13/12/22

O TOPÔNIMO CARUARU ORIGEM DO ÚLTIMO QUARTO DO SÉCULO XVII Hélio Fernando de Vasconcelos Florêncio

Há diversas hipóteses para a origem do nome Caruaru, uma delas é que o nome Caruaru seria uma junção oriunda do dialeto dos índios cariris, habitantes da região no século XVI em plena época do desbravamento, das palavras "Caru", equivalente a alimento e "aru aru" significando abundância, portanto Caruaru significaria “alimento farto”, “terra da fartura”. No final do último quarto do século XVII, segundo a tradição, Caruaru era uma fazenda de gado, ocasião que teria surgido uma moléstia cujos sintomas eram diarreia abundante, fraqueza e paralisia das pernas do gado vacum, causando, por fim, a morte dos animais, acometendo primeiramente aos bezerros e depois ao gado adulto. 

Essa moléstia, teria dizimado totalmente a fazenda e, por esse motivo, abandonada por seu proprietário. Os habitantes das cercanias, indígenas na sua grande maioria, assinalaram, daí por diante, aquele sítio com a denominação de “Caruaru”, que segundo o dicionarista corográfico Dr. Sebastião de Vasconcellos Galvão (1886 - 1912) é um vocábulo tupi, composto provavelmente pela junção de “Caruara” (que significaria um quebranto causado pelo feitiço; uma espécie de paralisia que ataca as pernas do gado vacum e diarreia) mais “U” (um verbo, significando comer, devorar, destruir). Assim o vocábulo “Caruaru” exprimiria “destruído pela diarreia”. 

O ÁLBUM REVISTA DE CARUARU de 1937, editado pelo jornalista José Carlos Florêncio, menciona essa hipótese como a provável origem do nome da cidade. Aliás, a mesma hipótese do livro FATOS HISTÓRICOS E PITORESCOS DE CARUARU de 1957, de Rosalino da Costa Lima e Zacarias Campelo, onde está mencionado que os índios se referiam a esse gado, com fraqueza e paralisia das pernas, imprestável para consumo, pela expressão “Caru Aru” significando “comida ruim”. Por outro lado, no livro TERRA DE CARUARU, o escritor João Condé apresenta outra versão derivada do nome de uma planta conhecida por “caruru” (espécie de um bredo) que “verde era comer saudável para o gado, porém seco virava veneno” e que cobria uma área em torno de um poço na margem do Rio Ipojuca denominada “Poço do Caruru” ou “Sítio do Caruru” e, com o tempo, por acréscimo de uma vogal, o nome foi alterado para Caruaru. 

Outra explicação, essa do padre Zacarias Lino Tavares, é que à época da formação do lugar havia um poço no Rio Ipojuca com uma infinidade de sapos cururus, que se escondiam em plantas rasteiras, denominadas “Caruru”. Caruaru seria, portanto, uma corruptela deste termo. Para o engenheiro e geógrafo baiano Teodoro Sampaio (1855 - 1937) a palavra Caruaru seria um substantivo composto por “caruara” e “u”, significando “rio das caruaras” ou “aguada das caruaras”, alusão feita à fonte ou água que na localidade produzia 2 - CARUARU ARCAICO a moléstia que atacava os rebanhos trazendo-lhes inchação e paralisia nas pernas. A definição do mestre baiano, de certo modo, vai à mesma linha do historiador e folclorista pernambucano Alfredo de Carvalho (1870 - 1916), para quem a palavra Caruaru seria uma corruptela de “caruari”, significando “rio ou poço das caruaras”.

O escritor João A. Lacerda, autor do livro CARUARU NA HISTÓRIA DO BRASIL E DO NORDESTE, em um trabalho interessante sobre a origem do topônimo Caruaru, entre outras pesquisas que realizou, consultou, em 1949, os renomados professores Roquete Pinto (etnógrafo, sociólogo, geógrafo, arqueólogo, botânico, zoólogo, linguista, farmacêutico, legista, fotógrafo, cineasta e folclorista) e Plinio Ayrosa da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo (professor catedrático de Etnografia Brasileira e Língua Tupiguarani), considerados na época as maiores autoridades brasileiras sobre o tema, tendo recebido as seguintes respostas; Dessas, a resposta do primeiro assistente do professor Plínio Ayrosa, o também professor Carlos Drummond, me parece bem consistente, pois sem desmerecer o trabalho do Roquete Pinto - não poderia ser diferente - menciona o estudo do geógrafo e engenheiro baiano Teodoro Sampaio como uma possibilidade real. 

Uma variação bem próxima da versão de João Condé, mencionada por Nélson Barbalho, diz que o nome do sítio inicialmente desbravado por negros quilombolas, fugitivos do cativeiro na Zona da Mata e posteriormente ocupado pela família Rodrigues de Sá, os pioneiros do povoamento branco, é que Caruaru vem de Caruru, termo afro-brasileiro referente a um tipo de bredo plantado no lugar pelos africanos iniciadores dos Quilombos dos Palmares e logo difundido tão largamente na região, que o local ficaria conhecido por Lugar do Caruru, Sítio do Caruru, Fazenda do Caruru, etc. CARUARU ARCAICO - 3 No lugar do bredo, ou seja, no Lugar do Caruru, em certo período de estiagem prolongada, o tal bredo caruru teria provocado mal-estar nas pessoas e animais, tornandose alimento perigoso ou maléfico, ou aru, como diziam os tapuias cariris. Assim, o caruru era aru, isto é o bredo era maléfico e, possivelmente, o Lugar do Caruru também, naquela fase de seca, seria o Lugar do Caruru-Aru. 

O próprio engenheiro e geografo baiano Teodoro Sampaio dá para “Caruara” ainda outras interpretações: a) seria uma espécie de formiga que dá nas árvores cuja mordedura coça como sarna; b) uma qualidade de abelha cujo mel é nocivo; c) ou ainda o que come ou corrói, comichão, sarna, boubas. Por fim o professor Daury da Silveira no livro Bibliografia toponímica e linguística nacionais, editado em 1983, depois de alertar que Caruaru era um nome de procedência discutida, também definiu o vocábulo como sendo uma espécie de dança e uma variedade de lagarto. 

Resumindo, não há consenso quanto à procedência da palavra “caruaru”, podendo ela ser como visto, um vocábulo de origem indígena ou africana, uma planta venenosa, um poço, um lagarto, uma lenda, entre outras interpretações. Por outro lado, sem que ainda também se saiba os reais motivos, os documentos e registros, inclusive os jornais, localizados até o ano de 1830, sempre se referem a Caruaru como sendo Caruru, a exemplo de “Fazenda Caruru”, “Povoado do Caruru” e “Distrito do Caruru”. Já entre os anos de 1830 e 1848, os registros e documentos se referem ora a uma, ora a outra das grafias. Por fim, a partir do ano de 1848, os documentos se referem ao lugar apenas como Caruaru, com a primitiva grafia “Caruru”, encontrada somente em alguns escritos pessoais ou em jornais de pequena circulação, mas mesmo assim por um período muito curto.

Particularmente, eu acho mais plausível a hipótese publicada no ÁLBUM-REVISTA DE CARUARU de 1937 e no livro FATOS HISTÓRICOS E PITORESCOS DE CARUARU de 1957, fortalecida pela carta encaminhada por Antônio Vieira de Mello, o sesmeiro de Ararobá, ao presidente da Província de Pernambuco em 1758, informando “ter nas suas terras um sítio chamado Caruru, de que desfrutavam vários índios”. Mas verdade é que Caruaru, independentemente das diversas possibilidades da origem do seu nome, mas com “suas manhãs cheias de luz e poesia, com a igrejinha do monte alva e pequenina, iluminada pelos dourados raios de sol de verão, é uma cidade que prende e seduz”, como bem disse o jornalista José Carlos Florêncio, no seu ÁlbumRevista.

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