15/09/19

Arte e Devoção - O Diabo nosso de cada Dia - por Jenerson Alves

Lúcifer Netflix, Fox Broadcasting Company
A figura do ‘diabo’ exerce um certo fascínio, que se expressa em diversas obras literárias, com feições e arquetipias diferenciadas. No clássico ‘Fausto’, Mefistófeles assim se apresenta: “Sou o espírito / que estorva sempre. E com razão, pois tudo / quanto nasceu merece ser aniquilado; / portanto era melhor não ter nascido. / Meu elemento é o que chamais vós outros / Destruição, Pecado, o Mal, em suma”.

Em ‘Paraíso Perdido’, a imortal epopeia de John Milton, Satã é aquele que, “Confiado num exército tamanho, / Aspirando no Empíreo a ter assento / De seus iguais acima, destinara / Ombrear com Deus, se Deus se lhe opusesse, / E com tal ambição, com tal insânia, / Do Onipotente contra o Império e trono / Fez audaz e ímpio guerra, deu batalhas.”

C.S. Lewis, em ‘Cartas do Inferno’, apresenta missivas de um demônio amadurecido para um aprendiz. Na Carta número VII, o preceptor declara com todas as letras de que é essencial aos demônios manter a “política de auto-ocultação”, negando a própria existência. “O fato de que ‘diabos’ são figuras predominantemente engraçados na imaginação moderna irá ajudar bastante você. Se alguma débil suspeita de nossa existência começar a se formar na mente dele (do ‘alvo’ do demônio aprendiz), sugira a ele uma figura usando malha vermelha e rabo pontudo e convença-o de que já que ele simplesmente não pode acreditar naquilo (...)”.

O diabo também aparece em obras da literatura de cordel. No conhecido folheto ‘A Chegada de Lampião no Inferno’, escrito por José Pacheco, Satanás aparece como uma espécie de instrutor dos demais departamentos do inferno. Logo no início do poema, Satanás ordena que seja preparada uma milícia com o intuito de enfrentar o cangaceiro nordestino.

A série ‘Lúcifer’, lançada pela Netflix e adaptação dos quadrinhos da DC, busca apresentar um Diabo simpático. Cansado da vida nas trevas, ele se muda para Los Angeles e abre um piano-bar. O espectador sente uma certa afinidade pelo Senhor das Trevas, que é apresentado de uma forma mais humana.

Para além das representações artísticas, a influência de satanistas como Aleister Crowle é nítida nos dias de hoje. É possível perceber o lema “ "Faze o que tu queres será o todo da Lei” imiscuído na cultura pop, em movimentos políticos, nos noticiários de imprensa, nas peças publicitárias, na prática de vida cotidiana e até mesmo em discursos religiosos de comunidades ditas cristãs. O contraste entre o pensamento de fazer o que se quer e a rogativa presente no Pai Nosso – “fiat volutas Tua” – é, por vezes, tão camuflado que engana até os que se julgam atentos.

Nunca é tarde para lembrar da visão de João Apóstolo: “O dragão, a antiga serpente, chamada o diabo e Satanás, que engana todo o mundo” (Ap 12:9). Ou, ainda, do alerta de Pedro: “O Diabo, vosso inimigo, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem devorar” (I Pe 5:8).

Jénerson Alves - jornalista, professor, assessor parlamentar, poeta e escritor.



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