22/07/22

Comentando sobre Cultura Popular e o São João 2022 por Anderson do Pife*

Bem, enquanto a efetividade de participação dos Grupos de Cultura Popular no São João 2022, podemos dizer que não foi de fato, um momento de inclusão. 

Tivemos uma grande quantidade de grupos presente em todos os Polos, com exceção do Polo Luiz Gonzaga, o que chamam insistentemente de, "Palco Principal", (o que já não é novidade na cidade e em grande parte dos eventos culturais espalhados pelo estado de Pernambuco).

Quanto a  rotatividade de apresentações dos grupos de Cultura Popular, também podemos dizer que se deu de forma democrática, pois, segundo acompanhamos, houveram de fato, apresentações de grupos de diversas linguagens do segmento da Cultura Popular, mesclando as apresentações artísticas do evento em sua totalidade de forma, digamos, justa e também com a garantia de uma quantidade mínima de três apresentações por grupo, durante o evento, sendo esses pleitos atendidos através das discussões conjuntas entre  a gestão municipal e a sociedade civil mediante as reuniões com o Conselho Municipal de Política Cultural. 

Houve também o acolhimento das Casas de Cultura que estão no Pátio da Antiga  Estação Ferroviária, as quais foram colocadas em vagões que receberam o nome de "Comboio da Cultura", o que trouxe um alinhamento com o projeto o qual foi apresentado aos fazedores de cultura que desenvolvem atividades nas dependências do prédio da Antiga Estação Ferroviária desde o ano de 2013, (o que é uma possível temática a ser abordada em um artigo outro), que se manifestam a partir das referidas instituições: Casa do Pife, Centro de Prática e Pesquisa N'Golo de Capoeira Angola, Casa do Boi, Casa do Cordel, Casa dos Artistas e o Mamusebá.  

Agora, vamos ao ponto chave, ok? 

Os Grupos de Cultura Popular assim como todos os artistas da cidade para estarem artisticamente no São João de Caruaru, obviamente, constituem uma série de gastos que vão desde a composição do figurino, manutenção de instrumentos musicais (no caso de grupos musicais, instrumentos esses que estavam sem reparo a mais de dois anos, tendo em vista a Pandemia da Covid 19 e que provavelmente foi uma dor de cabeça para mais de 90% dos responsáveis pelos referidos grupos), ensaios os quais geram boa parte dos custos de todo e qualquer grupo artístico em suas diversas linguagens e que geralmente não são percebidos enquanto parte do processo, de montagem de todo e qualquer show, espetáculo ou apresentação cultural (já que é o ensaio o que viabiliza a mínima possibilidade de uma entrega ao menos digna da arte desses fazedores de Cultura), sem contar que  o processo segundo a lógica da produção cultural e artística é composto de pré produção, produção e pós produção). 

Enfim, para não ser muito longo em relação a tantas fragilidades que cercam essa classe ante sua inventividade e fazer, o preço pago pelo deslocamento de cada um dos grupos e artistas de suas casas para os referidos Polos espalhados pelo São João, que estão distribuídos desde o centro aos demais distritos que compõem a Zona Rural da cidade, (o que não é definitivamente barato, pois além da gasolina estar extremamente cara, poucos são os grupos e artistas que possuem transporte particular), também é parte a ser pensada. 

Sendo assim, a grande problemática diante da reflexão é que de fato, enquanto o cachê for interpretado simplesmente como o preço do serviço (produto) prestado no dia da apresentação (e que não é errado não, porém não é exatamente o que na prática é), teremos um déficit na relação do fazer artístico caruaruense, assim como em sua continuidade, principalmente no âmbito dos fazeres advindos da Cultura Popular. 

Logo, talvez estejamos diante da necessidade de introduzir um olhar outro sob os textos que compõem a estrutura do nosso tão sonhado edital, o qual por si só já é um grande avanço para a democratização do acesso ao evento, porém, como tudo nessa vida, ele (o edital) também faz parte de um processo contínuo de possíveis melhoramentos, para que assim se alcance a possibilidade de um diálogo constante entre a arte, os artistas e as composições da gestão de Cultura de nossa cidade.

O artigo não expressa necessariamente a opinião deste Blog.

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