23/07/22

A sexualidade musical no sertão Gonzagueano por José Urbano*

Nas minhas visitas ao acervo brilhante do Rei do Baião, observo que um tema quase nunca falado é sobre a sensualidade refinada que LG imprimiu na sua musicalidade.  Fico imaginando a vivência que o jovem rapaz de menos de 18 anos, nascido em Exu e longe de casa,  na capital cearense, vestido numa farda militar, com suas feições bonitas e morenas, correndo a vista sobre as belas garotas de Fortaleza, naquela década de 30. E na praia, no final de semana, mulheres discretamente usando volumosos trajes de banho, inimagináveis no sertão pernambucano, elas limitadas a banhos de açude, às escondidas.

Certamente as cenas mexiam no imaginário do futuro Rei do Baião.  E ele lançou mão do tema sexualidade na grandiosa obra.

Se não, vejamos: no Lp SÃO JOÃO QUENTE, de 1971, composição de Severino Ramos, tornou-se muito popular a música Ovo de Codorna, um afrodisíaco natural que faz parte da culinária nordestina. Nos versos, diz: 

eu tô madurão

passei da flor da idade

mas ainda tenho

alguma mocidade

vou cuidar de mim

pra não acontecer

vou comprar ovo de codorna pra comer!


Em 1976, o rei mudou de ideia, inclusive deu título ao Lp CAPIM NOVO, e na composição de José Clementino, sentenciou: 

nem ovo de codorna

catuaba ou tiborna

não tem jeito, não...

o doutor disse que o problema é psicológico

não é nada fisiológico

ele até me garantiu....

certo mesmo é o ditado do povo

pra cavalo véio, o remédio é capim novo

(a juventude feminina em destaque).  

Repetiu-se o sucesso! 

No ano seguinte, 1977, no disco CHÁ CUTUBA, abre o Lp a composição alegre do gigante cearense Humberto Teixeira, que discorre nos versos: Sandoval, que chá é esse que tu bebe? Aí entra a receita: de raiz de cabriúva e catolé Com caroba, piquí doce e macaúba é um chá que tem um tal pinhão de cheiro a mezinha milagrosa que curou Tomé Ribeiro!

Na narrativa, o Ribeiro estava desfalecido num caixão rumo ao cemitério, mas com o efeito do chá / saiu despinguelado, perseguindo uma mulé. Efeito garantido, porém por um preço muito alto. Escreveu Humberto: 

por um litro bem medido em cabacinha

dei a casa, dois garrotes e um quintal cheio de galinhas

valeu o sacrifício, que o diga Nazaré

pra curar minha leseira, foi bastante uma culé.  

E finaliza de um jeito inusitado:

Pra lhe ser franco

eu bebo desse chá

mas num tolero chá

eu gosto é de mulé!  

Revelando seu carinho pelas belas mulheres brasileiras, Gonzaga descreveu as cenas que ele viu tantas vezes nas praias de Fortaleza ou Rio de Janeiro, em músicas como AQUILO BOM, do Severino Ramos, gravada em 1972. Gonzaga cantou: 

quando chega o domingo

vou correndo pro Leblon

Chego na praia

Tibungo com as meninas

chega a ser aquilo bom, aquilo bom

Maricota, Mariquita e Marion

(seriam irmãs ou parentes?)

Da parceria com o pernambucano João Silva, ambos foram a uma caminhada no calçadão de Copacabana, e num breve diálogo, surgiu DEIXA A TANGA VOAR, gravada em 1985.  Os versos são muito simplórios, mas caíram no gosto popular.

Zé matuto foi à praia

só pra ver como é que é

ficou ruim da bola, 

de ver tantas rabicholas 

nas cadeiras das muié

ora bolas, jogue fora a rabichola

e deixe a tanga voar!  

Só um artista que tinha a grandeza dos melhores compositores, um olhar social que uniu o espaço rural e urbano -  sertão e capital - poderia transitar com tanta elegância e poesia num tema delicado como a sensualidade feminina e a sexualidade humana. Sem falar no fetiche  por  Karolina com K, tema para outro artigo. Os sucessos se eternizaram, e com eles louvamos a eternidade de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

O artigo não expressa necessariamente a opinião deste Blog.

Um comentário:

Malude Maciel disse...

Gostei de do rumo que vc deu aos comentários. Interessante, inteligente.
Legal, amigo!