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quarta-feira, 28 de junho de 2017

10 maneiras de tentar abolir o debate

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1) "Como assim, você tem opiniões políticas?": É o velho truque do "eu preferia antes, quando os assuntos eram outros". Repare que quem se incomoda com a sua opinião é quem tem uma opinião geralmente contrária à sua (e não só uma opinião "diferente"). E quem acha que se você continuar "com essas opiniões", vai acabar convencendo alguma pessoa (!). É melhor parar por aí... Se você tivesse uma opinião que batesse com a da pessoa que te questiona, tudo bem, ela não iria reclamar, ela iria até dizer que a sua opinião "acrescenta", "enriquece o debate" etc.


2) "Você não é imparcial": Quando a pessoa percebe que você *não* se horroriza com o simples fato de ter opiniões, ela te acusa de "não ser imparcial". Bem, isso não é uma acusação. É um fato da vida. Nietzsche mostrou, pelo perspectivismo, que ninguém nunca é "neutro". Ele usou o exemplo das pessoas que escreveram a Bíblia: eram homens, como nós. Humanos, demasiadamente humanos. Ou seja: não ser neutro, ou "imparcial", é a condição existencial de qualquer ser humano. Kant nos colocou no tempo e no espaço. Não temos como fugir dessas dimensões. Cada pessoa é um ponto de vista. Não temos acesso a "absolutos".

3) "Você está abusando da sua credibilidade": A frase não é bem essa, mas vocês entenderam o sentido. Equivale a dizer que você era uma pessoa "respeitável" até começar a emitir opiniões. Bem, depois "dessas suas opiniões", ninguém sabe o que pode acontecer... "As pessoas podem não te respeitar mais", seu interlocutor parece te dizer. Vamos ver se eu entendi direito: enquanto você não tinha opiniões, você era ótimo, fazia o seu trabalho sem interferir no meu; agora que você tem opiniões, não é tão bom assim, está me atrapalhando! Quem faz propaganda política, não quer concorrência. Quem te "aconselhou" isso sempre emitiu as próprias opiniões, certo?

4) "Você pode perder amigos e até fazer alguns inimigos...": Não se assuste com essa ameaça, você *sempre* pode perder amigos e "fazer inimigos" quando se posicionar. E não é apenas em debates políticos, mas em qualquer situação da vida. Quando você reclama de um produto com defeito. Quando você não gosta de um atendimento. Quando você exige um serviço mais bem feito. Quando você não aceita uma proposta que te fazem. Quando você *faz* uma proposta que não é aceita. Quando você adere a um grupo. Quando você se desliga de um grupo. Quando você discorda de pessoas próximas. Quando você defende ideias "não convencionais". Qualquer pessoa que tenha um mínimo de personalidade está sujeita a "perder amigos" e a "fazer inimigos".

5) "Você pode estar sendo preconceituoso (sem perceber)": Uma das coisas que mais me incomoda no patrulhamento via "correção política" é o uso que se faz da palavra "preconceito". Ter preconceito, até onde eu entendo, é ter um "conceito" prévio, sem conhecer direito. Mas quando você conhece o assunto, mesmo que minimamente, você já tem um *conceito*. Assim, eu não tenho um "preconceito contra o PT", mas eu tenho um *conceito* sobre o PT. Eu não tenho um "preconceito contra os petistas", eu tenho um *conceito* sobre os petistas. Eu não tenho um "preconceito contra o Lula", eu tenho um *conceito* sobre o Lula. E eu não tenho um "preconceito contra a Dilma", eu tenho um *conceito* sobre a Dilma. Eu posso ter preconceitos, claro - como qualquer pessoa, aliás -, mas quando estou *embasando* minhas opiniões, estou emitindo meus *conceitos* e, não, "preconceitos".

6) "Você não entende de política, você não deveria opinar": Ninguém entende de política *a priori*. Ninguém nasce "sabendo" política. Porque "política" não é simplesmente um "assunto", uma matéria, que se possa dominar. Não é como saber inglês (ou não saber). Não é, assim, "binário". É um processo; uma construção. E passa, inevitavelmente, pelo debate, pela discussão. Participar das coisas da sua cidade, do seu estado, do seu país, envolve conversar sobre elas com outras pessoas. A democracia ateniense - um dos paradigmas históricos - envolvia participação ativa dos cidadãos. E parlamento, originalmente, vem de "parler": falar, em francês. E qualquer imagem que você tenha de um parlamento, você sabe que envolve "falatório", discussões acaloradas, debates etc. Assim, você *sempre* pode opinar sobre política. Você deve opinar sobre política. Porque, mesmo "não entendendo nada", é o único meio de te fazer *entender alguma coisa*.

7) "Você não deveria opinar, porque ignora tais e tais informações": E dá-lhe links, e dá-lhe fontes das quais você nunca ouviu falar e dá-lhe palavras-chave. A pessoa quer dizer, no limite, que você é ignorante e, por isso, não deveria emitir opiniões. "Fique quieto, você não sabe do que está falando." Acontece que você não precisa entender de asfalto ou de calçamento de ruas, para opinar que sua cidade está esburacada. Você não precisa ser economista para concordar que a inflação voltou, que "a economia está parada" e que o desemprego está voltando. Você não precisa ser filiado a nenhum partido político, para saber que a cúpula de um determinado partido foi condenada, multada e presa por corrupção; que esse partido, mesmo após essa condenação, manteve os mesmos expedientes de corrupção; e que esses mesmos expedientes financiaram a campanha de 2010 da atual candidata do governo à reeleição. São fatos sabidos e notórios, e emitir opiniões sobre eles não é pecado. Você não precisa ser PhD para dar sua opinião.

8) "Vou parar de te 'seguir' (ou vou deixar de ser seu 'amigo'), se você não parar com essas opiniões...": Se te consola, eu recebo "ameaças" desse tipo todos os dias. Não de amigos de verdade, claro. O mais engraçado é ver que os mesmos que ameaçam - e que até cumprem com suas ameaças - depois voltam resignados, porque não aguentam ficar longe... das nossas opiniões! É óbvio que algumas pessoas não vão concordar com você. E é óbvio que algumas pessoas não vão gostar de você - porque se identificam *tanto* com suas próprias opiniões que ser contrário a essas opiniões, é ser contrário a elas próprias (pessoas). Independente de concordar, opiniões a gente respeita ou não. Quem importa, vai respeitar as suas opiniões (quais sejam), porque respeita você. E quem não te respeita, você não precisa ter por perto - pode abrir mão da "amizade" ou do "follow"...

9) "Suas opiniões não valem porque você é isso ou aquilo": Nesse ponto, a pessoa já perdeu as estribeiras e passa a te atacar abertamente. Como não te fez desistir de opinar, nem desistir das próprias opiniões, a pessoa tenta te desmoralizar. Tem gente que se intimida com esse tipo de ataque, mas não deveria. Na verdade, o que impressiona é a violência do ataque, porque o agressor te julga, pelas *suas* opiniões, e te enquadra num grupo, que, por ter determinadas opiniões, não merece consideração. Isso não é novidade; trata-se de uma técnica antiga. Chama-se "argumentum ad hominem" (em latim, "argumento contra a pessoa"). Era como, por exemplo, Nietzsche atacando Sócrates, e seus conceitos sobre a beleza, porque Sócrates era "feio". (Leia-se: uma pessoa feia não pode entender de beleza.) É engraçado. E provoca certo efeito. Mas não deve impedir ninguém de emitir suas próprias opiniões. É apenas sinal de que seu oponente perdeu a razão, e, não encontrando outros argumentos à mão, ataca você.

10) "Vou te denunciar, vou te processar etc.": Quando a pessoa percebe que não te atinge nem te atacando pessoalmente, ela ameaça "chamar a polícia" ou te ameaça judicialmente. A maioria é bravata, claro. Para te intimidar, mais uma vez. Em geral, opiniões (quais sejam) são protegidas pela chamada "liberdade de expressão". Se a pessoa resolver te processar mesmo - e se ela quiser ganhar alguma coisa ($) com isso -, terá de provar que houve calúnia ou difamação. Você não está caluniando nem difamando ninguém só porque diz que um candidato X, ou um partido Y, não merece o seu voto. É importante ter cuidado com as redes sociais: se uma opinião sua "viralizar", e for potencialmente ofensiva, você pode ter problemas. Mas é raro. Quantos memes você criou nos últimos tempos? E na sua vida inteira?

Resumindo a ópera: não deixe de emitir suas opiniões só porque existe uma militância treinada para te neutralizar. Política é um assunto chato, eu sei, mais do que economia até. Mas quem não se interessa por política, minimamente, está condenado a ser governado por quem se interessa. Muita gente diz que não importa, que podemos eleger qualquer pessoa. Não é bem assim. Veja o que aconteceu com o Brasil nos últimos 12 anos. Esse, aliás, é mais um argumento para diminuir a sua participação. Tipo aquele que diz que "não vale a pena", que "todos os políticos não prestam", que "todos os partidos são iguais" etc. "Política" tem parentesco com "pólis": cidade, em grego. Todo mundo faz parte da cidade. Todo mundo está inserido nela. Assim como da economia, não dá para escapar da política. E para aprender, para saber, para entender melhor é preciso opinar, participar do debate, não tem outra forma. 

Julio Dargio Borges
digestivocultural.com

terça-feira, 27 de junho de 2017

Flip 2017 terá mais vozes femininas e negras participando dos debates, conta curadora

Festa Literária de Paraty de 2009 - Créditos: Monica/ Flickr

Com um autor negro como homenageado, Lima Barreto, e tendo, pela primeira vez na história, mais vozes femininas do que masculinas participando dos debates — serão 24 mulheres e 22 homens na composição das mesas — a já tradicional Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) chega a sua 15ª edição com mais representatividade de gênero e raça.
O evento, que ocorrerá do dia 26 a 30 de julho, na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, reunirá autoras e autores nacionais e internacionais, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, a mineira Conceição Evaristo, a gaúcha Eliane Brum e o pernambucano Marcelino Freire, entre muitos outros.
"O que a gente está propondo com essa Flip é um recorte que não é, de maneira nenhuma, o espelho do que existe no mercado editorial. Trata-se de um novo recorte, uma nova proposta de representação", comenta a curadora da Flip e pesquisadora Josélia Aguiar.
A inspiração para a edição deste ano, segundo Josélia, veio de campanhas como "Leia Mulheres" (read women), fomentada pela britânica Joanna Walsh, em 2014, no Reino Unido, que buscava incentivar a leitura de obras de mulheres, em contraposição ao mercado editorial, que não lhes proporcionava visibilidade. Outra iniciativa inspiradora para a edição da feira foi o "Vidas Negras Importam" [Black Lives Metter], que surgiu nos Estados Unidos com o intuito de se contrapor à violência policial e hostilidade sofrida contra negros e negras e para ressaltar fato de que as vidas negras têm valor.
Homenageado do ano e grandes autores
"Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes". Esse trecho é de uma crônica de 1915 escrita por Lima Barreto, o homenageado na Festa Literária de Paraty (FLIP) deste ano, abordando o tema do feminicídio no início do século 19.  A crônica intitulada "Não as matem" é parte da publicação "Vida Urbana", uma coletânea de crônicas e artigos do autor publicada em 1953.
A curadora da Flip, Josélia Aguiar, explica sobre a escolha deste autor, que "escreveu sobre diversos gêneros" e mantinha uma "visão da sociedade brasileira que é muito atual".
"Lima Barreto me interessa há uns cinco anos por causa do projeto de um livro, que já está praticamente pra ser lançado, que é a biografia do Jorge Amado. Ele muito jovem adorava o Lima Barreto. Então, eu tive que ler Lima Barreto e as conexões entre eles", conta Josélia.
Josélia reforça que a expectativa para o evento é grande e ressalta a importância de trazer cada vez mais autores e autoras de diversos países, gêneros e abordagens para um evento da magnitude da Festa: "A história da Flip é muito bonita, de uma festa literária que ajuda a pautar a literatura, que trouxe grandes autores e autoras, inclusive grandes autores negros e negras, como a escritora [estadunidense] Toni Morrison e, no ano passado, Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel". 
Edição: Vanessa Martina Silva
BrasildeFato

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Crônica de Lima Barreto sobre Feminicídio em 1915

Lima Barreto, o homenageado da Flip 2017 - Créditos: Reprodução
"Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes”. Esse trecho é de uma crônica de 1915 escrita por Lima Barreto, o homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, provando que feminicídio não é um problema dos nossos tempos. Criação: Andocides Bezerra
O texto “Não as matem” é parte da publicação “Vida Urbana”, uma coletânea de crônicas e artigos do autor publicada em 1953.  
Confira a íntegra:
Não as matem

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.
O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.
Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.
Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.
Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.
O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.
Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.
De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa-vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?
Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.
Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.
O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.
Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor.
Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.
Deixem as mulheres amar à vontade.
Não as matem, pelo amor de Deus!
(Vida urbana, 27-1-1915)
Edição: Camila Rodrigues da Silva
Fonte: Rede Brasil Atual

sábado, 24 de junho de 2017

Festa Joanina - Frei Betto

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Globo.com
Hoje é dia de São João. Teremos a noite mais longa do ano com direito a fogueira, balões, bandeirinhas coloridas, fogos de artifício, sanfona, quadrilha, quentão, pipoca e paçoca. E danças de mãos entrelaçadas, casais a se trançarem em volteios na roda, a mescla de uma roça marcada pelo ritmo afrancesado. E saber que o outro existe para que ninguém mais repita o lamento de Fernando Pessoa pela boca de Alberto Caeiro:
“Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos,
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.”
Somente o outro permite que eu exista. Somos seres sociais e a vida é um jogo de alteridades. Talvez isso explique a dificuldade de nossa memória guardar os traços exatos de nosso rosto. A menos que o espelho o reflita. É o olhar do outro que molda a minha identidade. É o meu olhar que enternece ou entristece o outro. Assim como a luz divina transpareceu em Jesus aos olhos de João.
Qual João? Há dois no Evangelho. O primo de Jesus e o discípulo dileto, autor do quarto evangelho, o mais poético e teológico de todos.
Jesus, segundo a tradição, teria nascido em 25 de dezembro. Lucas registra que Maria, ao visitar a prima Isabel para anunciar-lhe o início de sua gravidez, a encontrou também grávida, e com ela permaneceu três meses. O que levou a Igreja a comemorar o nascimento de João, filho de Isabel e do sacerdote Zacarias, a 24 de junho, seis meses antes de Jesus.
João não quis seguir a carreira sacerdotal do pai. Preferiu a de monge na comunidade puritana de Qmran, junto ao Mar Morto. Não se adaptou. Tornou-se pregador ambulante às margens do rio Jordão. Em torno dele se formou uma comunidade de discípulos, entre os quais Jesus, que por ele foi batizado. Daí o epíteto de Batista acrescido ao nome de João.
Enquanto os essênios dividiam o mundo entre puros e impuros, João optou pela óptica bíblica do conflito entre justos e injustos. Sua espiritualidade deitava raízes na ética e na justiça social. A seus batizandos aconselhava partilhar os bens, jamais explorar o próximo, não praticar extorsão nem proferir falsas acusações. Jesus abraçou a via espiritual testemunhada por seu primo.
João ousou denunciar a falta de ética do governador da Galileia, Herodes Antipas, que por isso mandou prendê-lo. Não pretendia, contudo, decretar-lhe a morte, pois conhecia seu prestígio popular. Porém, Salomé, filha de Herodíades, mulher de Antipas, pediu de presente ao governador a cabeça de João em uma bandeja. No que foi atendida.
Ao assassinato de João seguiu-se o início da militância de Jesus. Seus dois primeiros discípulos, os irmãos André e Simão Pedro, haviam participado da comunidade dos seguidores de João. Mais tarde, Jesus também seria assassinado pelo conluio entre dois poderes políticos, por anunciar, dentro do reino de Cesar, outro reino, o de Deus, baseado em dois paradigmas: na relação pessoal, o amor; na social, a partilha de bens.
O outro João registra, no prólogo de seu evangelho, que o primeiro João “não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”. Jesus era a luz.
João e Jesus são luzes que brilham nas trevas, assim como as chamas da fogueira quebram o negrume da noite e nos aquecem o coração. Celebrar esta festa joanina, em junho ou julho, é abraçar uma espiritualidade que desafia as trevas atuais e projeta a luz da esperança em tempos tão sombrios.
Como João, somos chamados a ser testemunhas da luz. Quando me perguntam se, nessa conjuntura brasileira, vejo luz no fim do túnel, respondo que, infelizmente, roubaram também o túnel. Mas não a luz. Como proclama José Régio em Cântico negro
“Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!” 
E na busca de horizontes me agarro a esta convicção: há que guardar o pessimismo para dias melhores!
Frei Betto é escritor, autor de “Ofício de escrever” (Rocco), entre outros livros.

Santo Forte com Gabriel Sá


A fé é o que sustenta e move o povo nordestino. Ter fé faz com que a vida tão árdua seja um fardo mais leve. Neste show, Gabriel Sá canta a fé do nosso povo. Os santos, cartomantes, ciganas, curandeiros, toda manifestação popular mesclada a clássicos da música popular brasileira festejam a identidade e cultura de um povo que acima de tudo é feliz.

Santo Forte preserva e valoriza a cultura do povo nordestino através das manifestações populares religiosas. Fala da fé sob um aspecto artístico propondo ao público uma visão cultural de imagens e personagens populares presentes na história e tradição do nordeste do Brasil.

A dica do dia