Em 1993, os repentistas Zé Cardoso e Pedro Bandeira – o último considerado por Carlos Drummond de Andrade como “o Príncipe dos Poetas Populares – gravaram o LP ‘Poetas Contra o Aborto’. O tema é tratado em sextilhas como as seguintes:
“Sou contra a mãe que provoca
O aborto antecipado
Porque pratica dois erros
Além de um crime, um pecado,
O filho que está no ventre
Não pediu pra ser gerado
Não deve ser renegado
O direito de nascer
Quem mata um filho no ventre
Também se arrisca morrer
Tirando a vida de quem
Desejaria viver”
No mesmo período, Sebastião da Silva cantava uma canção – de título desconhecido por mim –, que trazia estrofes como estas:
“Afinal, ficou gestante,
Não sentiu amor materno
Com gesto repugnante
Achou no feto um inferno
Pensando em luxo e conforto,
Beleza, carro e mansão
Provocou logo um aborto
Sem a menor compaixão
Certa noite ela sonhando
Apareceu-lhe um anjinho
Com meiguice lhe entregando
O seguinte bilhetinho:
Mamãe, leia estes versos
Mas não fique constrangida
São pequeninos lembretes
Deste que privaste a vida
Foi tão pequeno o período
Que em seu ventre passei
Tão quietinho, tão miúdo
Em nada lhe magoei
Porque, mamãe, a senhora
Lançou-me um ódio profundo?
Expulsou-me antes da hora
Sem me deixar vir ao mundo?”
Em um dos CDs clássicos da cantoria, Zé Cardoso e Waldyr Teles cantam:
“Se houver amanhã, pode esperar
Toda mãe que engravida e depois mata
Colocando a criança numa lata
Para o carro do lixo carregar
Quando a voz do silêncio perguntar
Pelo filho que um dia ela gerou
Ela escuta um minuto e diz: eu sou
Ser humano com o coração de bicho
Voltará revirando o mesmo lixo
Procurando a criança onde ficou.”
Em 2004, Os Nonatos gravaram, no CD ‘Mentes Iluminadas’, os inquietantes versos:
“Aborto é um empecilho
Que ceifa o feto na fonte
E a demolição da ponte
Que liga a mãe com o filho
Negror que sucumbe o brilho
Da luz da vida da gente
Quem fizer faça ciente
Que Deus não cobra barato
Aborto é assassinato
Com o nome diferente.
Na formação biológica
O rebente humano é morto
Tem muita clínica de aborto
Que se diz ginecológica
Mas a pressão psicológica
Castiga o pai negligente
A falsa mãe inclemente
E o médico, assassino ingrato
Aborto é assassinato
Com o nome diferente
Os assassinos cruéis
Agem contra a natureza
A mulher por sobre a mesa
Prendem-lhe as mãos e os pés
Nestes crimes entre dez
É descoberto um somente
Imagine o contingente
Feito no anonimato
Aborto é assassinato
Com o nome diferente.”
Vivemos em tempos confusos. As mesmas pessoas que clamam em prol do futuro das novas gerações reivindicam que úteros se transformem em cemitérios. A despeito dos problemas sociais, científicos, éticos e espirituais que envolvem a questão, as vozes dos poetas populares nordestinos continuam ressoando notas de esperança que servem como um alerta: a melhor opção é a vida.
Jénerson Alves - jornalista, professor, assessor parlamentar, poeta e escritor.

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