O brasileiro, principalmente o nordestino, é religioso por natureza. É impressionante a quantidade de igrejas que existe por aí afora. Outro dia, andando pelas ruas do Recife, contei doze em menos de uma hora e meia de caminhada. Lá pelas tantas, já um tanto cansado, parei em frente a uma delas: uma igreja católica, sem ostentação nenhuma, ali pelos arredores do Derby; a igreja onde morou Dom Helder Camara.
Fiz o pelo sinal, me benzi, sentei no banco de uma pracinha e comecei a refletir, lembrando de quando eu era menino e a hora da refeição era sagrada; ninguém comia antes de rezar, agradecendo a Deus pelo alimento posto à mesa, por mais escasso que fosse.
“O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas…”
Eu, lá com meus botões, entre o silêncio e a vontade de comer, me perguntava: mas que ofensas, se somos nós os ofendidos todos os dias pela falta de pão, pela falta de trabalho, pela incivilidade do venha nós a vosso reino, e seja feita sempre a vontade de todos os poderosos que reinam aqui na terra?
A fé é que continua movendo os morros, as favelas, as periferias, as comunidades carentes deste país que já não é mais aquela pátria-mãe tão gentil, citada nos versos de Ozório Duque Estrada para o Hino Nacional.
Nunca gostei de falar sobre religião, acho um assunto meio prolixo, e todo pastor, padre, discípulo, servo ou seja lá o que for tem uma ideia fixa sobre a salvação: a de que a fé de um salva, a de outro não.
Mas enfim, o que me assusta é a invasão das igrejas na política brasileira, que, em nome de Deus, está levando o Brasil para o obscurantismo, para um fanatismo sombrio que nos remete aos tempos do cala-boca, do calabouço, do calafrio.
*Maciel Melo é cantor e compositor.

Nenhum comentário:
Postar um comentário