Fiquei impactado com a tela ‘Daniel na cova dos leões’, que é uma das mais famosas do magistral pintor flamenco Peter Paul Rubens. A obra, pintada em 1612, encontra-se na Galeria Nacional de Arte de Washington D. C., nos Estados Unidos. É uma representação do episódio narrado no capítulo 06 do livro bíblico de Daniel, quando o rei Dario assina um edito que penaliza o jovem judeu por causa do seu hábito de orar ao Senhor Deus.
Na tela, Daniel é retratado seminu e imberbe, em posição de oração diante de Deus, cercado dos felídeos. Influenciado por Caravaggio, Rubens trabalha as cores de modo que o quadro parece vibrar como uma cena real, vívida aos olhos do público. O jogo de luzes e sombras, característico do Barroco, revela o gênio do artista.
Um dos aspectos que me impactou na tela foram os nove leões, todos em posições distintas e em distintos estados de ânimo. Há leões aparentemente indiferentes à situação, enquanto outros aparentam estar famintos ou iracundos. Segundo o texto bíblico, eles foram deixados sem alimento durante um tempo considerável, para que pudessem devorar o profeta. Alguns dos leões da obra olham para frente, como se estivessem encarando a pessoa que mira o quadro. As feras foram pintadas com notável perfeição técnica, com detalhes que indicam que o artista realizou estudos acerca do mundo animal para alcançar tamanha maestria no produto.
Também chama a atenção a posição do profeta. A sua face representa conhecimento acerca do iminente perigo que o circunda, mas seus olhos não estão fixos nos leões. Ele olha para cima, como quem não duvida de que será livrado daquela situação. Há situações em nossa vida nas quais a reação natural mais possível pode ser encarar os leões. Contudo, tal ato apenas aumenta o medo e afasta a fé.
Que importante conselho podemos tirar desta cena! Afinal de contas, todos nós, de certa forma, passamos ou passaremos pelo nosso próprio covil dos leões. Por algum motivo, todos nós seremos jogados em algum fosso nas dimensões interiores do nosso ser. Neste local, estaremos em contato com nossas pulsações mais animais, nossos impulsos instintivos, as camadas do nosso ser que se rebelam contra a razão. Mesmo neste ambiente de escuridão, devemos clamar para que as luzes da essência divina clareiem nossa realidade. Por meio da intervenção divina, foram fechadas as bocas dos leões. Este episódio será incorporado ao conjunto de exemplos de fé trazido do capítulo 11 da Epístola Aos Hebreus. Ao invés de olhar nos olhos dos leões
que expressam nossos desafios, é preciso olhar para a Luz de onde emana a salvação.
*Jénerson Alves - jornalista, professor, assessor parlamentar, poeta e escritor.

Um comentário:
Parabéns pelo seu trabalho
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