O poeta todo vestido de branco. Um homem comprometido com a liberdade e com o amor. Um ser pertencente a um lugar da Natureza e à natureza desse lugar. Um opositor das tiranias e dos assombros ditatoriais. A maior referência poética do Amazonas. Um escritor premiado e reconhecido nacional e internacionalmente. Palavras não faltam para definir, segundo amigos, Thiago de Mello, que às 6h50 desta sexta-feira (14) partiu para o lugar dos encantados da floresta.
O velório de Thiago de Mello está aberto ao público no Centro Cultural Palácio Rio Negro (Av. Sete de Setembro, no centro de Manaus), mas com acesso restrito por causa da pandemia da Covid-19. O enterro será neste sábado (15), no Cemitério São João Batista, às 10 horas.
Nascido no dia 30 de março de 1926, em Porantim do Bom Socorro, no município de Barreirinha (AM), município no Baixo Rio Amazonas, Thiago de Mello é considerado um dos maiores nomes da literatura no Brasil e no mundo. Ainda na infância, mudou-se com a família para Manaus. Em 1946, ingressou na Faculdade Nacional de Medicina no Rio de Janeiro, mas não concluiu o curso para seguir a carreira literária.
Thiago de Mello é autor de obras como Silêncio e Palavra (1951), Manaus, Amor e Memória (1984) e Mormaço na Floresta (1981). Além de Os Estatutos dos Homens (1977), um contundente manifesto literário de combate à ditadura civil-militar no Brasil. Fica decretado que agora vale a verdade/ que agora vale a vida/ e que de mãos dadas trabalharemos todos pela vida verdadeira, cravou. O poeta amazonense foi perseguido pelo governo dos militares e teve de se exilar durante dez anos na cidade de Santiago, no Chile.
Foi no país vizinho que Thiago de Mello manteve uma frutífera amizade com Pablo Neruda (1904-1973). Com o amigo chileno, aprendeu que precisava se livrar do hermetismo, tornando sua poesia mais acessível, mas sem perder a qualidade poética.
“Pablo Neruda, o mais importante poeta do Chile, leu poemas meus no jornal Correio da Manhã. O que mais me chamava a atenção era o seu respeito e interesse pelos poetas moços que encontrava na América do Sul”, respondeu, sobre o início da amizade.
A mulher do poeta afirmou, por ocasião da homenagem na 34ª Bienal, que “Thiago é a síntese de tudo que viveu, dos lugares por onde passou, das pessoas por quem se encantou, das dores por que passou”.
As andanças do poeta incluem passagens pela Bolívia (1958) e pelo Chile (1959, como adido cultural). Exilou-se também na Alemanha (1974) e experienciou a vida na França e em Portugal (1975) antes de retornar ao berço amazônico original. Das visitas à Freguesia do Andirá ou à Barreirinha (na famosa casa projetada pelo arquiteto Lúcio Costa) aos encontros com os colegas poetas no Clube da Madrugada, na Zona Franca de Manaus, Thiago de Mello construiu para si e para o mundo uma história plena de vivências e ensinamentos, muitas delas eternizadas em poesias magistrais.
Escrito entre os anos de 1962, no Estado do Amazonas, e 1963, em Santiago, no Chile, o poema Madrugada Camponesa só veio a ser publicada em livro três anos depois. O Brasil e a América Latina já viviam momentos sombrios, arrancados da normalidade democrática. O verso que impulsionou a Bienal de São Paulo “reflete a ânsia pela transformação que, no contexto em que se vivia na época, era estimulada pelo debate político livre e de amplidão utópica”, conforme escreveu Jotabê Medeiros. “Subitamente pareceu ter sido feito sob medida para aquele tempo.”
Faz escuro mas eu canto
Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.
Thiago de Mello (1926-2022)
Foi por causa desses inspirados versos que outros artistas começaram a produzir obras de esperança para romper com a violência do Estado. Já em 1966, a cantora Nara Leão gravou o álbum Manhã de liberdade (Philips), que fechava com a canção “Faz escuro mas eu canto”, composta por Thiago de Mello e o sambista Monsueto Menezes. Membro da Academia Amazonense de Letras, o poeta amazonense recebeu o destaque de Personalidade Literária do Prêmio Jabuti, em 2018.
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