03/05/23

A NOVA EUTERPE, SUA FUNDAÇÃO, SEUS CAUSOS por Hélio Fernando de Vasconcelos Florêncio

Pernambuco - Cidade de Caruaru - Photografia da Sociedade Musical Nova Eutherpe - por ocasião de uma retreta. FOTO E LEGENDA DE 1906, PUBLICADA EM UMA REVISTA CARIOCA.

O que mais confunde os pesquisadores ao escrever sobre a história de uma sociedade tradicional, é a falta de dados quanto a sua fundação. Mas essa dificuldade desaparece, no caso da Nova Euterpe, pois esta sociedade possui em seus arquivos um documento raro. É precisamente a ata de sua fundação e que conta como surgiu a sociedade.

Uma história que se inicia assim:

Ata da Primeira Reunião Musical, em 22 de março de 1896 . Presente os abaixo assinados, foi ocupada a cadeira presidencial pelo sr. tenente Francisco de Santana Guerra que usando da palavra expôs o motivo daquela reunião.

Em seguida pediu a palavra o capitão Manoel Afonso Silva Porto, que fez conhecer a necessidade que havia nesta cidade de uma banda musical e compreendia que esta necessidade podia desaparecer e que confiava nos colegas presentes, o que foi aplaudido com geral agrado. Pedindo a palavra o sr. Antônio Gonçalves declarou que prestaria os seus serviços como mestre da banda musical, grátis, até que a sociedade pudesse marcar uma mensalidade. Ainda voltando a tribuna o sr. Afonso Porto propôs que daquela hora em diante ficasse a sociedade denominando-se Sociedade Musical Nova Euterpe Caruaruense, o que dita proposta foi aceita com geral alegria. Não havendo nada mais a tratar foi encerrada a reunião. Presidente provisório, Francisco Santana Guerra. Secretário interino, José dos Anjos Filho.

O primeiro presidente da Nova Euterpe foi Francisco de Santana Guerra que permaneceu no cargo até 1897, quando assumiu o capitão Manoel Afonso da Silva Porto, o mesmo que batizou a banda. Vieram a seguir o coronel João Guilherme de Pontes, o major Antônio José Vieira, o sr. Diogenes Ferreira de Vasconcelos, o sr. Frutuoso Lorega, o sr. João Miguel dos Santos, o sr. José de Souza Filho, o sr. Pedro de Moura Neri, que festejou em grande estilo o cinquentenário e José Cavalcanti de Melo e outros.

Mas, de fato, um dos fundadores, o verdadeiro fundador da banda, o homem a quem a Nova Euterpe deve o seu maior entusiasmo, foi o cônego Antônio Freire de Carvalho, que todos conheciam como o Vigarinho, o querido sacerdote que foi a própria alma da banda de música e que viria, mais tarde, num discurso, festejar o conjunto com sua frase que desde então serviria de lema para a sociedade: “Euterpe! Sempre combatida, porém nunca vencida!”

Na história da Euterpe figuram vários presidentes de honra. O Vigarinho foi o primeiro quando da fundação. Seguiram-se o coronel Henrique Pinto, o coronel Guilherme de Pontes, o dr. Silva Filho, o sr. João Cursino, o deputado Pedro de Souza, o industrial Antônio de Souza, todos da maior projeção social em Caruaru e figuras de destaque na sociedade musical, verdadeiros apaixonados e ardentes admiradores daquela Banda de Música.

Através dos tempos, pela história dessa banda, desfilaram vultos ilustres, queridos por todos, uns que a morte arrancou, outros que ainda na velhice ficavam com os olhos rasos d'água ao vislumbrar nas ruas a EUTERPE querida.

Quando se fala nessa banda não se pode esquecer um João Cruz, um Dedé Pecó, Pedrinho Neri, Diógenes Vasconcelos, José Cavalcanti, Severino Menezes, Pedro Firmo o querido Chico Porto, o professor Artur Emídio, o querido Gerôncio Funileiro, todos exemplos de tenacidade, dedicação e amor a música.

CHICO PORTO, UM “CAVALO” DA NOVA EUTERPE.

O DIA QUE CHICO PORTO PERDEU O DISCURSO.

Os partidários de uma banda chamavam os partidários apaixonados da outra de “cavalos”. Cada banda tinha os seus “cavalos”. Eram os fãs que acompanhavam a banda aonde ela fosse. Assistiam os ensaios, tomavam parte em todas as excursões e retretas, aplaudindo, vibrando e até marchando atrás das bandas nas passeatas.

Chico Porto foi um “cavalo” da Nova Euterpe. Chico Porto se orgulhava de ser “cavalo” da Nova Euterpe. Assim como Chico Porto, muitos outros também se orgulhavam de ser “cavalos”. Chico Porto não perdia ocasião de fazer um discurso. Na alegria, na tristeza, em qualquer oportunidade, Chico Porto sempre se apresentava e fazia seu discurso. Discurso que começava sempre pelo bordão ... Senhores ... Chico Porto foi nomeado orador perpétuo da Nova Euterpe. Na Comercial, Chico Nunes, por muitos anos seu presidente, foi um dos “cavalos” mais conhecido.

Em 1934 a Sociedade Musical Nova Euterpe foi pela primeira vez até o Recife. Foi participar das festividades de posse do novo governador, dr. Carlos de Lima Cavalcanti.

No palanque oficial, defronte ao Palácio das Princesas, a Euterpe executou vários números, inclusive um maracatu de autoria do maestro Severino Ramos, que era o regente. O maracatu foi repetido seis vezes, a pedido inclusive de maestros de outras bandas, também presentes. É que o maracatu tinha uma originalidade na época. Era a marcação nos chocalhos, um maior e outro menor.

O pessoal da banda ficou tão comovido que Chico Porto, o orador de todas as épocas, o maior bebedor de cervejas da região, o orador perpétuo da Nova Euterpe, homem que nunca tinha perdido um discurso, quis falar agradecendo, fez força, mas não pôde ...

Estava engasgado de emoção! Naquele dia Chico Porto perdeu o discurso.

O CÉU PROTEGEU

O Vigarinho disse: EUTERPE! Serás sempre combatida, porém nunca vencida. De

fato, poucas foram as excursões da Euterpe. Mas certa vez, em Antônio Olinto, hoje Tacaimbó, a banda teve que enfrentar uma adversária de valor, a Jataúba. Ora, no dia previsto para a exibição o mestre Samuel Inocêncio desapareceu. Ninguém o encontrava e

a Jataúba já cantava vitória. Seria a Euterpe derrotada pela primeira vez! Mas o céu protegeu! Uma chuva tremenda caiu sobre Tacaimbó até alta madrugada e não pode haver

festa. E voltou sem derrota, a Nova Euterpe, feliz e satisfeita.

O FURTO MUSICAL

1906 corria. Dominava em Caruaru a política rosista, chefiada pelo comendador Manoel Rodrigues Porto, que era presidente da Banda Comercial, a grande rival da Euterpe, quatro anos apenas mais moça que esta.

O coronel Gavião, comandante de Quarto Batalhão dos Caçadores do Recife, mandou de presente à banda um dobrado novo, que era um estrondo. E zombavam da Euterpe, desafiando-a com a joia que era o dobrado. Na época era mestre da Euterpe, o José Borges. Quando a Comercial ensaiava o dobrado, José Borges, escondido, com papel de música, copiou todo o dobrado. Foi para a sede, fez uma orquestração igualzinha à do mestre Antônio Gonçalves, o Antônio Piston, que foi o primeiro mestre da Euterpe e que, na época, era da Comercial.

Bem a Euterpe desapareceu, ninguém sabia onde andava. Ela ensaiava o dobrado a 6 km de Caruaru, na fazenda Gravatá Assú. E no domingo seguinte, antes que a Comercial viesse a rua, surge a Euterpe tocando a plenos pulmões o famoso dobrado. Foi o maior espanto para a Comercial que não adivinhava como acontecera aquilo.

BRIGA ENTRE AS BANDAS

A grande rivalidade entre a Euterpe e a Comercial permaneceria através dos tempos. Em 1907, por ocasião do Carnaval, cada banda estava na rua com o seu clube. E lá na Rua Duque de Caxias encontraram-se as duas. A Euterpe atacou o dobrado furtado. E a pancadaria começou. Bombos furados, cabeças lascadas, tiros disparados pelo partidário Antônio Costa. E no final o mestre José Borges, o autor do furto musical, levou uma peixeirada na barriga. Mas foi pouca coisa, repousou e logo voltou à frente da banda.

O FILHO MAESTRO E O PAI MÚSICO

Esta se passou também com o mestre José Borges. Ensaiavam certo número. De repente o mestre suspendeu e declarou: Tem um músico aí que está errando nessa nota que acabaram de tocar. É dó em vez de ré.

Eu peço a esse músico que preste mais atenção à parte. Recomeçaram, e novo erro do músico. Nova repreensão. Enfim, o José Borges, depois no quarto erro, perdeu a paciência e explodiu: Pai, oh pai, pelo amor de Deus, pai, vê se acerta essa nota em vez de ré é dó. O pai de José Borges levantou-se irado, dizendo que ele não tocava mais numa banda onde o filho passava carão, na frente de todo mundo. Mas ... no dia seguinte, o velho lá estava firme no ensaio.

NINGUÉM SE RENDE

Essa quem nos conta é a dra. Valéria Barbalho. Novamente o “cavalo” Chico Porto é o personagem. Mexendo nos arquivos do meu pai, Nelson Barbalho, encontrei anotações sobre um verdadeiro duelo que houve, em Caruaru, em 1932. Ele tinha 14 anos, era torcedor do Esporte Clube de Caruaru e arriado pela Banda Euterpe. Fazia muitas trelas, escondido do meu avô, e dava a vida por uma confusão, entre terceiros, como a que ocorreu.

Naquele ano, os dois banqueiros de bicho mais ricos da cidade eram Senhorzinho, o presidente da Banda Comercial, e João Miguel Santos, o da Euterpe. A rivalidade entre os dois era enorme. Para decidir qual a melhor banda do ano, ficou marcada uma competição musical para a noite de Natal, quando o povo todo se reunia na Rua da Frente. Armaram dois coretos, um em frente ao outro, para as apresentações. Naquela noite, tinha gente que só farinha na rua. Todos se comprimindo para ouvir a afinação dos músicos e a seleção musical. A multidão se dividiu em duas torcidas.

Meu pai ficou espremido na da Euterpe. No começo, tudo correu na santa paz. A Euterpe tocava uma música, a torcida vibrava. A Comercial tocava outra, e a sua torcida ficava eufórica.

Começaram tocando, alternadamente. Cada música melhor que a outra. O tenente Zé Câmara era o regente da Euterpe e o maestro Frutuoso Magalhães, o da Comercial. Ordenaram para os seus músicos que não parassem de tocar nem descessem

dos coretos. Isto desclassificaria a banda, que ficaria desmoralizada. Ordem acatada por todos. Ninguém queria perder. Quem seria o vencedor? Estava armada a confusão!

Para melhorar o desempenho dos músicos, o presidente da Euterpe, mandou trazer umas cervejas. Chico Porto, figura folclórica de Caruaru, orador da banda, ficou em cima do coreto distribuindo as bebidas. Ele servia uma e bebia outra. Animava a torcida, tomava outra. Movidos a álcool, os músicos se esmeraram nos acordes. De tanta cerveja, Chico Porto, começou a sentir uma vontade danada de fazer xixi, mas aguentou firme. Euterpista roxo, ele não iria descer do coreto e prejudicar a banda. Rindo, aplaudindo, e bebendo, ele continuou lá em cima. E tome música, e cerveja. E a vontade de fazer xixi, de Chico, aumentando. As horas passavam, e ninguém desistia.

Uma hora da madrugada, duas, três e nada. Meu pai, nessa altura do campeonato, imaginava a surra que iria levar quando voltasse para casa. Cinco horas, o céu já avermelhado e os músicos incansáveis. Dia claro, e a peleja não terminava. Ninguém tinha visto uma disputa tão acirrada. Às sete horas da manhã, 26 de dezembro, chegou o tenente Barroso, o delegado. Ele tentou negociar com os responsáveis, dizendo que as bandas parassem, na mesma hora, e que todos fossem para as suas sedes. Não haveria vencedor. Proposta recusada. Ninguém queria descer primeiro. 

Então, usando de sua autoridade, o tenente, após mandá-los se apresentar, mais tarde, na delegacia, ordenou que os músicos fossem deixando os coretos, tocando, simultaneamente, um-a-um, de cada lado. O campeonato ficaria empate. E assim, desceram todos, menos Chico Porto. Quando ele viu que não havia mais ninguém no lado rival, proclamou: “A EUTERPE VENCEU! DESCEMOS POR ÚLTIMO!”. E a torcida empolgada: É A CAMPEÃ! Morto de cansaço, Chiquinho, como meu pai, carinhosamente, o chamava, finalmente desceu. Satisfeitíssimo, embora, todo molhado. Não aguentou a bexiga cheia, e fez xixi nas calças, em cima do coreto, durante a grande disputa.



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