casal e mais um pequeno cômodo, e então, a cozinha com o fogão a lenha, ao lado deste, um pilão. Nele, ela “pisava” o café que consumiam e com os anos, da mesma cor do café ele ficou. A porta de trás dava para o imenso azevém e ali viveu-se um amor do passado.
Logo na primeira semana de casados, já iam os dois de enxada nos ombros adentrando terreiro afora, a terra arando, ao sol escaldante. Para aliviar o calor, a água da moringa, tomada numa só caneca. O descansar debaixo de uma das poucas árvores pequenas existentes naquele pedaço de terra. À noitinha, o sossego da casa. E na pisadinha do casal, semeava-se a terra do Azevém e iam progredindo, a ponto de se desfazer das terras do Azevém e adquirir sua primeira fazenda.
Somente um amor verdadeiro é capaz de resistir às intempéries da vida, e assim o Azevém transformou-se em gado de corte e de leite, em algodão, milho e feijão. Logo a bonança chegou e o casal foi
morar em Caruaru, deixando a administração da fazenda com um sobrinho dela chamado João Nunes e como grande empreendedor partia para o ramo de transporte coletivo. Mas então, aos 56 anos, depois de três décadas em Caruaru, falecia a guerreira daquele amor do passado.
*Agildo Galdino - Agildo Galdino Ferreira. Escritor, memorista, contista preside a Academia de Cultura, Ciências e Letras e a União Brasileira de Escritores – UBE-Núcleo Caruaru. Membro do Lions Clube Caruaru.

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