Do Recife as famílias chegavam com muitos dias de antecedência. Algumas alugavam casas para a temporada toda. Os trens viajavam lotados. Era tempo de férias. A estudantada comparecia unânime. As moças ficavam num alvoroço sem par. Nem casa de maribondos, mexida. Surgiam namoros à beça. De todo tipo. E casamentos também, em consequência. Era um São João de arromba. O mês inteiro de alegria. Já no dia 12 as danças começavam animadíssimas. Santo Antônio era mais homenageado. Guardava-se seu dia. A folhinha era encarnada. E trazia uma cruz de lado, característica. O santo casamenteiro impunha-se. Faziam-se adivinhações, brincadeiras típicas, regionais, ingênuas. Liam-se livros de sorte. Buena-dicha. Manjericão tinha gasto pelas moças desejosas de casar. Arruda. Superstições várias.
A véspera de São João, porém, é que era o grande dia. Movimento invulgar no comércio. A feira era um mar de fartura. Milho que era um castigo. E gente, gente, gente. Da cidade, dos arredores, de Recife, gente muita. O povo da capital ficava besta com os preços. Mão de milho, do melhor, quatro mil reis. Cada espiga baita. Regateando, arranjava-se por três e quinhentos. Sendo duas, um cento, adquiria-se tudo por seis mangos. Boquiabertos, ficavam os forasteiros."Não é possível!” Era. E ainda davam "quebra". Um "agrado". Cinco, seis espigas. Em fim de feira havia matuto doido para regressar, que abandonava restos de mercadorias e pipocava no mundo, caçuás vazios, deixando a pobreza fartar-se à vontade, de graça. Tempão bom!
Bem, de novo à vaca fria. Os fogueteiros não descansavam, despachando a freguesia. Vendiam tudo, toda a produção, aos pacotes e balaios. Com dez mil reis se adquiria um sortimento bem regular. Qualquer pai de família contentava os filhos. Podia dar uma festa pirotécnica no lar. Era um céu aberto.
Mal o sol descambava por trás do Bom Jesus a inana começava. Preparativos de fogueiras. Últimos retoques em vestidos. Canjicadas nas mesas. Milhos cozidos, pamonhas, bolos, à vista de todos, para todos, sem tacanharia. Aperitivos. Garotinhos soltando diabinhos, estrelinhas, traques, rodinhas presas em taliscas de madeiras moles. Cheiro de pólvora. Animação. Costureiras vexadas.
Noite Fechada. Famílias passando, passando, passando. Um estranho perguntava: "Para onde vai esse povo todo?” Um da terra informava e convidava: "Para o São João do Areal, vamos?” A rua, o centro da cidade, ia ficando deserto, abandonado. Em compensação os arredores se tornavam entulhados de gente sambando, pulando coco, marcando quadrilha, cantando, comendo, bebendo, namorando, dando “embigadas” sensuais, vivendo. VIVENDO, com todas as letras maiúsculas. Pois não!
E não era só no areal, não. Na beira do rio, próximo ao atual Matadouro, os folguedos eram concorridíssimos. No paredão o "pessoá do coroné" sambava pra se acabar. No Salgado, Iôiô Nunes dava um festão de abalar meio mundo. Comia-se de ficar entalado, lá. E bebia-se que só Pedro Renovato. Iôiô Nunes era gordão, franco, tipo bonacheirão, sabia viver. Irradiava saúde por todos os poros. Não tomava parte nas danças, mas botava todo visitante no fogo. A alegria era contagiante. De quando em quando um balão gigantesco distanciava-se pela amplidão do espaço. Cabeças erguidas para o alto. Alegria. “Viva Senhor São João” gritaria estridente.”VIVAAAAAAA!”
Na rua Preta... ah, a rua Preta! Lá o São João era pesado, forte, meio perigoso, de espantar, como aquelas histórias do "Sem Fim". O côco, no chão batido, durava toda a noite. As fogueiras ficavam testa-a-testa, umas por cima das outras, desafiantes. Os moradores se dividiam em dois "batalhões". Os Pereira vinham acumulando fogos três meses antes. Cada bomba, cada foguete, cada quebra-canela, era de espantar. Antônio Menino soltava buscapé gigante,de canudo de bambu do mais grosso. O desacostumado comia brocha para atravessar aquela artéria. Os quebra-canelas pareciam laçadeiras de máquina. Iam e vinham. Iam e vinham, ininterruptos. Costurando. Bombas transvalianas ensurdeciam ouvidos desprevenidos de minuto a minuto. Até bacamarte saía em cena. Bacamartes que, ainda apolíticos, saudavam o Senhor São João, de madrugada, nas pedras do monte. Muita fogueira se desfazia sob tiro certeiro e bem aplicado. Havia "valentes" que tentavam arrancar buscapé vivo, violentamente faiscante, chispando, e devolvê-lo para o lado de onde partira, o que as vezes conseguiam. Soltavam-se gritos. O buscapé corria, voava, fogoso como potro selvagem. Portas se fechavam de vez. Correrias gozadas. Moças trêmulas. Namorados se aproveitavam, perdiam a timidez. O buscapé amedrontando. Instantes de confusão. Beijos roubados fugazmente. Olhares de promessas. Beliscões amorosos. Intrusos. Separações bruscas. Amigos da onça. Novos pipocos na rua. Rivalidade festiva que traziam à lembrança políticos exaltados em vésperas de eleições. Cada qual querendo superar o outro. E o côco fervendo sobre o chão socado, “Eita São João danado de bom!”
Era mesmo. O São João em Caruaru era bom de verdade. Havia entusiasmo, vibração, emoção sincera. Festejavam-no de corpo e alma. Orgulhosamente. Tinha fama. Não precisava de propaganda, nem de elogios pagos em jornais. Era absoluto. Espécie de ditador, se houvesse ditador querido de todos. Deixava todo mundo saudoso, querendo mais, mais, mais... São João em Caruaru, como era expressivo! Nos ouvidos, retidas, ressonando, ficavam as cantigas populares.
"A lavadeira bebeu água
Bebeu tanto que secou"
(NELSON BARBALHO - Crônicas do Passado – Jornal de Caruaru -Junho 1949)
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário