28/03/22

Os Engenheiros do Niilismo. por Fred Santiago*


A banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, formada em 1985, possuiu uma peculiaridade que a diferenciou das demais bandas do BRrock dos anos oitenta. Trata-se de uma certa pegada niilista, presente em boa parte de suas composições. Diferentemente de outras bandas daquele período, tais como Ira, Legião Urbana, Titãs, etc, os Engenheiros não expressaram em suas letras aquele engajamento político, muito comum no rock brazuca do contexto pós-ditadura. Pelo contrário, os garotos de Porto Alegre apontavam em outra direção, que tinha como horizonte uma dose elevadíssima de crise existencial, de niilismo, no sentido nietzschiano da palavra. Talvez, o exemplo mais contundente dessa características dos Engenheiros seja a música Fé Nenhuma. Vejamos alguns trechos: “Não levo fé nenhuma em nada”, “Não acredito no teu jeito revolucionário”, “Você quer me pôr no agito, no movimento estudantil, mas eu não acredito no futuro do Brasil”. Ou seja, para os Engenheiros não há perspectiva de futuro no horizonte; Nada faz sentido.

A perspectiva niilista também surge em Infinita Highway: “Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir. Não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver. Sem motivos, nem objetivos; Estamos vivos e isto é tudo”. Novamente, é a ausência de sentido que se faz presente.

Em Toda Forma de Poder, temos outra demonstração do niilismo. Uma análise mais minuciosa da estrutura argumentativa presente na canção nos permite compreender que o termo poder, presente no título da música, tem o significado de ideologia, no sentido de um conjunto de ideias, que norteia uma visão de mundo (ideologia, socialista, liberal, etc). Assim, para a banda gaúcha, toda forma de ideologia seria uma forma de morrer por nada. A palavra nada, nesse contexto, indica ausência de sentido. Ou seja, nenhuma forma de ideologia faz sentido. Por isso, a canção já inicia afirmando que “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”, e, logo em seguida, cita-se os nomes de dois líderes da esquerda e da direita, Fidel e Pinochet. Novamente, o termo nada surge para expressar a falta de sentido nas perspectivas ideológicas, à esquerda e à direita.

Cabe ressaltar que, nas suas origens etimológicas o termo niilismo vem do latin nihil, que significa nada. Aliás, o tema do nada é bastante explorado no existencialismo sartreano. Viria do filósofo francês  alguma influência para a crise existencial tematizada nas canções da banda gaúcha? É possível e até provável. Porém, no pensamento de Sartre o engajamento político, por influência do marxismo é algo muito presente. Já nos Engenheiros, a perspectiva niilista não permite qualquer tipo de engajamento político. Por essa razão, insisto, os rockeiros de Porto Alegre estavam muito mais para Nietzsche do que para o autor de O Ser e o Nada.

Por tudo que foi dito, fica nítido o aspecto niilista, que diferencia os Engenheiros do Hawaii da grande maioria das bandas de rock brasileiras da década de oitenta. Obviamente que, uma infinidade de outros temas são abordados nas letras da banda gaúcha. No entanto, é clara a predominância da crise existencial, expressa em boa parte das letras de suas canções.




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