25/11/22

O banquete tropical de Raul Lody

Livro sobre etnoalimentação celebra os 50 anos de carreira na escrita de Lody e será lançado pela Cepe no sábado (26), em Casa Amarela

Para comemorar as cinco décadas como escritor, o pensador da comida e da alimentação Raul Lody lança Um Banquete Tropical: temas da etnoalimentação. A obra de 270 páginas, editada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), é uma coletânea de 78 artigos publicados em jornais e sites Brasil afora, encabeçadas por ilustrações especialmente realizadas pelo autor. O lançamento acontece no próximo sábado, 26 de novembro, às 10h30, na Mercearia Pará, em Casa Amarela. Durante o evento, haverá bate-papo com a empresária e pesquisadora gastronômica da Amazônia, Lourdes Barbosa. 

“Sentem-se à mesa, ou comam em pé nas ruas, nos aeroportos e lanchonetes de fast food, ou sentados sobre tapetes, mas sempre com Raul Lody. Jamais perderão o apetite, pois com ele o banquete é mais saborosamente prazeroso. Aproveitem essa delícia de livro”, convida a prefaciadora, Maria de Lourdes de Azevedo Barbosa, pesquisadora de gastronomia da Amazônia. 

A obra contempla diferentes olhares e interesses sobre a comida e a bebida no Brasil, considerado uma das maiores cozinhas do mundo, cujos sistemas alimentares são os mais diversos. A partir da escolha dos ingredientes, do fazer os pratos, das receitas, do servir, até levar à boca, Lody entrega de bandeja ao leitor/comensal um banquete de história, sociologia, economia, ecologia e diversidade cultural da comida brasileira. “Peguei textos com temas regionais e globais dos últimos 20 anos e fiz uma mistura dos pratos da casa, de rua, de festa e de religião”, comenta Lody. 

Apesar de sempre ir além do arroz com feijão, Lody nunca esquece da importância desse combo tão clássico que é, segundo ele, “uma espécie de símbolo heráldico da mesa brasileira”. O ato de comer, portanto, é global para Lody, no sentido de que  “come-se com o corpo inteiro''. “Inicialmente come-se com os olhos, depois se come com o olfato; come-se com o tato; e come-se, finalmente, com a boca, com o prazer de um sentido tão aguçado que remete a um sentimento”, revela o escritor, que é curador  da Fundação Pierre Verger, do Museu da Gastronomia Baiana do Senac Bahia, e da Fundação Gilberto Freyre. 

Do também sociólogo Gilberto Freyre, Lody degusta várias lições. Destaque para as dulcíssimas advindas da obra clássica Açúcar (1939). “O açúcar adoçou tantos aspectos da vida brasileira que não é possível separá-lo da civilização… Açúcar é um livro memorial e que traz um valor civilizador, como tão civilizador é o açúcar para o brasileiro e, em especial, para o nordestino — mais ainda para o pernambucano”, afirma o pesquisador, ressaltando sua matéria prima, a cana de açúcar, da qual se faz também o caldo de cana e a cachaça. Entre ingredientes e iguarias adocicadas e salgadas, Lody aguça identidades e símbolos também com bacalhau, quiabo, azeite, mandioca, dendê, rapadura,  jenipapo, mortadela, hot dog, sanduíche natural, pão com manteiga, milho, caldinho, água e cajuína.  

SOBRE O AUTOR


Quarto livro do antropólogo e pesquisador editado pela Cepe, Um Banquete Tropical: Temas da etnoalimentação chega depois de Doce Pernambuco: uma viagem pela memória  histórica e cultural da doçaria pernambucana (2019), Brasileirismos e conexões em Gilberto Freyre (2020), e de Comer com os olhos (2021). Este último assinado em parceria com o fotógrafo Jorge Sabino. Especialista em arte popular e artesanato, artes étnicas africanas e de matriz africana, e comida, alimentação, cultura e patrimônio, Lody já escreveu 118 livros, sendo 39 deles voltados para a gastronomia. Coordena, desde 1972, projetos com ênfase em etnoalimentação no Brasil, em países africanos, na península ibérica, na península itálica e no México. O carioca já foi vencedor do Gourmand World Cookbook Awards em 2006, 2008, 2010 e 2014, além de finalista do Prêmio Jabuti em 2016 e 2017 com os livros A virtude da gula (Senac São Paulo, 2015) e Águas de comer (Senac São Paulo, 2016).

TRECHOS DO LIVRO:

Certamente a comida tem vocação patrimonial de testemunho deslocado em muitos e diferentes movimentos, contudo sempre reconhecidos no ideal de lugar, de identidade tradicional.

No candomblé de matriz afro-baiana, a comida é sem dúvida a melhor linguagem na intermediação homem e orixá e homem e antepassado. As comidas também funcionam para manter o equilíbrio hierárquico, ético e moral do candomblé.

O produto mais geral, comum, nacional é a farinha, a farinha de mandioca de tantos tipos, nomes, texturas, cores, sabores e, principalmente, de tantos usos em receitas, cobrindo todo o nosso território.

Dispostos estrategicamente nas portas estão eles — os galetos — assando, gotejando gordura, dourando aos olhos dos passantes e dos admiradores, que ficam apreciando esse espetacular processo culinário… Comuns nessas portas, nas calçadas, cachorros vadios, da mais alta elite vira-lata, ficam olhando, vigiando, acompanhando o freguês, verdadeiro dono do galeto. Por isso, na tradição oral chama-se “televisão de cachorro”, faz os cachorros sonharem; não apenas os cachorros.

Serviço:

Lançamento do livro Um Banquete Tropical: Temas da etnoalimentação (Cepe Editora), de Raul Lody

Quando: 26 de novembro

Onde: Mercearia Pará (Rua Olímpio Tavares, 110 - Casa Amarela)

Horário: 10h30

Preço: R$ 60 (livro impresso); R$ 24 (e-book)

 

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