22/07/23

PADRE ANTÔNIO JORGE GUERRA PRIMEIRO VIGÁRIO DE CARUARU - 1848. por Hélio Fernando de Vasconcelos Florêncio

Quando a Câmara Municipal de Caruaru instituiu em 1997 por decreto, comendas para homenagear pessoas gradas que se destacaram na prestação de serviços, nas mais diversas áreas, foram criadas 12 (doze) MEDALHAS DE HONRA AO MÉRITO. 

a) Medalha José Rodrigues de Jesus → Comenda maior a ser conferida a personalidades, independentemente de sua área de atuação. 

b) Área Cultural → Medalha Álvaro Lins. 

c) Área Educacional → Medalha Professora Sinhazinha / Medalha José Condé. 

d) Área de Saúde → Medalha Dr. Geminiano Campos. 

e) Área Religiosa → Medalha Padre Antônio Jorge Guerra / Medalha Pastor Júlio Leitão. 

f) Área política → Medalha Prefeito João Salvador dos Santos. 

g) Área de Artes Plásticas → Medalha Mestre Vitalino. 

h) Área Militar → Medalha General Aguinaldo de Oliveira. 

i) Área Musical → Medalha Maestro Matias Malaquias. 

j) Área Jurídica → Medalha Desembargador Amaro de Lira e César. 

k) Área de Imprensa → Medalha Jornalista José Carlos Florêncio. 

l) Área Comercial e Industrial → Medalha Armando da Fonte. 

Como se observa, na Área Religiosa a medalha tem como um dos patronos o padre Antônio Jorge Guerra. Mas quem foi o padre Antônio Jorge Guerra? 

As primeiras notícias sobre o padre Antônio Jorge Guerra (1786 - 1856), vêm da época que exerceu seu magistério religioso em Vitória de Santo Antão, entre 1830 até o início do segundo semestre de 1843, ocasião que foi transferido, como vigário, para a freguesia de São José dos Bezerros. 

Posteriormente, após ter sido criada a freguesia de São Caetano da Raposa em 02/05/1844, por desmembramento da freguesia de São José dos Bezerros, mas que somente seria instalada em 1845, o padre aceitando sua transferência se tornou o primeiro vigário da nova freguesia. 

Por sua vez, após discussão e aprovação pela Assembleia Legislativa do projeto que elevava Caruaru a condição de vila e transferia as sedes da Comarca de Bonito para Caruaru e da freguesia de São Caetano da Raposa - essa por conta das condições precárias do lugar - para a igreja de Nossa Senhora das Dores (recém-construída), sancionado pelo presidente da Província de Pernambuco, Dr. Antônio da Costa Pinto em 16/08/1848 e que recebeu o nome de Lei Provincial nº 212, o padre Antônio Jorge Guerra, por ser o vigário da freguesia, também foi transferido para Caruaru, tornando-se assim nosso primeiro vigário. 

O primeiro documento mencionando atividades religiosas na Igreja de Nossa Senhora das Dores de Caruaru, data de 11/06/1848(1), se refere a igreja já como Matriz, e foi do batismo de uma criança e está assinado pelo ainda vigário de São Caetano da Raposa, mas que aqui já se encontrava há pelo menos 65 (sessenta e cinco) dias, ou seja, ainda antes da transferência oficial do padre e criação da Matriz. O reverendo logo se tornaria uma figura central da sociedade. Na Vila de Caruaru foi político militante, coordenou a primeira eleição para vereador da vila. Na segunda legislatura ficou na condição de um dos primeiros suplentes. Foi também dono de sítio, cultivador de algodão, pequeno criador de gado bovino, de cabras e cavalos, além de fabricante de farinha de mandioca, sem, no entanto, nunca olvidar das funções de vigário da Igreja Matriz. Sob sua direção, foi instituído em Caruaru, a devoção a Maria mãe de Deus, no dia 02/06/1850. 

Muito religioso, dinâmico, o padre Antônio Jorge Guerra fundou juntamente com o professor João Izidro Gonçalves da Cruz (administrador da Irmandade da Nossa Senhora das Dores), o primeiro educandário de Caruaru, denominado “São Francisco”, situado na Rua da Frente, atual Praça Coronel João Guilherme, conforme mencionado nas atas da Câmara Municipal do ano de 1853. 

No final de 1855, devido ao grande número de mortos na vila de Caruaru, durante a epidemia do Cólera, a Câmara de Vereadores, na sua segunda legislatura, por sugestão do professor e vereador João Izidro Gonçalves da Cruz, através de ofício assinado pelo vigário Antônio Jorge Guerra, na época exercendo a função de vereador, solicitou licença ao bispado de Olinda para construção de um cemitério público(2). Por ironia do destino, a resposta com a autorização, não seria por ele recebida, por conta de sua morte, somente poucos dias antes. 

O vigário foi um dos mártires da epidemia de cólera que assolou a região nos idos de 1855/1856, ocasião que com muita coragem enfrentou a doença, atendendo a todos indistintamente, pobres e ricos, brancos e negros, medicando, confortando e aplicando a unção dos enfermos (extrema unção), até ele mesmo se tornar umas das vítimas do mal.

O vigário faleceu no dia 28//01/1856 sem receber os santos sacramentos, desde que o outro padre da vila, seu coadjutor, o português Antônio José Gomes de Brito, também acometido do mal, encontrava-se acamado e faleceria também somente três dias após, no dia 31/01/1856. 

O vigário foi enterrado, envolto em hábito sacerdotal, no cemitério pertencente a própria igreja, que ficava nas imediações da atual Casa Paroquial e por trás do Palácio do Bispo. 

Por outro lado, na primeira metade do século XIX, devido a precariedade dos lugares, principalmente nos pequenos povoados e vilas do interior do estado, era comum os padres terem mulheres(3)

O nosso vigário não foi exceção, o padre Antônio Jorge Guerra vivia maritalmente com sua escrava, uma negra filha de escravos angolanos trazidos para o Brasil e por ele batizada com o nome de Isabel Maria da Conceição, com quem teve três filhos, nascidos do seu tempo de Vitória de Santo Antão. O mais velho deles, citado na história de Caruaru, se chamava José Joaquim de Sant’Anna Guerra (1833 - 1874), ao contrário dos outros dois, que não são mencionados Em Caruaru, o vigário fez do filho mais velho seu auxiliar na igreja, o qual, após sua morte, bem por dentro dos eventos, ajudaria bastante o novo vigário, o padre Antônio Freire de Carvalho (o Vigarinho). 

Como reconhecimento pelo seu trabalho, foi oficialmente nomeado sacristão da igreja (1º sacristão da igreja Matriz), cargo que exerceria até sua morte. O sacristão era excelente músico e ativo participante das duas primeiras bandas musicais de Caruaru, a Conservadora de 1857 e a Liberal de 1863. 

Por sua vez, o registro 229 do Livro Nº 01 de Casamentos da Matriz de Nossa Senhora da Dores, datado de 11/06/1855, consta o nupcial de José Joaquim de Sant’Anna Guerra com a senhora Cândida Maria do Espírito Santo, onde o futuro sacristão aparece como filho natural de Isabel Maria da Conceição, embora com omissão do sobrenome Guerra. A seguir, documento anexado, com transcrição.

Provavelmente, a omissão do sobrenome Guerra nesse assento de casamento, tenha ocorrido como medida de preservação, pelo vigário Antônio Freire de Carvalho. 

A condição do sacristão ser filho do vigário, fica bem observada no assentamento do casamento de uma filha, conforme cópia a seguir, com transcrição, onde este aparece grafado com o sobrenome Guerra. 

José Joaquim de Sant’Anna Guerra, por sua vez, foi pai natural de Francisco de Sant’Anna Guerra (1865 - 1952), seu substituto como sacristão na igreja matriz, função que exerceria por sessenta anos, motivo pelo qual ficaria conhecido como “Chico Sacristão”. 

A exemplo do pai, José Joaquim de Sant’Anna Guerra, também foi excelente músico e um ativo participante da fundação da sociedade musical Nova Euterpe (1896), afora ter exercido, por muitos anos, o cargo de agente postal dos Correios. 

Chico Sacristão foi pai do conhecido livreiro Carlos Guerra, fundador da Livraria Guerra, adquirida em 1942 por S. Galvão Cavalcanti, oportunidade que por sugestão do jornalista José Carlos Florêncio, estávamos em pleno período da 2ª Guerra Mundial, na reinauguração a livraria teve o nome mudado para “Livraria Estudantil”.
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1 - Ver documento da p.4, anexado ao artigo “A PRIMITIVA IGREJA DE NOSSA SENHORA DAS DORES”. 2 - Nos primórdios de Caruaru não havia cemitérios públicos, os corpos, em um procedimento comum, eram enterrados em cemitérios pertencentes as igrejas. 3 - De certo modo, o próprio bispado de Olinda parecia fazer “vista grossa” como forma de incentivar os padres a pregarem seus misteres nos lugares mais distantes e ermos. 



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