09/08/23

O CEMITÉRIO DE SÃO MIGUEL 1856 por Hélio Florêncio

Por conta do grande número de mortos na vila de Caruaru em 1855 devido a epidemia de cólera morbus, a Câmara Municipal, por sugestão do professor, construtor e também vereador João Izidro Gonçalves da Cruz, encaminhou requerimento ao bispado de Olinda. no final daquele ano pelo vigário Antônio Jorge Guerra, na época suplente de vereador, solicitando licença para construção de um cemitério público. Por ironia do destino a autorização encaminhada ao vigário, no início do ano seguinte, não seria por ele recebida, pois o padre, devido o cólera, tinha falecido apenas poucos dias antes. Este cemitério que receberia a denominação de São Miguel, edificado nas imediações do Colégio Diocesano, foi o primeiro cemitério público de Caruaru.

Nesta foto, do final da década de 1940, observa-se restos do primitivo muro de contorno do Cemitério São Miguel, construído no ano de 1856 e que, a exemplo do Hospital São Sebastião, contou com a colaboração de todos os habitantes de Caruaru. Por outro lado, nos primórdios de Caruaru, como ainda não havia cemitérios públicos, os corpos eram enterrados em cemitérios pertencentes as igrejas. Existem menções a cemitérios ao lado e no interior da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, por trás da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores e nas imediações de uma primitiva capelinha de Nossa Senhora do Rosário vinda de 1840.

esses cemitérios existiam uma espécie de grade que separavam os locais dos sepultamentos. De grades abaixo eram sepultados os escravos, pardos ou brancos que não tivessem prestígio e de grades acima eram sepultados os brancos que representassem algum tipo de autoridade, pertencessem a uma família tradicional ou que exercessem algum tipo de influência ou poder no lugar. Os primeiros descendentes e parentes próximos de José Rodrigues de Jesus (este sepultado por trás do altar mor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição), após licença datada de 1793, confirmada em 1810, foram sepultados em linha reta e colateral no plano da Capela-Mor. Em maio de 1856, Dr. Manuel Correia Lima, juiz de Direito e primeiro jornalista de Caruaru, sob o pseudônimo de “O Habitante de Caruaru” fez publicar no jornal “O Paiz” de Recife, se referindo aos prédios existentes na vila que: “Os mais importantes são a matriz que conquanto de mau gosto, falo do interior, oferece solidez e promete durar, embora faltem ainda algumas obras para que se preste ao culto divino, com a decência que deve haver em um templo”. No mesmo artigo ainda citava o prédio da Câmara como uma boa instalação, a chegada do novo Promotor Público e o cemitério “abarrotado por trás da igreja matriz”. Ainda registrou que no novo cemitério “um crescido número de trabalhadores se apresentaram para roçar o terreno e dar início às escavações dos alicerces do muro, com uso de recursos provenientes de esmolas e doações dos habitantes do lugar”, além de louvar o idealizador do projeto, o professor João Izidro Gonçalves da Cruz. O juiz concluiu o artigo afirmando que “seria de grande valia que o novo presidente da Província enviasse um auxílio para o acabamento da nossa Matriz ”

Este cemitério ocupava a área circundada em amarelo, mostrada na foto anterior, compreendia aproximadamente os terrenos de frente, pelos dois lados, de toda a extensão da Rua Padre Félix Barreto, desde a Rua Dom Sebastião Leme até a Rua Silvino Macedo, a qual por muitos anos, por conta do cemitério, teve o nome de São Miguel. A partir do final do século XIX, após a inauguração em 1879 do Cemitério de São Roque, ficaria conhecido como “Cemitério Velho”. O cemitério de São Miguel foi desativado no ano de 1942, quando do início das obras do cemitério Dom Bosco inaugurado em 01/02/1943, durante a administração (1940 - 1945) do prefeito Manoel Afonso Porto Filho, ocasião que os corpos foram trasladados para o Cemitério de São Roque. A bem da verdade, existiram muitos vários relatos mencionando ossos encontrados durante as escavações das fundações de casas e prédios erguidas posteriormente no local. Nesse cemitério foram sepultadas, conforme o correspondente do jornal “A PROVÍNCIA” em 12/11/1926, entre outros, o farmacêutico Jean Pegot (fundador da Pharmacia Franceza) e sua esposa Anna Pegot, dona Elvira Malagueta (irmã da senhora Amélia de Pontes, que dá nome ao Lactário) e o professor Vicente Monteiro, para citar os mais conhecidos.

Na foto a seguir, do ano de 1924, de autoria de Synésio, o grande repórter fotográfico da década de 1920, intitulada “Caruaru - Vista Geral”, observa-se: 

a) Vista geral do que era praticamente toda a cidade de Caruaru no ano de 1924;

b) Um pouco ao longe a atual Rua José Mariano e o Cedro, no antigo caminho das boiadas e mais ainda, o Rio Ipojuca com suas águas perenes e límpidas; 

c) Do centro para a direita, os fundos do Palácio do Bispo e da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, a igreja de Nossa Senhora da Conceição e a Praça do Rosário pouco antes da sua inauguração, ainda sem o coreto; 

d) Que a atual Praça Nova Euterpe ainda era apenas um descampado, mas que ainda naquele ano seria urbanizada e inaugurada com o nome de Parque Dr. José Bezerra; 

e) Do lado esquerdo, um pouco acima, são vistos os prédios da estação e o armazém ferroviário, além do início da formação das Ruas Silvino Macedo (antiga São Miguel) e Frei Caneca; 

f) Por fim, nos fundos da Frei Caneca, circundado em amarelo, são vistas as catacumbas do Cemitério São Miguel.



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