29/09/19

Arte e Devoção - Poetas a favor da vida - por Jenerson Alves*

Como representantes do pensamento popular, os poetas repentistas são, em grande maioria, contrários ao infanticídio intrauterino. Basta uma rápida observação na produção destes aedos, ao longo da história, para perceber que os vates nordestinos são costumeiramente a favor da vida.
Em 1993, os repentistas Zé Cardoso e Pedro Bandeira – o último considerado por Carlos Drummond de Andrade como “o Príncipe dos Poetas Populares – gravaram o LP ‘Poetas Contra o Aborto’. O tema é tratado em sextilhas como as seguintes:

“Sou contra a mãe que provoca
O aborto antecipado
Porque pratica dois erros
Além de um crime, um pecado,
O filho que está no ventre
Não pediu pra ser gerado

Não deve ser renegado
O direito de nascer
Quem mata um filho no ventre
Também se arrisca morrer
Tirando a vida de quem
Desejaria viver”

No mesmo período, Sebastião da Silva cantava uma canção – de título desconhecido por mim –, que trazia estrofes como estas:

“Afinal, ficou gestante,
Não sentiu amor materno
Com gesto repugnante
Achou no feto um inferno
Pensando em luxo e conforto,
Beleza, carro e mansão
Provocou logo um aborto
Sem a menor compaixão

Certa noite ela sonhando
Apareceu-lhe um anjinho
Com meiguice lhe entregando
O seguinte bilhetinho:
Mamãe, leia estes versos
Mas não fique constrangida
São pequeninos lembretes
Deste que privaste a vida

Foi tão pequeno o período
Que em seu ventre passei
Tão quietinho, tão miúdo
Em nada lhe magoei
Porque, mamãe, a senhora
Lançou-me um ódio profundo?
Expulsou-me antes da hora
Sem me deixar vir ao mundo?”


Em um dos CDs clássicos da cantoria, Zé Cardoso e Waldyr Teles cantam:

“Se houver amanhã, pode esperar
Toda mãe que engravida e depois mata
Colocando a criança numa lata
Para o carro do lixo carregar
Quando a voz do silêncio perguntar
Pelo filho que um dia ela gerou
Ela escuta um minuto e diz: eu sou
Ser humano com o coração de bicho
Voltará revirando o mesmo lixo
Procurando a criança onde ficou.”

Em 2004, Os Nonatos gravaram, no CD ‘Mentes Iluminadas’, os inquietantes versos:

“Aborto é um empecilho
Que ceifa o feto na fonte
E a demolição da ponte
Que liga a mãe com o filho
Negror que sucumbe o brilho
Da luz da vida da gente
Quem fizer faça ciente
Que Deus não cobra barato
Aborto é assassinato
Com o nome diferente.


Na formação biológica
O rebente humano é morto
Tem muita clínica de aborto
Que se diz ginecológica
Mas a pressão psicológica
Castiga o pai negligente
A falsa mãe inclemente
E o médico, assassino ingrato
Aborto é assassinato
Com o nome diferente

Os assassinos cruéis
Agem contra a natureza
A mulher por sobre a mesa
Prendem-lhe as mãos e os pés
Nestes crimes entre dez
É descoberto um somente
Imagine o contingente
Feito no anonimato
Aborto é assassinato
Com o nome diferente.”

Vivemos em tempos confusos. As mesmas pessoas que clamam em prol do futuro das novas gerações reivindicam que úteros se transformem em cemitérios. A despeito dos problemas sociais, científicos, éticos e espirituais que envolvem a questão, as vozes dos poetas populares nordestinos continuam ressoando notas de esperança que servem como um alerta: a melhor opção é a vida.

Jénerson Alves - jornalista, professor, assessor parlamentar, poeta e escritor.


Nenhum comentário: