Nas minhas visitas ao acervo brilhante do Rei do Baião, observo que um tema quase nunca falado é sobre a sensualidade refinada que LG imprimiu na sua musicalidade. Fico imaginando a vivência que o jovem rapaz de menos de 18 anos, nascido em Exu e longe de casa, na capital cearense, vestido numa farda militar, com suas feições bonitas e morenas, correndo a vista sobre as belas garotas de Fortaleza, naquela década de 30. E na praia, no final de semana, mulheres discretamente usando volumosos trajes de banho, inimagináveis no sertão pernambucano, elas limitadas a banhos de açude, às escondidas.
Certamente as cenas mexiam no imaginário do futuro Rei do Baião. E ele lançou mão do tema sexualidade na grandiosa obra.
Se não, vejamos: no Lp SÃO JOÃO QUENTE, de 1971, composição de Severino Ramos, tornou-se muito popular a música Ovo de Codorna, um afrodisíaco natural que faz parte da culinária nordestina. Nos versos, diz:
eu tô madurão
passei da flor da idade
mas ainda tenho
alguma mocidade
vou cuidar de mim
pra não acontecer
vou comprar ovo de codorna pra comer!
Em 1976, o rei mudou de ideia, inclusive deu título ao Lp CAPIM NOVO, e na composição de José Clementino, sentenciou:
nem ovo de codorna
catuaba ou tiborna
não tem jeito, não...
o doutor disse que o problema é psicológico
não é nada fisiológico
ele até me garantiu....
certo mesmo é o ditado do povo
pra cavalo véio, o remédio é capim novo
(a juventude feminina em destaque).
Repetiu-se o sucesso!
No ano seguinte, 1977, no disco CHÁ CUTUBA, abre o Lp a composição alegre do gigante cearense Humberto Teixeira, que discorre nos versos: Sandoval, que chá é esse que tu bebe? Aí entra a receita: de raiz de cabriúva e catolé Com caroba, piquí doce e macaúba é um chá que tem um tal pinhão de cheiro a mezinha milagrosa que curou Tomé Ribeiro!
Na narrativa, o Ribeiro estava desfalecido num caixão rumo ao cemitério, mas com o efeito do chá / saiu despinguelado, perseguindo uma mulé. Efeito garantido, porém por um preço muito alto. Escreveu Humberto:
por um litro bem medido em cabacinha
dei a casa, dois garrotes e um quintal cheio de galinhas
valeu o sacrifício, que o diga Nazaré
pra curar minha leseira, foi bastante uma culé.
E finaliza de um jeito inusitado:
Pra lhe ser franco
eu bebo desse chá
mas num tolero chá
eu gosto é de mulé!
Revelando seu carinho pelas belas mulheres brasileiras, Gonzaga descreveu as cenas que ele viu tantas vezes nas praias de Fortaleza ou Rio de Janeiro, em músicas como AQUILO BOM, do Severino Ramos, gravada em 1972. Gonzaga cantou:
quando chega o domingo
vou correndo pro Leblon
Chego na praia
Tibungo com as meninas
chega a ser aquilo bom, aquilo bom
Maricota, Mariquita e Marion
(seriam irmãs ou parentes?)
Da parceria com o pernambucano João Silva, ambos foram a uma caminhada no calçadão de Copacabana, e num breve diálogo, surgiu DEIXA A TANGA VOAR, gravada em 1985. Os versos são muito simplórios, mas caíram no gosto popular.
Zé matuto foi à praia
só pra ver como é que é
ficou ruim da bola,
de ver tantas rabicholas
nas cadeiras das muié
ora bolas, jogue fora a rabichola
e deixe a tanga voar!
Só um artista que tinha a grandeza dos melhores compositores, um olhar social que uniu o espaço rural e urbano - sertão e capital - poderia transitar com tanta elegância e poesia num tema delicado como a sensualidade feminina e a sexualidade humana. Sem falar no fetiche por Karolina com K, tema para outro artigo. Os sucessos se eternizaram, e com eles louvamos a eternidade de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
O artigo não expressa necessariamente a opinião deste Blog.

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Um comentário:
Gostei de do rumo que vc deu aos comentários. Interessante, inteligente.
Legal, amigo!
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