A Paixão de Cristo 2022, em Nova Jerusalém, é a “temporada das temporadas”. Essa designação foi apresentada pela atriz Marina Pacheco, em uma entrevista de rádio, e reflete bem a emoção do retorno do espetáculo, após dois anos sem a encenação por causa da pandemia da covid-19. Driblando os riscos de fechar, a cidade-teatro ressurge vívida e dinâmica, com uma encenação marcante.
A maior história de todos os tempos ganha vida em uma área de 100 mil metros quadrados. O município de Brejo da Madre de Deus parece se transformar em um ‘portal’ para a Jerusalém do primeiro século, através do qual é possível rever os últimos dias de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nesta terra.
Além dos textos bíblicos, o espetáculo proporciona, de forma implícita, um diálogo com grandes obras artísticas baseadas na história do Messias. A implementação da Ceia do Senhor é uma das cenas em que esse fenômeno é mais evidente. Em dado momento, as personagens parecem se ‘transformar’ no afresco da Última Ceia, uma das mais emblemáticas obras do renascentista Leonardo Da Vinci. Na perícope do Evangelho, o momento retrata a predição de Jesus acerca do traidor.
Outra cena que parece ser transportada do mundo artístico para o palco é quando o Senhor é retirado da cruz. A encenação dialoga com a tela ‘Deposição de Cristo’, pintada no início do século XVII por Caravaggio. Assim, a intensidade dramática do quadro é reproduzida por meio do jogo de luzes e cores da produção da peça, e a técnica barroca do ‘chiaroscuro’ adquire três dimensões na imagem teatral.
Também é impossível não correlacionar a passagem do sofrimento de Maria com a morte do Senhor e a escultura Pietà. Embora essa seja uma imagem recorrente em pinturas e esculturas desde a época medieval, a versão mais conhecida é a de Michelangelo, produzida em 1499. Christine Fernandes e Gabriel Braga Nunes – que interpretam Maria e Jesus, respectivamente – vivificam a obra esculpida em mármore que se mantém exposta na Basílica de São Pedro, cidade do Vaticano.
Eventos como esses têm tudo a ver com a fé cristã. Historicamente, podemos dizer que o Cristianismo é uma religião ‘para os olhos’. Embora a tradição judaica tenha se preocupado com as imagens, sob risco de idolatria, os primeiros cristãos já utilizavam-nas como elementos simbólicos, certamente devido à influência greco-romana. Ainda hoje, parece-me que todos temos algo de São Tomé: em certa medida, nossa fé depende da vista.
Neste sentido, a atuação de Braga Nunes como Jesus revela um Cristo singularizado, solitário, que cultiva a vida interior. Em um primeiro olhar, essa característica pode ser confundida com debilidade ou palidez; contudo, analisando bem, percebemos uma concepção clássica. Está menos para o Jesus do filme do Mel Gibson e mais para o Cristo no deserto, do quadro de Ivan Kramskoy. Silencioso. Sereno. Manso. Aquele de quem Pilatos diz: “Ecce homo”. E que Ele mesmo diz de si: “Ego sum via, veritas et vita”. Essa concepção traz em si a mensagem que olhar para Cristo é seguir os Seus passos, até que Ele nos transforme em obra de arte de Deus, expressando eterno amor.



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